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Ponto de situação

Iniciado por Paff, Janeiro 29, 2008, 12:18

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Paff

Bom dia,

Chegados a este momento, em vésperas de reunião da FED, resolvi procurar fazer um ponto de situação em relação ao particular momento em que nos encontramos e, principalmente, em relação ao futuro mais visível.

As opiniões dividem-se quanto a uma crise latente ou a uma situação já estabelecida. De facto, um conjunto de resultados absolutamente desastrosos ao nível da banca norte-americana parecem preconizar, senão mesmo confirmar, um estado de crise instalada. Um índice que tive a oportunidade de referir num post anterior, o Baltic Dry Index, sofreu uma queda abrupta ao longo dos últimos meses, confirmando pelo menos uma estagnação da galopante subida de preços de determinadas matérias-primas. As revisões de crescimento económico nas várias economias sucedem-se.

Contudo, esta crise, a confirmar-se, parece padecer de sintomas estranhos. Por um lado iniciou-se na já famosa situação do subprime, algo que está inerentemente ligado ao sector financeiro. Ora, se há sector que consegue recuperar se forma rápida a um processo de crise é este. Ainda para mais, nem todos os bancos se cozem pelas mesmas linhas, como por exemplo o Wells Fargo que, dotado de uma administração séria e previdente, tenha conseguido resultados positivos, ainda que com write-offs consideráveis. Consideráveis também foram os write-offs no Citigroup, acompanhados por uma bem menos previdente administração. Contudo, quando sheiks árabes se apressam a vir em seu auxílio não se pense que as quedas fortissímas neste papel tenham outro sinónimo que não seja - Oportunidade. Para além destes, existe uma outra entidade bancária norte americana que se apresenta como uma grande oportunidade, se bem que isso ficará para uma análise em breve, prometo-vos.

Deixo-vos um food for thought: sabiam que, retirando do panorama global norte americano de earnings, os resultados das várias instituições financeiras, na verdade, o resultado é não só positivo, mas crescente, face aos períodos anteriores comparativos?

Correcção, crise, recessão ou depressão, qualquer que seja o estágio em que nos encontramos, qualquer que seja o sector mais ou menos martirizado, tal como eu gosto de pensar, existe sempre um bull market por aí, sempre... basta estarmos atentos.

Obrigado pela vossa atenção.

Paff.


alpino

Nesta crise de origem americana, a banca é o front-office da crise, mas o back-office da crise vai aparecer nos próximos 2-3 anos, com milhões de famílias insolventes (incluindo jogadores de casino arruinados), milhares de empresas no fio da navalha e por isso milhões de desempregados.
Não é nada de novo, mas é dos livros. ::)
Há que ter paciência e esperar por novos dias.

Paff

#2
Boas tardes,

De facto a economia continua a dar sinais contraditórios. O melhor exemplo aconteceu ontem, com o aumento inesperado das encomendas de bens duradouros nos E.U.A. Apesar da crise em determinados sectores ser indesmentível, convem contudo que estejamos atentos a factores bastante particulares. Se repararem, o dólar nunca esteve tão desvalorizado, o que radica num crescimento das exportações norte-americanas para o resto do mundo. Aliás, muitos analistas, com os quais partilho a mesma opinião, defendem que devemos estar atentos, não apenas às empresas financeiras que apresentam resultados lastimáveis (veja-se o caso da UBS hoje), mas que constituem óptimas oportunidades a médio-prazo; mas a nossa atenção deverá ser desviada para um conjunto de empresas, com uma forte base exportadora, não tão dependentes da economia interna e que têm apresentado resultados bem mais animadores.

Deixo-vos este artigo do New York Times.

Orders to factories for big-ticket manufactured goods jumped unexpectedly in December, good news amid signs that the economy may be tipping toward a recession.

Durable Goods Orders Still, analysts said the 5.2 percent growth in orders, while it might bolster industrial output in coming months, probably reflected overseas demand. Domestic growth, they said, faces continuing threats from tight credit and mortgage markets that have forced consumers to retrench.



The Conference Board reported Tuesday that consumer confidence fell sharply in January on worries over deteriorating business conditions and a weakening job market.

The board's consumer confidence index dropped to 87.9 in January, from a revised 90.6 in December. That put it back about where it was in November, when it registered 87.8. The January reading was just below the 88 expected by Wall Street analysts, according to Thomson/IFR.

