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Emoções: o pior inimigo dos investidores

Iniciado por tiagodandre, Abril 01, 2008, 03:47

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tiagodandre

:::  Emoções: o pior inimigo dos investidores

Os mercados accionistas têm registado em 2008 níveis de volatilidade sem precedentes nos últimos anos, o que naturalmente tem implicado um aumento da ansiedade por parte dos investidores.

Com efeito, a amplitude das variações diárias do índice de acções globais, no ano em curso, é o mais elevado dos últimos 5 anos, sendo que mais de um terço das sessões registou variações superiores a 1% (positivas e negativas) face ao dia anterior. O aumento da frequência das variações diárias superiores a 2% (representadas a vermelho no gráfico) é especialmente notório.



Também a amplitude da correcção de mercado vem inquietando os investidores, atingindo cerca de 17% desde meados de Outubro de 2007.

A reacção instintiva de alguns investidores será sair temporariamente do mercado accionista, procurando refúgio em activos de menor risco, esperando uma recuperação do mercado para retomar as posições anteriores. Será este o comportamento mais racional? Em que medida as emoções poderão afectar as decisões de investimento e os retornos obtidos?


Finanças comportamentais

Desde muito cedo, a ciência económica encontrou laços com a psicologia. Em 1759, Adam Smith publicou «The Theory of Moral Sentiments», onde descreve os princípios psicológicos do comportamento individual.

No entanto, apenas a partir da década de 1960 foi substancialmente desenvolvida a área de estudos científicos sobre o comportamento emocional dos agentes económicos e em que medida o seu processo de decisão afecta a formação de preços, os resultados dos investimentos e a alocação de activos.

Esta área de estudos é frequentemente designada como "behavioral finance" (finanças comportamentais), sendo associada ao trabalho de pioneiros na psicologia cognitiva como Amos Tversky (¹). Estes estudos estão principalmente relacionados com a racionalidade (ou falta dela) dos agentes económicos, integrando contributos da área da psicologia e também da teoria económica neo-clássica.

Ao longo do tempo, vários efeitos psicológicos foram identificados por diversos autores na área das finanças comportamentais. Enumeramos de seguida alguns dos mais importantes:

> os investidores tendem a ser mais optimistas sobre o investimento em acções quando o mercado está a subir e mais pessimistas quando está a descer;

> os investidores dão demasiada importância às informações recentes, e ignoram os fundamentais de longo prazo;

> os investidores tendem a investir mais nos sectores económicos e regiões geográficas que tiveram o melhor desempenho recente;

> os investidores tendem a ter excesso de confiança sobre o crescimento futuro dos resultados de empresas com preços elevados face aos seus resultados actuais e excesso de pessimismo sobre o crescimento dos resultados de empresas com preços reduzidos face aos seus resultados;

> o excesso de confiança leva os investidores a julgarem dispor de mais conhecimento do que realmente têm; desta forma, tendem a alterar demasiadas vezes a composição das suas carteiras, com os inerentes custos de transacção;

> as mulheres tendem a ter uma postura mais orientada para o longo prazo do que os homens, pelo que os seus planos de investimento tendem a produzir melhores resultados;

> os investidores com um nível superior de instrução e rendimentos tendem a obter piores resultados, devido ao seu excesso de confiança.


As emoções comprometem o resultado final do investimento

Vários estudos têm concluído que a performance das carteiras de investidores individuais é, em média, largamente inferior ao resultado dos investidores institucionais (onde o factor emocional também existe, mas pesa menos nas decisões finais).

Parece consensual que a performance inferior dos investidores individuais resulta, em grande medida, da sub-estimação dos riscos de mercado e da tendência para adicionar demasiado risco sem avaliar de forma correcta o potencial de perdas.

Estudos na área da psicologia concluíram que a dor associada à perda de 1 euro (e respectivos múltiplos, naturalmente) tem o dobro da intensidade do prazer associado ao ganho do mesmo montante.

