1. Introdução

Numa altura em que se debate o Estado da Nação no Parlamento, e em que os políticos e economistas, assim como a sociedade em geral, se pronunciam acerca de questões económicas, acho estranho que ainda não se tenha falado do que irei expôr a seguir. Certamente não interessa a ninguém lembrar isto, talvez seja melhor não conhecer a realidade, mas os factos são indesmentíveis.

Para que a mensagem seja bem transmitida, terei de me alongar consideravelmente por 7 partes, e peço desde já desculpa por isso.

2. Noções macroeconómicas básicas

Todos falamos dos conceitos a seguir, mas pelo que tenho visto, a esmagadora maioria das pessoas não sabe do que está a falar. Tem uma ideia vaga, mas que não é suficiente para o tipo de análise que iremos abordar. Assim,

PIB = Consumo (C) + Investimento (I) + Gastos Públicos (G) + Exportações (Ex) - Importações (Imp)

Recessão = Dois trimestres consecutivos de diminuição do PIB real (ou PIB a preços constantes)

Produtividade = Produto por trabalhador por hora de trabalho (pode ser medida de outras formas)

E já chega, só precisamos destes três importantes conceitos para compreender a mensagem deste artigo.

3. A série do PIB português desde 1960

Nos próximos gráficos iremos ver como se comportou a variação do PIB português nos últimos 40 anos. De 1960 a 1981 as taxas de variação são anuais, e estão representadas no seguinte gráfico:


Vemos aqui uma época de elevado crescimento na década de 60 (já na de 50 tinha sido assim, no período de ouro da economia mundial), e o maior crescimento anual de sempre desde que há registo em Portugal, de mais de 11% no ano de 1973. Depois, com a crise petrolífera que afectou todo o Mundo no final de 73, e com a Revolução de Abril de 74, foi um ápice até que a maior expansão anual de sempre se tranformasse numa brutal recessão. - 4.2% no PIB de 75, no período do PREC. Recessão nº 1 a assinalar, em 1975.

Após 75, a economia recuperou para taxas de crescimento baixas, numa relativa letargia económica, quando comparada com outros ciclos de expansão. Isto embora eu não relacione os factos com a orientação política, é precisamente isso que este artigo pretende refutar, em certa medida pelo menos.

Após 81, as variações já são trimestrais, e aqui está o gráfico:


Cá está a recessão de 1984, ao que se seguiu um período de grande euforia económica e também bolsista, nos primeiros governos de Cavaco Silva. Curiosamente, ou talvez não, reparem que o Bull começou em 84 e terminou em 87, isto é, o mercado começou a subir com a economia em recessão e a cair antes do pico da expansão económica, algo para se saber e reflectir, mas não é esse o meu propósito nesta altura.

Em certa altura a economia começou a dar sinais de si, a partir dos anos 90, e em 93 foi inevitável, estávamos novamente em recessão económica, lembrem-se, dois trimestres consecutivos de diminuição do PIB. Depois disso a economia recuperou novamente, mas este ciclo está a ter uma taxa média de crescimento anual ligeiramente inferior ao ciclo 84-93. Também a recessão foi menos grave em 93 do que em 84. Por outro lado, este ciclo parece mais ordenado, o crescimento não tem oscilado tanto, mantendo-se em torno dos 3%.

A registar deste ponto do artigo as últimas 3 recessões económicas em Portugal, 1975, 1984, 1993.

Para este ano, as previsões apontam para um crescimento do PIB no máximo de 2%, o mais baixo desde 94, e revelador de uma clara inversão na fase do ciclo, apontando para os riscos de um «downturn» severo em 2002. Mas vamos por partes...

4. A Teoria dos Ciclos Económicos de Juglar

Juglar foi o principal economista clássico que se debruçou sobre a questão dos ciclos económicos. Foi aquele que mais profundamente estudou e elaborou teorias acerca do carácter cíclico das crises económicas e chegou à conclusão que em condições «normais», numa economia desenvolvida, os ciclos de negócios têm uma duração temporal de 9 anos. Desde a Revolução Industrial até à 2 Guerra Mundial a sua teoria dos ciclos de 9 anos encaixa na perfeição no comportamento das principais economias mundiais. Quase invariavelmente, com pequenas variações devido a externalidades económicas, como por exemplo guerras, secas, pestes, etc, essas economias tiveram recessões de 9 em 9 anos, desde 1787 até ao período da 2ª Guerra Mundial.