While acknowledging that the factory orders report, released Tuesday by the Commerce Department, was a positive sign, economists worried that it would be misinterpreted as signaling greater strength than exists.

"The U.S. economy remains under severe stress," Bernard Baumohl, managing director of the Economic Outlook Group, wrote in a research note, saying "the prospects of a recession are still very real."

Lynn Franco, director of the Conference Board Consumer Research Center, said in a statement that the consumer confidence survey — based on a sample of 5,000 American households — indicated that consumers appeared more pessimistic about the economy in January.

The survey was taken, however, before the Federal Reserve's interest rate cut of three-quarters of a percentage point on Jan. 22 and last week's announcement by the White House and Congress that they would work on an economic stimulus program. Both are aimed at bolstering consumer spending.

The strength in durable goods orders — double what analysts had expected — came from a big increase in demand for commercial aircraft. But even excluding the transportation sector, orders posted a solid 2.6 percent gain.

Despite the strong December, it was a lackluster year. Orders for all of 2007 rose just 0.97 percent after increases of 6.31 percent in 2006 and 9.45 percent in 2005. It was the poorest showing since 2002, when orders fell by 3.17 percent. In that year the country was still struggling to emerge from the 2001 recession.


Fonte: New York Times

Obrigado pela vossa atenção,

Paff.




chicoatento

#3
Saudações cordiais.
Paff, aqui vai o meu contraponto...
É verdade que nestas coisas de economia/finanças o mexilhão raramente conhece bem a situação e daí muita especulação e opção touro vs urso.
Como sabem nesta altura estou mesmo "urso".
É verdade que os árabes meteram muito dinheiro no City, mas fizeram-no por, pelo menos, 2 motivos: evitar a falência já que um tal príncipe árabe é dono se não me engano de 15% do banco; 2- porque lhes foi oferecido condições leoninas (juros entre 12-14%, qual Cofidis passe a pub; pagamento em acções mas com valor pre-determinado...). Também li que o W. Buffet lhes deu uma nega. Se aquilo fosse mesmo bom negócio...
Quanto aos lucros das companhias norte-americ. aquilo não são "flores que se cheirem". Há cerca de ano e meio/2 anos li um artigo na MSN dum tipo que "desmontava" os 33 cêntimo de lucro trimestral que a Intel acabava de apresentar. Após retirar as mais valias do fundo de pensões, remunerações em acções dos gestores não contabilizadas, mais o lucro já contabilizado sobre vendas excedentárias feitas a crédito concedido pela empresa aos clientes, aquilo vinha parar aos 4 cêntimos!
A capacidade de regeneração das empresas USA é bem verdade, mas quando o que está em questão são grandes bancos, a credibilidde fica afectada e as coisas não são tão fáceis no meu ponto de vista.
É que não é só o sub-prime. Aquela história dos CDO e CDS, envolve triliões de dollars... embora haja alavancagem e a contabilização daquilo não seja muito linear. Mas que alguém se vai chamuscar, vai...
Outro aspecto relevante é a inflação. Como é possível que a inflação ande nos 3-4% quando a M3 está elevadíssima, e o tesouro ameriacano "injecta", através de 21 bancos, todos os anos mais 15-20% de dinheiro em notas!? A este propósito, li o seguinte: "The chart above is a calculation of the CPI as it was computed in 1980, also done by John Williams of Shadow Government Statistics. The "real" CPI put out by the government right now is a joke, filled with ludicrous seasonal and hedonic adjustments that have steadily become more corrupt with each administration -- Republicans and Democrats alike. It's political manipulation in its purest and simplest form, available for use by the party in power at the time ("lies, damn lies, and statistics....."), because everybody in Washington knows that people vote with their wallets. If we really want to gauge inflation over the last 27 years, we have to use the methods in place in 1980 -- otherwise it's not even close to an "apples-to-apples" comparison." O gráfico vai em anexo (espero que o consiga colocar...) e compara como seria a inflação calculada à moda dos anos 80 com a actual...
Há mais mas por agora fic por aqui pois isto já vai longo.
Boa sorte.
O que de mais importante aprendi com as mulheres foi... saber esperar.

chicoatento

#4
Saudações cordiais.
Este corte de 50 pontos base na taxa da FED (1,25% numa semana!) só vem reforçar a minha convição de que a coisa está preta. Nenhum médico competente e sensato aplica uma terapêutica "forte", com efeitos secundários significativos numa doença banal...
Boa sorte.
Nota: leiam o post anterior para ajudar a compreender porquê de estar "urso" e não se esqueçam da pontuação... ;D
O que de mais importante aprendi com as mulheres foi... saber esperar.

