A vitória é prévia à própria batalha!

Quer procurar a sua liberdade financeira no estrangeiro? Vá, mas não sem um alvo e plano estratégico.

1. Introdução

Este artigo fala acerca de investimentos directos em mercados internacionais, por parte de investidores particulares portugueses. Penso que deverá existir uma preparação prévia ao investimento, em relação a diferentes ordens de factores, que irão ser expostas neste artigo.

Começaremos por definir o alvo estratégico, isto é, em que mercado investir, para depois pensarmos no plano estratégico, ou seja, de que forma investir, qual a nossa estratégia, qual o plano de trading. Defendo que abrir uma conta numa corretora online para negociar títulos estrangeiros, sem os conhecer minimamente, sem ter uma estratégia pré-definida e estudada, é uma excelente maneira de ter muito trabalho e ainda perder dinheiro.

Este processo de estudo, primeiro do alvo estratégico, da preparação, e depois do plano estratégico, demora, na minha opinião, no mínimo 6 meses. Com 6 meses de trabalho, um investidor que já conheça as regras de trading elementares na BVLP poderá abrir uma conta num mercado internacional e começar a transaccionar. Sem este esforço prévio, talvez a iniciativa de investir no estrangeiro seja semelhante a uma ida ao Casino, local e actividade que não aprecio particularmente.

Vamos então averiguar algumas das hipóteses que poderão constituir o alvo estratégico:

2. O alvo estratégico

O alvo estratégico é um mercado. Qual é o mercado em que nos devemos especializar, sabendo que não conseguimos e não devemos especializar-nos em mais do que um?

Um dos mercados europeus, EUA, mercados emergentes, mercados asiáticos, por exemplo? Vou tentar resumir algumas das vantagens e inconvenientes destas diferentes hipóteses:

2.1 Mercados europeus (Espanha, Alemanha, França, Itália)

Vantagens:

- Não têm risco cambial
- Estes mercados têm maior liquidez que a BVLP.

Desvantagens:

- A língua não é tão fácil, nem a informação tão abundante e rápida de obter como noutros mercados internacionais.
- São também laggers, isto é, também seguem o comportamento do mercado norte americano, na maioria das vezes.
- Os regimes fiscais, e os códigos que regulamentam os mercados não são tão atractivos como nos EUA, não é tão fácil nem acessível transaccionar do lado short do mercado, por exemplo.

2.2 EUA

Vantagens:

- Língua e abundância de informação disponível.
- Possibilidade de shortar e alavancar com abertura de conta em qualquer corretora on-line
- Regime fiscal de isenção dos investidores particulares estrangeiros.
- Liderança em termos de tendências dos mercados globais.
- Uma grande oferta de activos, para qualquer perfil de risco e disponibilidade de acompanhamento.

Desvantagens:

- Risco cambial
- Necessidade de um plano estratégico melhor elaborado, pois são mais as oportunidades e os riscos.

2.3 Mercados Emergentes

Vantagens:

- Empresas baratas do ponto de vista fundamental, verdadeiros «valores»
- Grandes valorizações quando essa economia está no momento certo do ciclo económico (como alguém diz, quando se investe em mercados emergentes, o investimento não é feito em empresas, mas sim no país). Aqui a envolvente e estudo macroeconómico são essenciais.


Desvantagens:

- Elevado risco cambial
- Pouca informação disponível e dificuldades linguísticas, na maioria dos casos.
- Dificuldade na negociação e acompanhamento das cotações e gráficos, a partir de Portugal.

2.4 Mercados asiáticos (por exemplo, Japão e Coreia do Sul)

Vantagens:

- Poderão estar mais perto de um ciclo Bull do que outros mercados internacionais.


Desvantagens:

- A evidente desvantagem linguística.
- Risco cambial.
- Dificuldades na negociação.
- Ignorância em relação a regimes fiscais, em geral, informação díficil de obter por portugueses.

