Ainda que não seja esperado uma alteração na taxa de juro para já, as expectativas de que possa haver uma mudança na política monetária durante este ano já pesa nas decisões dos investidores.

É verdade que já partir de meados do ano passado se fala de um aumento de taxas de juro, não só porque a economia registou crescimentos muito elevados, como também pelo facto de que num ciclo normal económico provavelmente uma subida já teria acontecido ou estaria mesmo muito próxima. Mas as expectativas têm sido goradas, e quem apostou que a política monetária se manteria estável durante um mais longo período de tempo ganhou.

Actualmente os futuros sobre os fed funds apontam uma provável subida das taxas de juro em 25 pontos base só no mês de Novembro, mas entretanto, desde o princípio deste ano a yield 3 meses subiu para uma zona mais neutral, pressionando em baixa o mercado accionista.



A questão que se põe é para quando a subida das taxas de juro e que influência tem nos mercados. Por exemplo, se estudarmos o que ocorreu em 1994 podemos ter algumas respostas às nossas perguntas. No início da década de 90 a economia norte-americana entrou em recessão, mais propriamente no último trimestre de 1990 e no primeiro de 91, a economia regrediu 3 e 2% respectivamente. As taxas de juro desceram dos 9% para os 3% de 1989 até 92 e mantiveram-se estáveis até Fevereiro de 94. Interessa-nos a nós entender as razões porque em 1994/95 as taxas subiram de 3% para 6%.



A economia tinha vindo a crescer consideravelmente desde a recessão de 90/91



e pela análise do Fed a economia estava a sobreaquecer, por isso era preciso elevar as taxas para um nível mais neutral. O objectivo do Fed era conseguir um “soft landing”, o abrandamento da economia em sobreaquecimento, no limiar de criar inflação, para uma economia a crescer com uma taxa de emprego elevada (full-employment growth rate) e com baixa inflação.

A inflação tinha sido de 2,7% em 1993 mas as projecções do Fed apontavam para uma ligeira subida, devido a três razões: um aumento do preço da comida, devido a má colheitas, aumento dos preços da energia e mais importante, a recente diminuição do grau de "slack" (afrouxamento) no mercado de trabalho e produtos sugerindo que as pressões competitivas que reduziam os salários e os preços seriam menos fortes e menos persuasivas do que tinham sido recentemente.



O que isto quer dizer? Quer dizer que a economia estava a trabalhar a toda a capacidade, ou muito perto disso, e nessa situação a inflação tende a subir, apesar de que com algum atraso.

Uma das mais comuns medidas de utilização de recursos é a taxa de capacidade de utilização na indústria. Este indicador subiu de 82% para 85% durante o ano de 1994, e estudos da Reserva Federal sugerem que a inflação tende a subir quando a taxa de capacidade de utilização sobe acima de 82%.

Outra medida de utilização de recursos é a taxa de desemprego. A taxa de desemprego desceu fortemente em 1994 de 6,7% para 5,4%. Os empregos totais criados atingiram uma média mensal de 294 mil, o maior aumento em percentagem desde 1988, e o emprego na indústria aumentou numa média mensal de 30 mil.

Na altura, segundo estudos da Reserva Federal a taxa natural de desemprego tendia a ser de 6,25%, caindo abaixo deste valor tenderia a pressionar os preços, e assim, nos finais de 1994 a taxa de desemprego sugeria um aumento da inflação no futuro. Penso que actualmente a taxa de desemprego natural encontra-se mais abaixo.

O índice de custo do emprego até diminuiu durante o quarto trimestre de 93 e os primeiros três trimestres de 1994, de 3,6% para abaixo de 3,5%, mas com a diminuição da taxa de desemprego era esperado uma inversão desta evolução.



Outros indicadores que se teve em conta foram as expectativas dos consumidores e empresários relativamente à evolução da inflação, e todos estes indicadores apontavam para uma subida da mesma.



A subida das taxas de juro em 1994 pressionou o mercado accionista e a subida que ele vinha a verificar desde finais de 1990 teve uma pausa nesse ano.



O Fed conseguiu cumprir os objectivos, a economia em 1995 abrandou o crescimento, mas sem entrar em recessão, e a inflação manteve-se controlada em 3%.

Actualmente, os indicadores ainda não são todos coincidentes, mas em alguns pontos se encaminham. A economia está a crescer há vários trimestres consecutivos, nos anos 90, a taxa de juro foi aumentada no 12º trimestre consecutivo de crescimento, actualmente estamos no 10º trimestre consecutivo de crescimento, o 12º será no terceiro trimestre deste ano.



No mercado de trabalho nota-se ainda pouca criação de postos de trabalho, mas o número tem vindo a crescer e além disso, os pedidos de subsídio de desemprego têm estado constantemente abaixo da média de 400 mil, apontando para um aumento da criação de emprego nos próximos meses.



A taxa de capacidade de utilização é que está a valores muito abaixo dos verificados nos anos 90, apenas em 76%.



As últimas projecções da Reserva Federal para 2004 apontam para uma diminuição da taxa de desemprego, mas os preços, através do indicador PCE (personal consumer expenditures) deverão se manter estáveis, ou até diminuir ligeiramente.



Pela análise dos dados actuais e se tudo corresse sem precalços as taxas de juro poderiam vir a ser aumentadas nos finais deste ano, mas é preciso ter em conta que a situação actual da economia norte-americana é diferente, principalmente na menor capacidade dos consumidores de contribuir para o crescimento devido à diminuição da taxa de poupança para valores muito perto de zero



e pelo facto de no ano 2000 ter-se vivido uma bolha financeira e o estudo do caso japonês apontar para a manutenção de uma política monetária expansiva por um período superior ao normal.

Fica a questão, se as taxas de juro se mantiverem em 1% além do final deste ano, teremos a continuação da subida dos mercados, apoiado na expansiva política monetária, e será que o dólar não entrará novamente em desvalorização de modo a contribuir para o crescimento da economia, já que se verificará que o consumo interno não está a corresponder com a mesma força do que em outros ciclos económicos?

João Henriques
www.clubeinvest.com