Paff

#5
Bons dias,

50 pontos base depois, o que nos reserva o futuro? Quanto a mim, a situação traduz-se em duas visões de elevada probabilidade futura.

Por um lado, determinados agentes económicos, nomeadamente as famílias e as empresas, vêem o seu médio prazo um pouco mais aliviado. O fardo da dívida poderá estar para alguns menos pesado, embora muitos dos créditos, particularmente os do casos de subprime possam estar já irremediávelmente perdidos. Os próximos meses não vão ser fáceis, isso é certo, espera-se contudo que o pacote fiscal proposto pela administração Bush possa vir a resgatar alguns casos.

O outro lado da questão é, quanto a mim, bem menos enevoado. Taxas de juro inferiores traduzem-se a prazo (e considero que esse prazo serão 2 ou 3 trimestres no máximo) numa melhoria do negócio bancário, nomeadamente no que concerne à margem financeira. Como sabem, as entidades bancárias têm no cerne do seu negócio a diferença entre o que emprestam e o que pagam pelos depósitos que remuneram. Se por um lado as taxas associadas as estes créditos têm a tendência a diminuir, também as taxas a que os depósitos são remunerados o fazem. Mais. As taxas de associadas aos créditos têm no seu computo geral uma menor sensibilidade às alterações das taxas provocadas pelos bancos centrais, ao passo que as taxas que remuneram os depósitos reagem a estas alterações de uma forma bem mais sensível e directa. Em consequência, e  a médio prazo, a margem financeira tem uma evidente tendência a sofrer melhorias, tornando o negócio bancário mais rentável. Daí, que na minha opinião, todo este sector deverá começar a sofrer reavaliações, com alguns casos, nomeadamente nos EUA, a merecer uma análise cuidada devido às oportunidades que traduzem.

Também o sector retalhista poderá beneficiar. Neste sector a análise tradicional comparativa relaciona-se com as same store sales, isto é, uma comparação entre o que uma determinada loja vendeu no trimestre x do ano y, com o que a mesma loja vendeu no trimestre x do ano y+1. Ora, o ano y+1, neste caso 2008, verá muito possívelmente, em especial no 3º e 4º trimestre francas melhorias no que ao same store sales concerne. Menores taxas de juro têm esse efeito como consequência. Não se trata de vendas espectaculares, mas sim de vendas menos más em comparação com o que aconteceu nos trimestres finais de 2007. E como o mercado reage por comparações e estimativas,... bem, acho que já poderão ter uma ideia!

Muito obrigado pela vossa atenção,

Paff.

Paff

#6
Boas noites,

Parece que não estou sozinho...

Financials: 3 Reasons For a 2008 Recovery
By Gary Gordon
04 Feb 2008 at 11:00 AM GMT-05:00

Uber-stock-tracker Cramer called a bottom in financials on 1/10/08. And on this particular point, I do believe he got it right.



The Financial Select Sector SPDR (XLF) on 1/10 registered 27.41. And while the sector has closed as low as 25.50, that was the day the Fed gave the world the 3/4 emergency rate cut. The Fed followed up with another 1/2 point cut, and XLF is currently trading 6.5% higher than it traded on 1/10/08.

Could we revisit the lows of 25.5 on the Financial Select Sector SPDR (XLF)? Yes, we might. There's enough bad news on the horizon that could easily scare folks over the next 3 months.

Nevertheless, no other sector of the economy stands to benefit in 2008 than the financial sector. And here's why:

1. Consolidation. Citigroup has received billions in cash infusions from sovereign wealth funds. B of A is purchasing Countrywide. JP Morgan stands at the ready to pick up WAMU. Bear Stearns may be taken over by wealthy individual investors like Joseph Lewis. Money is pouring back into Merrill from Singapore. You simply don't get this kind of interest in U.S. financial institutions unless stock prices have nearly bottomed out.

2. Warren Buffett. Does anyone really doubt that the man knows what he is doing? Buffett has made "jillions" by acquiring scraps of broken businesses at or near a bottom. Warren intends to partner with a beleaguered bond insurer or buy one outright or start his own. All told, that means there's a profitable future in bond insurance.

