Este artigo trata uma questão que não tenho abordado nos últimos tempos, mas que nos interessa de sobre maneira a todos: o momento da economia dos Estados Unidos, e a sua influência sobre o Mundo, não só em termos cíclicos, mas talvez em termos de orientação económica e política de muito longo prazo (mais de 10 anos).

Vamos fixar-nos em dois factores que, na minha opinião, são o grande garante da ainda assim estabilidade e prosperidade económica mundial.

O que suporta o mercado americano neste momento?

1. Confiança na política monetária

A grande maioria dos agentes económicos continua a confiar que a política monetária, vulgo controle do nível das taxas de juro, será capaz de estimular o crescimento económico. A descida das taxas de juro impulsiona o Investimento Privado e o Consumo, e enfim, o crescimento do PIB e os lucros das empresas.

Como sabemos, Y = C + I + G + Ex - Imp , isto é, Produto Interno Bruto = Consumo + Investimento + Gastos Públicos + Exportações - Importações.

Ora, e isto é um pouco complicado e não vale a pena maçar-vos muito com isto, a não ser que me solicitem depois, o Consumo depende do Rendimento Disponível que por sua vez depende também negativamente das taxas de juro: quanto mais baixas as taxas, maior o Rendimento Disponível (Yd) e o Consumo (C), quanto mais altas, menor o Yd, o C e consequentemente o Y ou PIB. Parece-me óbvio que o Investimento também depende negativamente do nível das taxas de juro, quanto maiores as taxas, menor o Investimento, e vice-versa.

Isto é, uma descida das taxas de juro contribui sempre para um aumento do PIB, mas essa contribuição depende de uma questão, que os economistas chamam de sensibilidade do Investimento e do Consumo a variações na taxa de juro. Neste momento, o senso comum é de que o Investimento e o Consumo estão bastante sensíveis a variações na taxa de juro, isto é, que a política monetária expansionista por parte do FED vai realmente estimular o Investimento e o Consumo, e que o tal PIB vai voltar a crescer a taxas bastante satisfatórias, assim como os lucros das empresas.

Estamos entendidos neste ponto, voltaremos a ele mais à frente.

2. O Dólar norte americano

Penso ser consensual que uma derrocada neste momento no Dólar traria uma grande queda nos mercados norte americanos. Desde os anos 80 que o capital estrangeiro tem voado para os EUA, mas a partir de 1999 essa tendência foi cada vez mais acentuada. Reparem, todas as moedas do Mundo emagrecem à custa do dólar. É o Euro, é o Iene, é a Libra, para não falar das moedas dos mercados emergentes. Os fluxos de capitais têm sido sempre favoráveis aos EUA, tem sempre havido mais dinheiro a ir para lá do que a sair.

A valorização do dólar sempre atenua a queda dos activos financeiros, para os investidores estrageiros, que não arredam pé do NYSE e do Nasdaq, e parece que não há mesmo nenhum incentivo para trazer esse capital novamente para os países de origem, parece não haver mesmo motivo para que os fluxos de capital se invertam.

Estou convicto que esta é uma das razões que sustém os mercados americanos, nomeadamente o S&P 500, no nível em que está actualmente.

Estamos então também mais ou menos entendidos que o dólar é um suporte da maior economia mundial, e como tal também um suporte da economia global?

Problemas destes dois suportes:

1. Problemas da confiança na política monetária

O problema aqui é muito simples: é que a tal sensibilidade do Investimento e do Consumo a estímulos dados pela política montária (descidas das taxas de juro) pode ser muito baixa, pode ser insuficiente.

Reparem que, os agentes económicos estão numa ressaca de investimento. A década de 90, e em especial a partir de 95, teve taxas de crescimento do investimento espantosas, existia o dogma que dólar ganho deveria ser dólar investido, para ganhar mais dólares, para investir mais, para ganhar mais dólares, etc... Mas se calhar agora é preciso por um travão neste dogma, se calhar agora é necessário poupar, pensar melhor os investimentos, dar passos mais vagarosos e seguros. Parece-me mais ou menos evidente, vê-se que os últimos investimentos das grandes empresas estão a dar maus resultados, o mercado pode estar saturado, não se deveria investir mais, antes pelo contrário, algum desinvestimento seria prudente e já está a ocorrer.

Desta forma, a sensibilidade do Investimento a variações da taxa de juro pode e parece ser diminuta neste momento. Os empresários já investiram o que podiam e naquilo que podiam. As descidas de taxas do FED poderão ter um efeito reduzido sobre o Investimento. Aliás, há outra igualdade macroeconómica importantíssima, que é I = S, isto é, no equilíbrio, Investimento = Poupança, e nós sabemos como tem evoluído a poupança nos últimos anos.

Em relação ao Consumo, não é preciso vir eu dizer que os consumidores norte americanos, e por esse mundo fora, estão muito endividados, que a taxa de poupança é negativa, isto é, que se consome mais do que aquilo que se ganha. Se todo o salário já vai para pagar prestações, no consumidor médio ou típico, é certo que as descidas de taxas contribuirão para aliviar essas prestações, mas será suficiente para impulsionar novos consumos como é necessário?

2. Problemas do dólar norte americano

Com o arrefecimento da economia dos EUA o dólar já deveria ter caído, mas ao invés tem vindo a valorizar-se ainda mais, face a todas as outras moedas do Mundo. Isto é estranho, seria inexplicável, não fossem os EUA a economia líder mundial. O que suporta o dólar neste momento, penso serem principalmente três factores:

a) A noção de que, sendo os líderes, qualquer recuperação económica terá lá o seu núcleo e início. Para quê investir noutro lado, se primeiro têm eles de crescer, e esse crescimento só depois se espalhará pelas outras economias?

b) Os mercados financeiros norte americanos, que são muito atractivos e fáceis de aceder.

c) Consumos de produtos americanos, por parte de estrangeiros, que necessitam de trocar a sua moeda por dólares (um exemplo caricato, para se registar um domínio .com, paga-se sempre em dólares).