Por tudo o que foi exposto, parece-me óbvio que as duas opções mais viáveis são a Europa e os EUA. Penso que os EUA levam alguma vantagem, para o investidor particular português, até porque não seria muito diferente investir noutros mercados europeus e em Portugal, apenas o factor liquidez poderia influenciar, mas como não estamos a falar de grandes montantes, parece-me que os mercados norte-americanos, vulgo NYSE e Nasdaq, apresentam maiores vantagens para um investimento no estrangeiro.

Reparem que o cross Dólar/Euro não parece angariar grande risco cambial, que a informação é mais abundante nos EUA, que a língua é fácil (pelo menos para mim o Inglês é facílimo), que se poderá investir long e short, que não se pagam impostos, que as comissões são baixas, enfim, um mundo de vantagens que penso deverão colocar o nosso alvo estratégico, em termos de país, nos EUA, para uma aventura de investimento no estrangeiro.

Mas não é tudo...

Dentro dos EUA, podemos negociar apenas acções do Dow Jones, do S&P 500, do Nasdaq, apenas penny stocks, do Nasdaq 100, de um sector determinado, por exemplo tecnologia, banca, indústria, etc. Nos EUA temos mais de 10.000 acções que podem ser transaccionadas a partir de Portugal. Partindo do princípio que deveremos conhecer, pelo menos minimamente, as empresas em que investimos (porque isso nos dá vantagem, nem que seja psicológica, no trading), deveremos segmentar a coisa, escolher um leque de acção do qual nunca nos desviaremos, por uma questão de disciplina e método.

Por exemplo, um plano estratégico para acções do Nasdaq 100 e do Dow Jones não deverá ser o mesmo. Assim como transaccionar penny stocks exige tácticas completamente diferentes de transaccionar grandes blue chips. Há que definir o seu espaço, para depois adequar o plano estratégico a esse espaço.

Podia ser Nasdaq 100, mas penso ser limitativo considerar apenas empresas do sector tecnológico. Poderia ser só Dow Jones, mas também me parece muito limitativo ter um leque de apenas 30 empresas, todas grandes blue chips. Poderiam ser só penny stocks, mas não tenho tempo para as acompanhar como é necessário. Quero que sejam acções com bastante liquidez, de sectores variados, com grandes oportunidades em termos de momentum e de «value», que possa actualizar os gráficos e negociar rapidamente e a baixo custo. Mas também quero estar limitado no meu raio de acção por uma regra, que me imponha disciplina e evite que me disperse do meu alvo estratégico, que será aquele em que terei maiores conhecimentos logo vantagem.

Estou a falar de quê? Parece-me óbvio, do S&P 500. Tem acções de empresas de todos os sectores, todas as empresas têm informação abundante a circular pela internet, podem ser negociadas, long e short, em qualquer corretora on-line. 500 é um número elevado, mas não impossível de acompanhar, com uma boa organização no Metastock, em termos de filtros e Explorers e boas fontes de informação de cariz fundamental. Mas isso já faz parte do plano estratégico, o alvo estratégico, pelo menos para mim, que conto iniciar-me com investimetos no estrangeiro daqui a 6 meses, precisamente no início de 2002 (sem abandonar, ou sequer diminuir a percentagem de capital potencial para a BVLP) são as acções que compõem o S&P 500.

3. A preparação

A preparação pode e deve ser a parte mais longa do esforço nos próximos 6 meses. Vamos por partes:

3.1 Empresas
Quais são, que peso têm no índice, o que fazem, em que sector se inserem, como estão os rácios fundamentais, os resultados, as expectativas. Poderei consultar tudo isto em diversos sites financeiros, faz parte da preparação escolher os melhores em termos de fidelidade, de organização, de rapidez de consulta, etc.

3.2 Gráficos
Preciso de ter gráficos de todas as 500 empresas, no Metastock, actualizados diariamente. Para isso utilizo o serviço Reuters Data Link e o Metastock 7.2.