3. Aggressive Rate Cuts. There's far too much skepticism about the viability of rate cutting to stimulate a broken financial system. Pessimists explain that it won't encourage lenders to lend, leaving small businesses and consumers unable to benefit. Puhhhhhhhhleeeeease. The number of people who have asked me about refinancing alone tells me that the rate cuts will help the financial sector. And with banks able to borrow at increasingly attractive rates, they're going to want to make money. Nobody makes more money than the financial sector in a rate slashing environment.

I mentioned before that my favorite way to benefit from a resurgence in financials is to take some of the risk out of investing in the sector at large. Instead, I have 3 favorite opportunities, all of which may be less volatile than the  Financial Select Sector SPDR (XLF).


Obrigado pela vossa atenção,

Paff.

berrio

Citação
Por um lado, determinados agentes económicos, nomeadamente as famílias e as empresas, vêem o seu médio prazo um pouco mais aliviado. O fardo da dívida poderá estar para alguns menos pesado, embora muitos dos créditos, particularmente os do casos de subprime possam estar já irremediávelmente perdidos. Os próximos meses não vão ser fáceis, isso é certo, espera-se contudo que o pacote fiscal proposto pela administração Bush possa vir a resgatar alguns casos.

Não necessariamente! É preciso relembrar que os americanos têm as suas hipotecas indexadas à 10 year note para cima, não às taxas de juro de curto prazo como em Portugal.

Bond market 101: as yields das obrigações mexem consoante as "expectativas" de inflação do mercado. Quanto maior a maturidade maior a sensibilidade. E neste momento a current yield da 10Year está abaixo da CPI ao mesmo tempo que a fed funds rate está abaixo da CPI - Taxas de juro REAIS negativas, o que implica politica monetária expansionista e maior inflação! Eu, enquanto investidor não quero uma obrigação que me dá 3,6% ao ano sabendo que a inflação está a 4,1% e que o Sr. Bernanke se está nas tintas para onde ela vai parar. Alias esta diferença de 0,5% significa perder 5% para um investidor a uma OT a 10 anos. Para um investidor num OT a 30 anos pode significar 15%... Logo eu vendo as 10year notes que tenho porque não me compensam o "inflation risk", logo as yields sobem até a 10year note voltar a ser atractiva... ah e opps: os pobres do hipotecados estão indexados aqui, não à fed funds, portanto 75+50 basis points de corte nao os ajuda nada se o mercado achar que a inflação está fora de controlo. Por isto é que os Bancos Centrais são INFLATION TARGETERS!

Quanto ao pacote fiscal de incentivos, é uma faca de 2 gumes:
1. Duplica o deficit actual do estado norte-americano duns pequeninos 160 Bln USD para uns não menos pequeninos 310 Bln USD.
2. Ao mesmo tempo que fases um "bailout" aos "homeowners" fazes cortes na Medicare e Medicaid (a versão minimalista deles do SNS). Ou seja o americano de classe baixa não é apanhado pela hipoteca passa a ser apanhado pela saúde.

Mas voltando ao deficit: Deficits TEM de ser pagos eventualmente. E, deficits têm uma de 2 consequencias: ou implicam maiores impostos ou implicam maior divida publica por parte do Estado. Nenhuma das opções é, julgo, agradável ou desejável.

"Mas se for financiado por dívida publica não precisas de aumentar os impostos"... bem certo mas por cada 1% de aumento no ratio Deficit financiado por divida/PIB as taxas de juro de longo prazo aumentam 25 pontos base. As contas não são minhas, são da FED!!! Ah, e opps: os hipotecados estão indexados às taxas de longo prazo...again, elas não me parecem que vão descer tão cedo.

CitaçãoO outro lado da questão é, quanto a mim, bem menos enevoado. Taxas de juro inferiores traduzem-se a prazo (e considero que esse prazo serão 2 ou 3 trimestres no máximo) numa melhoria do negócio bancário, nomeadamente no que concerne à margem financeira. Como sabem, as entidades bancárias têm no cerne do seu negócio a diferença entre o que emprestam e o que pagam pelos depósitos que remuneram. Se por um lado as taxas associadas as estes créditos têm a tendência a diminuir, também as taxas a que os depósitos são remunerados o fazem. Mais. As taxas de associadas aos créditos têm no seu computo geral uma menor sensibilidade às alterações das taxas provocadas pelos bancos centrais, ao passo que as taxas que remuneram os depósitos reagem a estas alterações de uma forma bem mais sensível e directa. Em consequência, e  a médio prazo, a margem financeira tem uma evidente tendência a sofrer melhorias, tornando o negócio bancário mais rentável. Daí, que na minha opinião, todo este sector deverá começar a sofrer reavaliações, com alguns casos, nomeadamente nos EUA, a merecer uma análise cuidada devido às oportunidades que traduzem.