É claro que existem muitos mais factores, e eu nem sequer sei em que medida estes que apontei influenciam o dólar, não sei qual a sua percentagem nos fluxos, mas parece-me também consensual que os dois primeiros factores são um forte contributo para a valorização do dólar que estamos a assistir.

Porém, quando a balança potencial se alterar (os câmbios sempre se alteraram na História, uma tendência, por mais duradoura que seja, nunca dura para sempre - por exemplo, o Iene já subiu muito, e por muitos anos, face ao dólar), pode gerar-se um efeito bola de neve. Aqui poderia utilizar um pouco o pensamento contrário, se toda a gente quer dólares, ou melhor até, se toda a gente interessada já tem dólares, quem vai comprar a seguir? Basta um abanão e a coisa inverte-se, o dólar começa a resvalar e os estrangeiros ao verem o seu capital a esfumar-se começam a fugir para os seus países de origem, e os mercados accionistas caem.

Atenção, não digo que isto vai acontecer, digo que o dólar está sobreavaliado e vulnerável, que um qualquer catalisador que não sei qual pode ser, mas poderia tentar adivinhar, pode inverter a tendência dos fluxos no mercado cambial, com evidentes consequências para os mercados accionistas.

Claro que me diriam, se o dólar cai, sobe o euro, evidente. Mas já não é muito evidente que sobe o euro sobe a BVLP, e sobem os mercados accionistas europeus. Não é muito evidente, porque uma queda no dólar seria uma quebra na confiança, e uma quebra na confiança significa poupança, que só a longo prazo se torna investimento. Aliás, se isto do dólar e da perda de confiança na política monetária acontecer, já mais nada de mal poderá ocorrrer (à primeira vista), e aí poder-se-ia argumentar facilmente casos Bull, mas só a muito longo prazo.

Mas adiante...

E se estes suportes falharem?

Se a política monetária falhar (com o Greenspan a descer as taxas de juro até quase zero e isso não estimular a economia) e se o dólar iniciar uma tendência descendente, na minha opinião, talvez a solução passe por uma análise histórica, e aplicar, claro que com bastantes actualizações, a Teoria de Keynes, defendida em «A Riqueza das Nações», em 1936.

Foi assim que os EUA e o Mundo conseguiram sair da Grande Depressão dos anos 30. Foi com Keynes e com a intervenção activa do Estado na economia (lembram-se daquele G na equação do PIB, os Gastos Públicos?) que se conseguiu o maior período de crescimento sustentado e global de sempre, no período 1950-1973.

Keynes defende que, em períodos de recessão económica, o Estado deverá promover grandes investimentos, lançar grandes obras públicas por exemplo, o que a prazo irá acabar por estimular o sector privado. Claro que não é com gastos operacionais e despesa pública mal orientada como temos cá em Portugal, mas sim com verdadeiro investimento por parte do Estado.

Bem, se estes suportes falharem, temos uma Depressão económica à porta, com muito tempo para reflectirmos na solução para o retorno ao crescimento, não é preciso chamar já os Keynesianos, mas atenção, não convém esquecer que eles existiram, que ainda existem, e que as suas teorias já salvaram o Mundo e já trouxeram muita prosperidade no passado.

Se estes suportes falharem, atenção, quero identificá-los bem, a confiança na política monetária e o dólar, infelizmente terei de retirar o meu target temporal para o início do Bull em Portugal, que fixei em Janeiro de 2002, no artigo «Onde está o fundo na Lusitânia?»

E se os suportes aguentarem?

Se aguentarem, todos devemos levantar as mãos para o Céu, e agradecer, pois o Mundo não terá de sofrer grandes mudanças em termos de orientação política e económica, foi só mais um ciclo, não uma mudança estrutural, e assim mantenho o target para o início do Bull em Portugal.

Desta forma, há que ver, como se comportam os mercados norte americanos neste segundo semestre. Se ficarem por ali, por exemplo o Dow entre os 9.000 e os 11.000 e o Nasdaq entre os 2.000 e os 2.300, ou até se subirem, está tudo mais ou menos bem, a política monetária está a conseguir estimular a economia. Agora se o FED desce mais, e os mercados e o dólar começam a cair, aí, lamento imenso, mas teremos de nos preparar para tempos díficeis, claro que não eternos, pois a economia, no muito longo prazo, cresce sempre, confio no Espírito Humano e na sua capacidade para evoluir sempre. Mas há alturas na História em que esse espírito evolutivo cessa durante algum tempo, para ganhar fôlego para nova caminhada....

Apenas uma nota final, para todos quantos estão a ler este artigo e investirem nos EUA (sei que há muitos visitantes do bolsainvest que o fazem, eu próprio estou a pensar fazê-lo, como poderão ver no artigo «A vitória é prévia à própria batalha!»:

É o seguinte, embora este artigo possa parecer um ditado do Matusalém, o velho está maluco e tal, em jeito de precaução, precaução apenas, arranjem lá um meio de, se for necessário, poderem trocar os vossos dólares em euros, ok? Podem ser futuros euro-dólares, qualquer coisa do género, que vos permita sair rapidamente do dólar e voltar ao euro. Ou então da mesma forma, invistam lá, mas cubram-se do risco cambial, ou estejam preparados para o fazer, não vá o Diabo tecê-las...

Um abraço!
César Borja