Este artigo estará dividido em três partes, começando por uma perspectiva histórica da evolução do mercado português, passando depois para um resumo da estratégia preconizada para a identificação de Bull e Bear Markets, e, finalmente, com uma previsão do autor acerca do início do próximo Bull Market em Portugal.

1. A história

Vamos para um tempo longínquo, para trás por mais de 30 anos, e aterramos em 1970. A Bolsa de Valores de Lisboa, com sede no Torreão da Praça do Comércio, era um local visitado por muitos pequenos e grandes capitalistas, que aproveitavam o crescimento económico da era marcelista. Entre 1970 e 1973 a BVL esteve em Bull Market, e dizem os mais velhos que foi um extraordinário, infelizmente não tenho gráficos dessa altura, o que é pena, deveria existir um Museu da Bolsa ou coisa do género, um qualquer centro de história e estatísticas que auxiliasse o investidor mais curioso.

De qualquer forma, esse Bull Market terminou com a crise petrolífera de 1973, e em Abril de 1974, a Revolução dos Cravos foi uma catástrofe para os os investidores. A Bolsa foi fechada, as acções passaram a valer zero, os investidores estrangeiros ainda foram compensados com obrigações, mas o investidor português em Bolsa, viu as suas poupanças evaporarem-se ao som de Grândola Vila Morena.

Após 3 anos de reclusão, a BVL reabriu em 1977, mas uma coisa muito tímida, de meter medo, e começou logo a cair assim aos 10% ao dia após a reabertura. Ninguém queria saber de acções, isso era coisa do passado, a Bolsa estava aberta mas praticamente morta. Ainda por cima tivémos uma severa recessão económica em 1984, e o mercado esteve com tendência de descida até 1983, para em 84 arrancar para o maior Bull Market de que há memória.

Em 1984 o indíce BTA, a referência de então (só calculado no final do dia), subiu cerca de 33%, em 85 subiu uns 110% (estou a citar de memória, depois poderei revelar os dados exactos), em 1986 uns 126% e em 87 disparou meteoricamente, numa bolha especulativa gigantesca, até Outubro de 1987. Aí o cavaquismo era a luz, as pessoas habituavam-se ao capitalismo em liberdade e democracia, e a economia crescia a todo o vapor, ajudada pela entrada na Comunidade Económica Europeia. Nessa altura, as acções subiam 5% ao dia (porque era o máximo de variação permitido), falava-se de OPA´s nos cafés, uma euforia e loucura generalizadas.

Claro que o inevitável aconteceu, no meio da euforia económica a bolha explodiu, e não me venham dizer que foi por causa do «gato por lebre» de Cavaco Silva, ou mesmo por causa do Crash em Wall Street de 87, é claro que contribuiram, mas aquela ascensão era absolutamente insustentável e a explosão estava nas cartas (falar agora é fácil hehehe). A Bolsa começou a cair 5% ao dia, teve depois uma recuperação furiosa em 89, outra em 91, mas sempre coisas muito violentas em variação mas sem sustentabilidade e duração temporal. Eram coisa de 15 dias a 2 meses e o mercado mergulhava novamente, cada vez mais zangado, para novos mínimos.

A economia abrandava, o cenário era de crise, apenas o Governo de então ainda acreditava na manutenção da expansão económica. Os investidores de Bolsa, em 91 e 92 eram vistos como espécies em vias de extinção, apesar de, nos EUA, os mercados terem recuperado bem da recessão de 90/91. Os principais mercados europeus começaram a subir nos finais de 92, com a economia europeia em recessão.

Em 1993 a economia portuguesa sofreu a inevitável recessão, com o PIB português a diminuir durante 4 trimestres consecutivos (para recessão basta que diminua 2 trimestres consecutivos) e ora essa, como é possível, não é que o Bull Market começou aí, com a economia a encolher?