Ora aqui está um problema bicudo. Em primeiro lugar estás a partir do pressuposto que os write-downs acabaram. Não julgo, quando ainda tens os 900 Bln USD de crédito ao consumo pendurados no mercado ABCP, mais as default swaps e nem vou contar com Municipal Bonds que estavam cobertas por "seguradoras" que, opps, estão a ir à falencia e precisam de um bailout.

Segundo, é verdade que os depositos a prazo são mais sensiveis à fed funds que uma hipoteca - ter um banco é realmente um negocio maravilhoso - e é por isso que descer as taxas de juro é um incentivo ao consumo, via menores taxas de juro em produtos de poupança e maior percepção de inflação. Ah, mas espera ai: vais consumir do quê? Do rendimento disponivel que já não tens? O grande problema dos EUA é a taxa de POUPANÇA NEGATIVA. Já sei crédito! Mas, se ninguém deposita o $ onde vão os bancos buscar?
Antigamente entregavam divida como colateral para mais divida e ai se gerava mais crédito, mas não me cheira que essa cole de novo. Ah já sei, vou ao Tio Bernanke buscar mais uns dólares fresquinhos da impressora?! Isso há de fazer maravilhas à inflação...e às taxas de juro de longo prazo... can anyone say "Stagflation"?!

Quanto ao "Uber-stock-tracker Cramer", que em Outubro de 2007 andava a dizer "COMPREM FINANCEIRAS", não faço comentarios. Prefiro o Jim Rogers, e concordo com ele: os meninos na Fed estão um pouco fora de controlo. Afinal é ano de eleições, não se pode ter uma recessão.

Bernanke está a brincar com fogo: Descer as taxas de juro abaixo da inflação para reiniciar o crescimento sem aumentar a ainda mais a inflação. Acrescente-se que NUNCA ninguem conseguiu essa proeza. A não ser que voltem a refazer as estatisticas e sai-a uma nova "Core core inflation", sem mais umas coisitas, que já nem a Core CPI está abaixo dos 2%!...

Abraços,
Guilherme Diaz-Bérrio
"Os economistas passam metade do tempo a fazer previsões. A outra metade passam-na a explicar por que se enganaram"
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buypsi

olá berrio , mais uma vez parabens pela fabulosa analise  ;)

1 point

Paff

#9
Bons dias,

Em primeiro lugar, obrigado Berrio pela tua análise, de facto é um prazer poder abordar estas temáticas e aprender com alguém que de facto sabe do que fala. Sem dúvidas um ponto bem merecido.

Contudo tenho algumas questões:

- Será que a inflação norte-americana tem necessáriamente que estar tabelada pelo nosso PEC? Já há muito tempo que a FED actua de forma díspar em relação ao BCE, e, como se tornou já óbvio, uns preferem uma inflação controlada (desculpa furtar-te o "oops" mas, de controlada parece não ter muito, enquanto que outros preferem uma economia a crescer). Infelizmente parece que estamos do lado da inflação "controlada" e do crescimento amorfo.

- A tua assunção relativa à poupança negativa e aos fracos rendimentos disponíveis é correcta, mas será assim tão generalizada e omnipresente? Mais uma vez, as dinâmicas internas nos EUA estão, felizmente para eles, longe de ser comparadas com as nossas. Os EUA possuem algo que a nós nos falta... chama-se flexibilidade, quer na política fiscal, quer nas política monetária.

- O déficit é de facto galopante, mas, já que mencionaste o facto eleitoral, penso que é apenas sensato que ele seja visto de ambas as perspectivas. A outra perspectiva é uma nova administração que, quer queiram quer não, será diferente, nas prioridades e nas formas de actuar. Uma grande... perdão, uma enorme parte do deficit americano fala mandarim e não me parece que esta situação de perda constante face à economia chinesa se vá manter.

Obrigado pela vossa atenção,

Paff.

Paff

Bom dia,

Nas minhas leituras diárias deparei-me com o seguinte caso: Annaly Mortgage Mgmt (NYSE: NLY).