3.3 Acompanhamento
Na altura da negociação, não pretendo olhar para um gráfico sem não o ter sentido e estudado previamente. Quero já lá ter traçadas todas as linhas importantes, os indicadores que melhor servem aquele tipo de acção, os comentários de auxílio. Isso deverá ser feito ao longo destes seis meses, em Janeiro de 2002 conhecerei adequadamente os gráficos e história em Bolsa de todas as empresas do S&P 500, já lhes terei apanhado algumas «manias», «tiques», «padrões de comportamento», não sei se estão a ver...

4. O plano estratégico

O plano estratégico, ou plano de trading, trata de regras elementares que deverão ser definidas à partida, para que não deixemos que a emotividade nos tome de assalto, para que não nos aconteça cair na tentação de transaccionar por humores, feelings, opiniões difusas, que dão sempre mau resultado no longo prazo. Nunca nenhum trader cresceu sem ter uma estratégia pré-definida, mesmo quando não parece há que ter sempre um qualquer plano estratégico que nos sirva de guia, de luz de orientação e muitas vezes tábua de salvação no raciocínio e na tomada de decisões.

No plano estratégico deverão constar questões como a atitude, em termos temporais, perante o mercado: day trading, position trading, short term trading, long term trading, por qual devemos optar?

Obviamente, tem a ver com a disponibilidade de cada um, e também, por incrível que pareça, com o gosto de cada um. Por exemplo, não aprecio particularmente, nem o day trading, nem o long term trading, salvaguardando que «all trades start by being short term, but good ones should be long term». Na minha questão pessoal (parece que estou a escrever para mim hehehe, e estou, mas penso que ainda assim será útil para alguns) prefiro o short term trading, isto é, assim trades de 2 a 15 dias, qualquer coisa do género.

Outra das questões que deverá constar no plano estratégico, é o nível de stop loss máximo admitido em cada título, no meu caso e para o tipo de trading que pretendo desenvolver é de 10%. Também será importante definir o nível de diversificação, pessoalmente não gosto de diversificar muito, penso que uma carteira de 5-10 acções será suficiente, normalmente acabo sempre por optar pelos 5 títulos em carteira. Claro que, volto a mencionar, isto é com cada um, mas penso que estas questões deverão ser definidas antes do investimento, e não durante.

Claro que o plano estratégico poderá sofrer alterações, e é mesmo aconselhável que isso aconteça, mas nunca enquanto o mercado está aberto. Não se mudam estratégias com o mercado aberto, a flexibilidade é importante, mas mais importante ainda é a disciplina, no meu entender.

Não quero adiantar muito mais acerca do plano estratégico, poderíamos agora discutir opções entre momentum e value, entre stick with the trend e buca de excessos oversold e overbought, entre que indicadores técnicos e fundamentais usar, qual a reacção às notícias, a que tipo de notícias, etc. Mas penso que isso deverá ser feito já depois da preparação, aí o plano estratégico será mais adequado e aproximado do que depois será a realidade. Isto é, lá para Novembro/Dezembro devo começar a pensar no plano estratégico, por enquanto vou dar início à fase da preparação.

5. Conclusão

Sabendo que nos EUA, em particular no S&P 500, podemos investir short e longo, que há sempre muita liquidez, certamente suficiente para nós, com uma postura de short term trading estamos praticamente independentes do mercado em geral. Aqui iremos depender dos nossos conhecimentos e preparação, do nosso controlo psicológico, do nosso trabalho árduo, em suma, de nós! Só para isso já vale a pena considerar esta aventura... mas não sem esta preparação, plan ahead, a vitória é prévia à própria batalha!

«If you know yourself and your enemy, you will not fear battle. If you know yourself but not your enemy, you will lose a battle for every one that you win; and if you do not know yourself and do not know your enemy, you will never see victory»

César Borja