Uma das grandes preocupações relativas à economia dos Estados Unidos tem sido os dois défices acumulados, um orçamental e outro da conta corrente. Apesar do crescimento económico demonstrado este ano, estes dois desequilíbrios não deverão continuar por muito tempo e a história económica prevê que sejam minimizados. Na década de 80, dois acontecimentos semelhantes ocorreram, e ainda que desfasados no tempo, permitem-nos verificar algumas consequências de tais desequilíbrios económicos.

Situação actual

Na era Clinton um dos grandes objectivos foi equilibrar o orçamento, fim que foi atingido em 1998 e que se acentuou até final do seu mandato com a criação de excedentes que atingiram os 2,4% do PIB. Assim que George Bush tomou conta dos destinos do país, a situação orçamental alterou-se radicalmente, fruto do aumento dos gastos em defesa, com a guerra no Afeganistão e no Iraque, e das reduções de impostos, com o intuito de promover o consumo e o crescimento económico.

As últimas previsões relativas ao orçamento são de um défice de 3,7% este ano e de 4,3% em 2004. Ainda que em dólares os défices previstos sejam os mais elevados na história dos Estados Unidos, relativamente ao PIB ainda ficam longe do valor de 6% atingido em 1983.

Do lado da balança corrente a situação é mais grave. Os Estados Unidos registaram um défice corrente no primeiro trimestre deste ano de 5,1% do PIB e as previsões apontam para um aumento até perto de 7% no próximo ano. Um défice destes obriga à entrada de capital estrangeiro de aproximadamente 3 mil milhões de dólares diariamente para o financiar.

Este défice deriva essencialmente do desequilíbrio da balança comercial, o qual surge devido a dois factores: o forte consumo interno, que obriga a um aumento das importações, e ao diferencial de crescimento da produtividade entre os Estados Unidos e o resto do mundo, que atrai capital estrangeiro, valoriza o dólar e dificulta as exportações.

A situação na década de 80



Como Presidente dos Estados Unidos tínhamos Ronald Reagan e na Reserva Federal encontrava-se o gigante Paul Volcker. O primeiro foi eleito em 1981 e embarcou numa política de redução de impostos e aumento dos gastos de defesa, o segundo estava no cargo desde 1979 e tinha como principal objectivo reduzir a inflação.

Se analisarmos os números da tabela acima, onde está demonstrada a evolução das que considerei principais variáveis económicas, verificamos dois factos. Primeiro, o aumento do défice teve consequências positivas no crescimento económico e se em 1983 o défice atingiu os 6%, o crescimento do PIB no ano seguinte foi acima de 7%. Em segundo lugar, verificamos que o aumento do défice provocou alguma subida das taxas de juro as quais subiram de 9 para 10% entre 83 e 84.

Mas um défice de 6% era insustentável e a economia durante os anos seguintes foi ajustando essa variável. A análise ao quadro permite verificar que houve uma diminuição da taxa de crescimento, apesar desta se manter bastante forte, muito acima de 3%. Mas, um dos pontos que eu gostaria de salientar é que a redução do défice foi acompanhada pela descida gradual das taxas de juro e a redução da taxa de poupança dos particulares de 10 para 7%. Logo, as consequências negativas trazidas pela política de equilíbrio do orçamento foram compensadas pela promoção do consumo privado. A sustentabilidade do crescimento económico foi gradualmente passando do Estado para os privados.

É interessante também notar que esse período de mudança na economia foi acompanhado pelo aumento do défice da balança corrente. Claro está que se a economia estava agora a ser puxada pelo consumo interno, esta teria de ter consequências na conta corrente devido ao aumento das importações. Podemos então notar, que entre 1983 e 87 o saldo da balança comercial deteriorou-se drasticamente e o dólar por sua vez começou a ressentir-se desse desequilíbrio a partir dos finais de 1985 e iniciou um movimento de desvalorização que se prolongou por alguns anos.

Chegamos assim a 1987 com o défice da conta corrente no seu pico, em 3,4% do PIB. Daqui até ao princípio da década de 90, a economia caracterizou-se por uma acentuada diminuição do crescimento, entrando mesmo em recessão, derivado da subida das taxas de juro, do ligeiro aumento da poupança e da estabilização do défice orçamental. A desvalorização do dólar fomentou as exportações, se bem que não foi suficiente para compensar os outro factores negativos, mas também criou inflação, o que levou à subida das taxas de juro.

Os ensinamentos da década de 80 são assim a meu ver dois:

- os défices têm um limite máximo algures
- o ajustamento dos défices tem como consequência a diminuição do crescimento, no caso do orçamento compensado pelo aumento do consumo privado e no caso do défice corrente compensado pelo aumento das exportações

As questões que eu ponho e as minhas dúvidas e preocupações são as seguintes:

Sabendo que actualmente vivemos com dois défices e que o ajustamento do défice orçamental tem de ser compensado pelo aumento do consumo privado, mas que o ajustamento do défice corrente só pode ser conseguido através do aumento da poupança, e sabendo ainda que a taxa de poupança nos Estados Unidos continua abaixo de 4%, apesar de ter aumentado nos últimos dois anos, e as taxas de juro estão perto de zero, onde é que a economia dos Estados Unidos vai encontrar o sustento quando chegar o momento de ajustamento? Será que assistiremos a um ajustamento desfasado que de algum modo se vá compensando e permita taxas de crescimento económico razoáveis. É que não podemos esquecer que os Estados Unidos necessitam de crescer a um ritmo elevado de modo a diminuir o output gap existente, se não correm o perigo de entrar em deflação.

Pergunto também até quando vai o resto do mundo aguentar os Estados Unidos, o país responsável por mais de 90% de criação de riqueza entre 1995 e 2002, a taxas de câmbio de mercado, segundo os últimos cálculos da Morgan Stanley?