Esta "bizarra" companhia, porque pelo gráfico em anexo "bizarro" é o seu comportamento neste mercado recessivo, parece vir confirmar que, existe sempre, mesmo nos sectores mais recessivos, mesmo na época em que tudo cai, algumas empresas que beneficiam de tudo isso... ainda inseridas no negócio hipotecário.

"Bizarro", ou será que não?

Alguns dados...

- Resultados líquidos final 2007 - $414.4 milhões - EPS -$1.32
- Resultados líquidos final 2006 - $93.8 milhões   - EPS -$0.44
- Taxa de crescimento -200%

- Dividend yield - 6.6%

- Há, e já me esquecia, simplesmente não há subprime por aqui. Em 2003 a Annaly apercebeu-se que este mercado se estava a tornar demasiado perigoso, e, como diz o CEO "(...) decidimos não ir a jogo."

... e o "bizarro" gráfico:



Obrigado pela vossa atenção,

Paff.


berrio

Citação
- Será que a inflação norte-americana tem necessáriamente que estar tabelada pelo nosso PEC? Já há muito tempo que a FED actua de forma díspar em relação ao BCE, e, como se tornou já óbvio, uns preferem uma inflação controlada (desculpa furtar-te o "oops" mas, de controlada parece não ter muito, enquanto que outros preferem uma economia a crescer). Infelizmente parece que estamos do lado da inflação "controlada" e do crescimento amorfo.

Bem, quanto à questão do crescimento "amorfo":
2006 - EUA GDP 2,9%/EU GDP 2,8%, 2007 - EUA GDP 2,2%/EU GDP 2,6%
Não chamo a isto amorfo, e desculpa la paises desenvolvidos não crescem a 10% ao ano - Balance Growth Path.

Já o disse uma vez e volto a dizer: os 2% de inflação não é um valor inventado pelos burocratas de bruxelas, é um valor aceite pela maioria dos economistas, AMERICANOS incluidos!

O BCE segue a "cartilha alemã"? Sim segue. O mandato deles é único: INFLAÇÃO. Foram feitos à imagem do Bundensbank. E porquê? Por a Zona Euro foi criada com uma especie de "hierarquia": o BCE assegurava a estabilidade de preços a todo o custo. A estabilização dos ciclos COMPETE aos Estados-membros. Lá que Estados membros como Portugal, se entretenham a fazer estadios de futebol ou a seguir politicas orçamentais pro-ciclicas em tempos de crescimento como nos anos 90 é outra questão.

A PEC dá flexibilidade: na eventualidade de uma recessão, todo o Estado membro da UE fica LIBERTO temporariaemente da restrição dos 3% de deficit. É claro que paises como Portugal não têm espaço de manobra mas isso não é do PEC! Temos uma taxa fiscal efectiva de 50%, um mercado de trabalho hiper-rigido, pouco ou nada de sector produtivo e qualificado e um "Mega Estado" que consome 65% do PIB. A Culpa é da PEC e da "falta de flexibilidade" ou dos nossos ministros das finanças que passaram à frente na escola quando nas aulas de Macro I se disse "politica keynesiana AKA CONTRA-CICLICA". Foi o homem que inventou o raio do termo, mas infelizmente a teoria geral já não é leitura obrigatória na faculdade...

Mas voltando à questão da inflação:
Os bancos centrais "brincam" com as taxas de juro de modo a fazer um fine tunning de várias variaveis. De uma forma muito simples tens 2 questões que os Bancos centrais prestam atenção: O iato do PIB/NAIRU e a curva de Philips.

O PIB não cresce sempre ao seu valor potencial. Quando está abaixo do valor potencial à espaço para diminuir as taxas de juro sem subir o nivel medio dos preços. Isto porque, ao subir a taxa de crescimento do PIB a taxa de desemprego vai naturalmente descer. Mas há um limite: uma taxa de desemprego "natural" ou "friccional" chamada de NAIRU - Non Accelarating Inflation Rate of Unemployment. Por exemplo, a NAIRU americana é à volta dos 4,9%. A única maneira de alterar a NAIRU é por modificação da productividade - quando esta aumenta, a NAIRU desce e o PIB potencial aumenta, dando espaço a um banco central.

Quando saimos do território da NAIRU ficamos sobre a "alçada" da curva de Philips: Basicamente é uma recta que diz que quanto maior a taxa de desemprego menor a inflação e vice-versa. Embora a coisa se aprenda com um modelo de equaçoes às diferenças algo chato, o raciocinio é razoavelmente simples: Se à menor emprego, existe mais stock de "possiveis empregados" - aka maior oferta - logo o seu "preço" desce. Não existe "wage inflation". Há medida que a taxa de desemprego desce o stock de "oferta de emprego" vai descendo, os já empregados vão exigindo maiores salarios, e tens "wage inflation".