Aqui está todo o Bull Market que teve início em 93 (lamento mas, com as mudanças de computador, este é mesmo o gráfico mais antigo que me resta):



Repare-se no arranque em 93, foi fundamentalmente devido à subida do sector da construção, com o investimento em construção a ser um leading indicator. As taxas de juro tinham vindo em descida, mas começaram realmente a cair vertiginosamente a partir desta recessão. Em 94 e 95 o mercado estagnou, mas não veio a novos mínimos, houve aqui algumas privatizações muito importantes, como por exemplo a da PT, da Portucel, de alguns bancos, etc.

Em 96 o mercado esteve extraordinário, com uma subida muito segura e consistente, lembro-me perfeitamente do BVL 30 a subir 0.2%, 0.4% ao dia, depois com uma correcção de 0.1%, sempre assim, lentamente progredindo, para uma valorização de cerca de 35% no final do ano. Lembro-me de no final de 96 já se falar em Crash, o Crash de 87 estava muito presente na memória das pessoas, e a opinião geral ainda era de que a Bolsa era um investimento muito perigoso, ninguém se queria comprometer. Depois foi a OPV da Telecel, mais privatizações como a da Cimpor, algumas OPAs (bastantes até, que começaram em 93) e 97 começou Janeiro logo com uma subida fulgurante. Depois veio a grande privatização da EDP, que marcou o regresso do público ao mercado, senão me engano em Maio de 97.

Mas o medo do Crash ainda era sentido, e quando Hong Kong numa manhã fechou a cair 14%, a BVL abriu a cair 18% (?????), com o Dow depois a abrir a descer 7% (nessa altura não se olhava muito para o Nasdaq). Ok, abriu a cair 18% mas fechou a descer apenas 6% e continuou a sua ascensão no dia seguinte. Reparem naquele grande traço vermelho isolado no meio do gráfico, em 97, foi esse dia.

O mercado mostrou a sua vitalidade e conseguiu superar velozmente esse memorável dia, e acabou 97 a subir mais de 75%, o mercado que mais subiu em todo o mundo nesse ano. Nessa altura ninguém queria saber de investir no estrangeiro, os fundos de acções portuguesas batiam por mais do dobro a rendibilidade dos fundos europeus e americanos. E entrámos novamente na Bolha, com tudo o que era small caps a subir 20, 30 ou mesmo 50% num dia. Os rumores, as OPA´s garantidas, a febre do lucro fácil, o não vender a perder, estavam no auge.

A economia estava a crescer cerca de 4% nesse primeiro trimestre de 98, a havia já quem falasse em 5% de crescimento do PIB, em termos de taxa anual, para o conjunto de 98.

Mas depois veio a crise asiática, ou febre amarela, os EUA ficaram nervosos, a Europa também, e nós entrámos muito rapidamente em colapso, que terminou em poucos meses com o Crash de 1 de Outubro de 98 (é sempre em Outubro?), com as autoridades a fechar a Bolsa a meio da sessão, o Guterres e o Sousa Franco a acalmar os investidores na televisão, e a previsão do FMI de uma recessão mundial na capa do Diário Económico. Fecharam a Bolsa com o BVL 30 a descer 15.7%, para reabrir à tarde, para recuperar para uma variação de -9%. Esse pânico, esse extâse vendedor, foi o mínimo do mercado português desde essa altura.

O indíce recuperou, sem volume, até Janeiro, num evidente rebound técnico, para depois adormecer em quedas ligeiras até ao final de 99, até que chegou a Portugal, cerca de 1 ano depois de ter começado, a mania das tecnológicas e telecomunicações. Penso que será errado concluir que isso se tratou de um Bull Market, apesar do facto do indíce ter atingido um novo máximo histórico, a ascensão durou apenas 5 meses.

Vamos então pensar que o que se passou entre Novembro de 99 e Março de 2000 foi uma subida de um único sector no meio de um Bear Market, e que o Bear Geral começou em Março de 98, pois é isso que faz sentido em termos económicos.

Não vale a pena resumir o passado recente, a partir de Abril de 2000, penso que esse é sobejamente conhecido da maioria. Neste momento o PSI 20 está a níveis vistos apenas em 98, quase há 3 anos atrás.