Aí o padrão foi totalmente quebrado, no período de ouro do crescimento económico moderno, que já referi, entre 1950 e 1973. Nesse período, as políticas anti-ciclícas baseadas fundamentalmente nas teorias de John Maynard Keynes, conseguiram evitar qualquer recessão. Quando o desemprego subia, aumentavam-se os Gastos Públicos (G) e desciam-se as taxas de juro (estimulando o I e o C), o que evitava a recessão. Quando era a inflação que subia, diminuia-se o G e aumentava-se o r (taxa de juro), a economia desacelarava e andávamos nisto, sempre com crescimentos muito elevados e grande confiança dos agentes económicos.

Porém, a festa estragou-se em 1973, com as políticas anti-cíclicas a irem pelo cano, numa altura em que tivémos estagflação (recessão económica, desemprego, e inflação ao mesmo tempo). Aí concluíu-se que o modelo teria sido corrompido, ou exagerado, e que se deveria diminuir progressivamente o peso do Estado na economia (Margaret Tatcher e Reagan), voltando ao modelo de funcionamento anterior à Grande Depressão e à 2 GM, mais assente no livre funcionamento do mercado, que é a tendência que temos ainda hoje, tornando-se quase num dogma, até em Portugal.

Mas, não me quero desviar muito do assunto, esta parte do artigo serve apenas para lembrar que, quando uma economia é deixada «à deriva», normalmente tem um carácter cíclico, e esse carácter cíclico foi traduzido num espaço temporal de 9 anos, por Juglar, e esse período tem aderência à realidade.

Será que quando nos libertámos do Keynesianismo regressámos às crises cíclicas? Será que existe determinismo económico? Não me parece, efectivamente penso que há coisas que podemos fazer para nos afastarmos destes ciclos, apenas quero realçar que se não fizérmos nada, se não mudarmos nada de estrutural, eles acontecem.

Mas, porque existem ciclos económicos?

5. A explicação dos ciclos económicos

Esta será naturalmente uma explicação sumária, nem eu estudei muito profundamente o assunto, mas há algumas noções que são evidentes para quem pensa na macroeconomia de um país.

Imaginemos que estamos num período de recessão, no final de um ciclo. A economia encolhe, como já vimos, o desemprego e as falências aumentam, os lucros das empresas, as taxas de juro, a inflação e o mercado imobiliário estão em queda. Os agentes económicos estão muito pessimistas. Porém, a baixa das taxas de juro, possivelmente algumas políticas orçamentais expansionistas e a diminuição do custo dos factores de produção (capital e trabalho) começam a atrair investidores.

O Investimento é o primeiro a reagir numa recessão. Passado algum tempo são os consumidores que recuperam algum do optimismo perdido, motivados pela subida do Investimento e pelos factores que referi anteriormente, sendo o Consumo um «coincident indicator». A economia volta a crescer, moderada ou rapidamente, depende da quebra na recessão anterior. O desemprego volta a diminuir (é um «lagging indicator»), os empresários investem cada vez mais, os consumidores também consomem cada vez mais, em princípio endividando-se com taxas de juro baixas.

A coisa vai prosseguindo até que se instala a euforia, que acontece sempre nas fases de expansão acentuada. Os investidores e empresários investem o mais que podem, os consumidores consomem o que podem e por vezes o que não podem, o desemprego cai vertiginosamente e atinge-se o chamado pleno emprego. Neste momento, todos os factores de produção estão totalmente utilizados, o capital e o trabalho esgotaram o seu potencial. Não há mais capital para investir e não há mais pessoas para trabalhar (isto tudo muito grosso modo, claro). A procura é elevada, mas a oferta já não consegue acompanhar. A inflação sobe, as taxas de juro sobem para conter a subida da inflação, o governo diminui o G porque também tinha sido contagiado pela euforia económica e o crescimento da Despesa Pública era insustentável, e voilá, o crescimento económico começa a abrandar.