O que um BC faz é escolher um valor de desemprego ou inflação, e ajustar-se a ele, a outra variavel vai a seguir.
O problema surge quando uma economia está assente em bolhas, já no seu nivel "potencial" e prestes a "falhar" - algo saudavel as recessões entenda-se! Nesse caso uma "FED" tem 2 hipoteses:
1. Deixa o motor "falhar" momentaneamente. A economia foge do seu valor potencial, o desemprego sobe, empresas não rentaveis vão à falencia, bolhas são deflacionadas. Depois é Reset: desces as taxas mas não corres o risco de "acender" a inflação.
2. Não deixas o motor "falhar". Entras logo com cortes agressivos. O problema é que A) a bolha não vai deflacionar, B) as taxas de poupança vao continuar a descer, C) a inflação vai subir em espiral.

Do ponto 2 até à estagflação é um tirinho! O problema em estagflação é o seguinte: a curva de Philips deixa de funcionar!! Desces as taxas, crias mais inflação mas a economia não cresce e o desemprego não baixa devido à inflação anterior ser demasiada e ter criado expectativas de aumentos de taxas. Um empresário não gosta de investir quando a incerteza de preços é muito grande...
Outra questão do ponto 2 é que, se fores a FED, ao baixares as taxas num pais que já está na NAIRU, estás a criar outro problema: food/energy inflation, dado que estas estão cotadas em dólares. Esse tipo de inflação é "Cost Push" e é perigosa: as empresas ou assumem o custo e esmagam margens ou não esmagam margens e aumentam os preços. Tiveste um periodo assim nos anos 70... começou também com inflação a ir aos 4% e toda a gente a dizer "é preciso crescimento", depois um presidente (Nixon) achou que, dado que já estavamos em 6% se devia criar "price controls", mas a inflação não parou. em 1979 os 4% tinham passado a 12% e só havia uma hipotese: induzir a recessão que todos estavam a evitar, subindo as taxas para 14%!! Curiosamente foi isto que permitiu o crescimento dos anos 80/90...

A moral da historia é:
A história já nos ensinou que a inflação é perigosa, imprimir notas à parva perigoso é! Não é uma questão de "O BCE é mau, a FED é boa"... é como se fossem 2 pais cada um com um filho: o primeiro (BCE) mete o filho de castigo por ele ter apanhado uma bebedeira. O puto não se diverte, coitado, passa um mau bocado, mas aprende. O segundo (FED) acha que a função de um pai é zelar pelo bem estar do filho, mas o bem estar de curto prazo, logo para conter a ressaca do puto dá-lhe mais alcool...

E nas palavras do primeiro chairman da FED "My job is to remove the punch bowl when the party is good"...o que actualmente o BCE está a fazer!
Abraços,
Guilherme Diaz-Bérrio
"Os economistas passam metade do tempo a fazer previsões. A outra metade passam-na a explicar por que se enganaram"
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Paff

Caro Berrio,

Concordo com muito do que dizes, contudo partes de um pressuposto que infelizmente é apenas teórico e, como tão bem sabes, uma média é apenas isso... uma média.

CitaçãoBem, quanto à questão do crescimento "amorfo":
2006 - EUA GDP 2,9%/EU GDP 2,8%, 2007 - EUA GDP 2,2%/EU GDP 2,6%
Não chamo a isto amorfo, e desculpa la paises desenvolvidos não crescem a 10% ao ano - Balance Growth Path.

Ponto 1 - Os 2.6% que aí constatas são uma média de um espaço económico tristemente heterogéneo. Uns crescem razoavelmente, outros vão a reboque e outros assistem da bancada. De facto os que estão na bancada são culpados da sua fraca performance. Contudo, tenho que discordar quando dizes que a PEC é flexível. Na práctica não o é de facto. Quando na verdade todos têm os mesmos instrumentos mas, as condições económicas de cada um continuam tão diferentes, não podemos cair no lirismo de querer o sol na eira e a chuva no nabal. Não são apenas as políticas internas que têm sido contrárias ao ciclo, infelizmente a política monetária também o tem sido, em especial para nós.