Quando ocorrem correcções no mercado accionista, os investidores com excesso de risco em carteira não suportam a dor associada à observação contínua da desvalorização da carteira, optando por vender as suas posições a "qualquer preço". Estes investidores acabam por "comprar caro" (quando os activos já registaram valorizações elevadas no passado recente e o excesso de optimismo ignora a real tolerância ao risco) e "vender barato" (quando os activos já sofreram desvalorizações significativas no passado recente e o excesso de pessimismo os leva a abandonar o plano inicial).


A importância de ter um plano de investimento

Definir e manter-se fiel a um plano de investimento ajudá-lo-à certamente a evitar os erros mais comuns dos investidores, maximizando o resultado final.

Naturalmente, o plano de investimento mais adequado varia de investidor para investidor. Recomendamos que tenha presentes as seguintes etapas:

1. Definir objectivos

De nada serve estabelecer um plano sem saber onde queremos chegar.

Desde logo, convém definir quanto queremos ganhar, sabendo que o retorno anual estimado para o mercado accionista a longo prazo é de aproximadamente 10% (ainda que com variações consideráveis ao longo do caminho), e que para as aplicações de menor risco (como os depósitos e as obrigações) o retorno de longo prazo tenderá a ser inferior a 5% (podendo comprometer, em determinados períodos, a necessidade de repor o poder de compra perdido com a inflação).

É igualmente importante saber quanto tempo podemos ficar investidos. Conforme referimos, os mercados accionistas registam retornos anuais muito variáveis, sendo por vezes necessário um horizonte temporal alargado para repor eventuais perdas observadas no período de investimento inicial. Se sabemos à partida que só podemos ficar investidos por 1 ano, então não deverá sequer ser considerado o investimento no mercado accionista, ainda que tal implique o sacrifício da rendibilidade potencial.

2. Perceber a tolerância ao risco

É importante perceber o nível de variação do valor do património e de perdas potenciais que cada investidor está disposto a suportar, de forma a que não se sinta obrigado a alterar a sua carteira de investimentos durante uma correcção nos mercados, correndo o risco de vender os activos de maior risco na pior altura possível.

Desta forma, é fundamental que o risco implícito na carteira de investimentos seja inferior ao seu "limite de dor".

Quando o mercado regista um bom comportamento, o excesso de optimismo tende a resultar num excesso de risco, sendo frequente os investidores acreditarem que "desta vez é diferente", ou que estão na presença de um "novo paradigma". O mercado acaba por desiludi-los, invariavelmente, revertendo para a média de longo prazo. A verdadeira tolerância ao risco é frequentemente mais baixa do que os investidores tendem a admitir.

3. Definir a alocação de activos ... e diversificar

Depois de definido o objectivo de retorno, o horizonte mínimo de investimento e o risco máximo que está disposto a tolerar, será mais fácil definir a alocação entre as principais classes de activos, de acordo com o respectivo nível de risco e retorno esperados, a longo prazo.

Esta é a mais importante decisão para qualquer investidor, já que a repartição de activos entre acções, obrigações, liquidez, matérias-primas e imobiliário (entre outras classes) é responsável por mais de 90% da valorização de longo prazo de uma carteira de investimento. Uma diversificação adequada entre classes de activos diferentes, ajustada à tolerância ao risco e horizonte de investimento de cada investidor, contribui para reduzir o risco global da carteira.

4. Seleccionar os investimentos

Uma vez definidas as percentagens que vai investir em cada classe de activos, nas várias regiões geográficas e sectores de actividade, será a altura de escolher o instrumento mais  adequado. Os fundos de investimento dão-lhe acesso a uma gestão profissional para a generalidade das categorias de investimento.

É importante evitar a tentação de se basear apenas nas rendibilidades históricas para seleccionar um determinado fundo em detrimento de outro. Infelizmente, rendibilidades elevadas no passado recente poderão não resultar da capacidade e experiência do gestor, mas antes de investimentos com maior risco do que fundos concorrentes ou mesmo de pura casualidade.

Ao escolher um fundo de investimento deverá reunir um conjunto de informação que não passa apenas pelo desempenho no último ano. Destacamos, entre outros aspectos, a política de investimento, a antiguidade e dimensão do fundo, a antiguidade do gestor no fundo, a consistência e a relação rendibilidade-risco.