2. A estratégia

Já escrevi imensos artigos acerca disto, nesta parte farei muitos links, como agora é fim de semana pode ser que tenham paciência para os ler. Comecemos por este, que trata exactamente das condições propícias para o início de um Bull Market:

18 factores para o início do Bull Market

Depois tenho vindo a analisar alguns dos pontos deste artigo (que é uma cópia fiel de um Capítulo de um artigo do Ganhar em Bolsa - justiça seja feita), no Fórum, ora vejam:

1) Gestação de um Bull Market 1 - O PIB

2) Gestação de um Bull Market 2 - As médias móveis

3) Gestação de um Bull Market 3 - a inflação

4) Gestação de um Bull Market 4 - O LAG

5) Gestação de um Bull Market 5 - O PER

Neste momento considero que o mercado começa a atingir níveis que nos permitem começar a pensar no fundo, e a não ter uma visão demasiado pessimista das coisas. Repare-se que devemos estar pessimistas quando todos os outros estão optimistas, e optimistas quando a grande multidão está pessimista. Penso que ainda não chegámos a um ponto de exaustão de tendência, que ainda não estão reunidas as condições económicas necessárias à eclosão de um novo Bull Market em Portugal. Mas quando será previsível que isso aconteça, quando e em que valores?

É essa a previsão que tentarei fazer, na parte 3 deste artigo:

3. O início do próximo Bull

Esfregando a minha Bola de Cristal (hehehe, é evidente que não tenho nenhuma, estou apenas a analisar, análise essa que poderá estar errada), mantenho a mesma opinião que tive no primeiro artigo que escrevi (aqui explico à distância de 3 anos o ciclo económico português - para ler, se desejar compreender porquê o Janeiro de 2002), em Março de 99: o Bull de longo prazo começa em Janeiro de 2002 !

Até lá prevejo descidas, com rebounds ascendentes inevitáveis, até que o mercado entre mesmo numa espiral de quedas até formar uma base no final de 2001, para iniciar a tendência ascendente em Janeiro de 2002. Daqui até lá prevejo um continuar da deterioração das condições económicas, uma subida do desemprego, queda das taxas de juro na Europa, OPA´S no final do ano de empresas muito subavaliadas, etc. Para isso espero ver cumpridas a maioria, senão praticamente todas as condições do Artigo dos 18 factores do início do Bull Market.

Penso que essas condições, tanto económicas como de pessimismo na comunidade investidora ocorreria com o PSI 20 a formar uma base no intervalo 7.000-8.000 pontos, cerca de 13 a 24% abaixo dos níveis actuais. Entretanto espero que o sector da costrução mantenha a tendência ascendente que tem vindo a demonstrar, para ser o sector estrela da Bolsa em 2001, ainda que o mercado em geral caia. Prevejo que empresas como a Somague, Teixeira Duarte e Soares da Costa pertençam ao PSI 20 no final do ano.

Isto porque o sector da construção, em termos históricos, arranca sempre antes do mercado em geral, é um leading indicator para o resto da economia. Penso que empresas não lucrativas ou em dificuldades financeiras do PSI 20, como a PT Multimédia, PTM.com, Sonae.com, Impresa, Pararede, etc, sairão do indíce ou quiçá algumas sejam até alvo de OPA´S.

Isso fará com que os rácios fundamentais do mercado se aproximem do pretendido (PER abaixo de 12, Dividend Yield superior a 3%, PBV em torno de 1, etc).

Espero que as principais Blue Chips, salvaguardando que poderão ter recuperações técnicas interessantes pelo meio, caiam ainda entre 10 a 20% dos valores actuais, para que se dê início ao novo Bull. Mas já não estaria inclinado para shortar, antes começaria a preocupar-me na preparação para o novo Bull, na angariação de capital, para por a funcionar assim que for dado o sinal.

À primeira vista pode parecer que esta visão é pessimista, mas não é, se calhar até peca por ser demasiado optimista e estar a jogar contra as probabilidades, ao afirmar que este Bear durará apenas 4 anos, visto que ainda teve uma semi bolha pelo meio.

Um abraço, espero que este artigo sirva para alguma coisa.

César Borja