Ponto 2 - Para além da heterogeneidade do valor do crescimento da EU, seria interessante que tivesses colocado também os crescimentos comparativos das duas economias numa escala temporal mais longa. Daria, certamente, uma visão diferente a que queres demonstrar.

Ponto 3 - A NAIRU que tu falas, e bem devo referir, é aplicável nos livros de economia a economias fechadas, onde conceitos como imigração constante parecem ser um dado esquecido. O que me entristece na acção do BCE é a extrema preocupação com a inflação e o seguir uma cartilha que, infelizmente, acredita que o desemprego se diminui seguindo um conjunto de normativos económicos, cujo tempo de resolução involve uma escala temporal onde, vá-se lá perceber, as pessoas tentam sobreviver.
  Esta política do Euro forte, pelo menos ao nível em que está, é perniciosa e, o facto de termos constantemente um superavit comunitário da balança de pagamentos não é necessariamente um motivo de orgulho extremo. Os orçamentos querem-se simplesmente equilibrados.

Obrigado pela vossa atenção,

Paff.


berrio

E a culpa é do BCE?

Que existam na europa paises que insistem em Estados pesados, com mercados inflexiveis, impostos altos e modelos de desenvolvimento caducos, a culpa é de Trichet??!

Falas de heterogeneidade na UE: é verdade... vê os "PIGS" - nome carinhoso dado ao paises da coesão: Portugal Ireland Greece Spain.
Entraram ao mesmo nivel uns dos outros. A Irlanda apostou em educação e produtividade, corrigir o deficit que corria e diminuir o tamanho do seu estado e impostos. Hoje, não tem grande dificuldades. Espanha amealhou um superavit e desenvolveu sectores dinamicos e terciarios e hoje pode suportar uma crise. E Portugal? Portugal apostou em betão e num modelo "low cost" - mao de obra barata e pouco qualificada! A culpa agora é do BCE!?

É do BCE a culpa que, por exemplo, vários primeiro-ministros tenham incentivado os Portugueses a credito ao consumo em vez de incentivarem ao investimento!? Algo está muito mal quando um pais se queixa que não sobrevive com taxas de juro de 4%. Os nossos pais e avós viveram com taxas 3 vezes superiores a isso!

Não vejo o ministro das finanças alemão sempre a queixar-se, alias até deu o aval à politica actual do BCE...e eles tiveram os custos da reunificação: a coisa não foi barata!

A questão que me tira do sério é isto:
Todos os males europeus agora são culpa do BCE e do PEC, e já todos se esqueceram dos verdadeiros responsáveis: certos Estados Membros, como Portugal, que se esqueceram de INVESTIR...

É a baixar taxas de juro e a incentivar consumo excessivo e divida ao consumo que baixas os desemprego?! Não, é a aumentar a produtividade que se faz isso e isso faz-se com EDUCAÇÂO e QUALIFICAÇÃO. Vidé Irlanda, Suécia, Finlandia, Espanha e UK... não culpem os "maus dos monetaristas do BCE" que só vêm inflação por estes males: é a função deles! Tudo o resto competia aos Estados Membros e a utilização de fundos comunitários.

E todos nós sabemos onde certos paises, como nós, os gastamos não é?
Abraços,
Guilherme Diaz-Bérrio
"Os economistas passam metade do tempo a fazer previsões. A outra metade passam-na a explicar por que se enganaram"
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Paff

CitaçãoE a culpa é do BCE?

Que existam na Europa paises que insistem em Estados pesados, com mercados inflexiveis, impostos altos e modelos de desenvolvimento caducos, a culpa é de Trichet??!


O nosso nível fiscal não é o mais alto da Europa, vê o nível fiscal de alguns países escandinavos.

O BCE é uma entidade que condiciona a a evolução económica de uma união heterogénea, ponto final. E é aí que radica o seu mal, pois está criado sobre um conjunto de pressupostos teóricos que na práctica não se verificam. Os "maus" países, como nós temos sido, fazem parte da mesma economia até porque, seguindo o teu mote, não existem PIGS sem P.

Que nós temos a culpa da situação em que estamos ninguém dúvida Berrio. Que o BCE tem tido uma actuação irrepreensível ao longo destes anos...nem pensar. Senão, como explicas que após tudo isto, em Fevereiro de 2008 ainda estejamos preocupados com o crescimento, que é amorfo de facto, e com uma inflação que está onde está?

Ou será que o BCE apenas existe para os bons momentos da economia? Parece-me precisamente que o seu intuito de criação e existência deve ser o oposto.

Paff.