5. Não tentar adivinhar o sentido do mercado

A tentativa de fazer "market timing", determinando os pontos de inflexão do mercado, por forma a beneficiar de toda a subida e evitar as descidas, apesar de ser teoricamente atractiva, dificilmente poderia ser implementada com sucesso. Não é possível antever com exactidão o comportamento do mercado. Nos cenários de maior volatilidade, como o actual, essa dificuldade é ainda maior, uma vez que os mercados podem registar fortes recuperações quando menos se espera.

O timing de saída raramente é implementado de forma bem sucedida, já que os investidores tendem a sair nos momentos de maior "dor acumulada". No quadro seguinte, estão representadas sessões de bolsa do actual ciclo de mercado (índice MSCI World All Countries) em que o resultado acumulado no passado recente (1 dia, 1 mês e 3 meses) é mais negativo. Como podemos observar, o mercado tende a recuperar nos dias e meses subsequentes a correcções extremas (mais motivadas pelo sentimento dos investidores do que por dados fundamentais das empresas).



6. Rebalancear periodicamente

Conforme referimos na newsletter nº 329, o rebalanceamento periódico da carteira, repondo o peso inicialmente definido para cada investimento, impede que a alocação se afaste significativamente da inicial, o que poderia colocar em causa o plano traçado.

7. Controlar os níveis de ansiedade

Se um investidor se torna ansioso em relação aos seus investimentos, tenderá a actuar por impulso e abandonar o plano de investimento inicial, preferindo instrumentos mais seguros, mas cuja menor rendibilidade potencial poderá colocar em causa os objectivos de retorno de longo prazo.

Se possível, não ceda à tentação de acompanhar diariamente o valor dos seus investimentos, o que, inevitavelmente tende a aumentar os níveis de ansiedade e a possibilidade de erros nas decisões.

Note-se que, geralmente, não é o plano de investimento que falha, mas sim o investidor que abandona o plano, quer por sair do mercado em alturas de correcções significativas, quer por "perseguir" segmentos de mercado que recentemente registaram retornos elevados, mas que implicam níveis de risco acima da sua tolerância.


Em conclusão ...

Sendo certo que persistem incertezas quanto à real saúde do sistema financeiro internacional, em particular dos Bancos com maior exposição a activos de menor qualidade, existem também abundantes factores de suporte ao mercado accionista (conforme afirmámos na newsletter do passado dia 10 de Março), o que nos leva a acreditar que, num horizonte não muito longínquo, haverá condições para que as acções de melhor qualidade (injustamente penalizadas no passado recente) regressem ao seu valor justo.

Neste cenário, não nos parece prudente evitar por completo o mercado de acções, ainda que, se a elevada volatilidade esperada para os próximos meses não se adequar à sua tolerância ao risco, seja de rever a alocação a esta classe de activos em função do nível de volatilidade que esteja disposto a aceitar.

Acreditamos que a estratégia de investimento que tende a produzir melhores resultados, a longo prazo, é a de manter a alocação financeira adequada ao seu caso pessoal (com maior ou menor componente de acções, em função da sua real tolerância ao risco e horizonte temporal de investimento), independentemente do "ruído" de mercado, com rebalanceamentos periódicos da carteira. Não deixe que as emoções sacrifiquem de forma decisiva o resultado final do seu investimento!

(¹) Amos Tversky and Daniel Kahneman (1979) - «Prospect theory: Decision Making Under Risk»

Cortesia ActivoBank7

"Aprenda com os erros alheios. Não viverá o bastante para cometer todos os erros." (Martin Vanbee)

"Investir em conhecimento rende sempre os melhores juros." (Benjamin Franklin)

bluexip


a numero 5 é um dos disparates da bolsa.

a seguir só falta virem com a random walk  :o

Ever wonder why fund managers can't beat the S&P 500? 'Cause they're sheep, and sheep get slaughtered.
- Gordon Gekko in Wall Street