Porém, os excessos cometidos têm de ser totalmente corrigidos, os empresários começam a cortar nos Investimentos, devido às subidas de taxas de juro e mercados saturados, o desemprego aumenta, os consumidores endividados já não podem gerar novos consumos, e são ainda prejudicados pelas altas taxas de juro e pelo aumento do Desemprego.

A coisa prossegue, novamente para o outro extremo (recessão) e inicia-se um novo ciclo. (Perdõem-me esta parte ser explicada de forma um pouco grosseira, mas senão fosse assim o artigo teria umas 20 páginas, e ninguém o leria. Acho que dá para ter uma ideia, do porquê que existem os ciclos económicos)

Estes ciclos só podem ser combatidos através de 3 coisas, sendo a principal o crescimento da PRODUTIVIDADE !

6. Factores explicativos do crescimento económico

Nos principais modelos de crescimento económico de longo prazo, embora existam diferenças de peso entre as várias teorias (Keynesianos, Monetaristas, Marxistas, etc), quando vamos decompor o crescimento económico nos factores de produção, L (trabalho) e K (capital), descobrimos que falta ali uma parte, a maior parte. Isto é, imaginemos que estamos a comparar o PIB de 2000 e o de 1990, em valores absolutos. O PIB cresceu X, o L (trabalho) cresceu Y e o K (capital) cresceu Z.

Grosso modo, o que se verifica é que X > Y + Z . E a diferença é abismal, é de mais de 80% na maioria dos casos. Ou seja, o crescimento do PIB não é explicado pelo aumento dos factores de produção, trabalho e capital. O aumento do PIB é explicado e motivado pela forma como esse trabalho e esse capital são utilizados na economia, numa palavra, pelo crescimento da PRODUTIVIDADE do trabalho e do capital.

7. O determinismo económico e o que falhou para Portugal

Voltamos à parte central deste artigo: ciclos económicos de 9 anos. Como vimos, recessões em 1975, 1984, 1993 e .... , muito provavelmente, 2002 !

É aliás tão provável que me espanta o espanto dos agentes económicos. No primeiro artigo que escrevi, em Março de 99, falei nisto dos ciclos económicos e que, pelo padrão que temos tido, seria natural a não ser alguma externalidade positiva, como um grande surto de inovação e produtividade, seria mais ou menos previsível a tal recessão em 2002. Até podem desconfiar do determinismo económico, como eu também desconfio, mas o padrão tem sido tão regular que é estranho não se falar nele.

Seria evitável o que se está a passar actualmente na economia portuguesa? Penso que sim, embora fosse uma tarefa extremamente difícil. Mas, com o laxismo que vimos, o adiar de reformas essenciais, isto é, com a economia deixada mais ou menos «à deriva» como disse no início do artigo, seria expectável este cada vez mais provável desfecho.

Não quero ter um cariz político, talvez devesse mesmo apagar o último parágrafo, mas posso tê-lo se dizer que no tempo de Cavaco as coisas não foram substancialmente diferentes.

0">Portugal necessita de uma mudança estrutural de longo prazo, principalmente de mentalidades, para que se consiga combater o determinismo económico. Reparem que as inovações até surgiram, mas talvez não tenham sido bem aproveitadas. Reparem que não se premeia a produtividade, o motor do crescimento económico, o próprio Estado não a incentiva, uma vez que o salário não depende da produtividade como deveria. Devem ser dados mais incentivos (em termos ideológicos) ao aumento da produtividade das empresas, dos individuos e do próprio Sector Público.

Bem, eu não sou político e já não estou a gostar deste artigo, passemos para a conclusão.

8. Conclusão

Por tudo o que expus, prevejo uma continuação natural do padrão cíclico da economia portuguesa, e como tal uma recessão económica no ano de 2002. Normalmente o Bull Market na Bolsa começa no ano em que há recessão económica (quase sempre).

Não podemos fazer mais do que contribuir na nossa quota parte para o crescimento da produtividade do trabalho, denunciar e reforçar a importância desta noção económica (poucos sabem o que é, as estatísticas e divulgação dos dados são insuficientes), e aproveitar a oportunidade gerada pela conjuntura negativa, comprando acções no início do próximo Bull Market, que mais cedo ou mais tarde chegará.

Um abraço!
César Borja