Clubeinvest.com — Arquivo Histórico (1997-2011)
Esta é uma cápsula do tempo da comunidade financeira portuguesa. Login activo para membros.
Clubeinvest.com
Home Privado Fórum Acções Índices Metastock Portfolio Managers Publicações Blogs Contacto
 

Editar as notícias:

Nova página para acompanhamento do Ouro e da Prata com centenas de acções relacionadas com o sector.

Menu principal

Combustíveis em alta, casino vazio

Iniciado por alpino, Maio 27, 2008, 18:39

Tópico anterior - Tópico seguinte

alpino

Com as nossas poupanças a serem engolidas na bomba da gasolina, não dá para jogar no casino.
Vão esperando por melhores dias, que isto não está para aventuras.

Lembram-se de os researchers andarem a prometer targets celestiais? Pois é, agora andam a prometer targets infernais.

Maldita escadaria.... LOL

DUARTINI

As tuas poupanças e as de mais alguém, porque gasolina só mesmo o indispensável, para certas voltinhas à la noche. Para o meu trabalhinho se fosse de carrinho aqui da margem sul para algueirão mem martins todos os dias gastaria uns 300€ mensais em gasolina. Como vou de transportes públicos gasto 75€ mensais no meu passe. Ora aí está um excelente negócio não é. Multiplicado por 12 meses dá cerca de 2500€ de poupança anual. O que já dá para fazer excelentes negócios com este dinheirinho.
http://strapon.pt    http://sersexy.net

Broker_Invest

Aqui está uma razão para que o Estado não baixe o ISP no combustiveis, se baixar vai perder dinheiro, mas ao mesmo tempo vai ter que pagar mais aos SCUT devido ao aumento de tráfego. Isto mais parece uma "pescadinha de rabo-na-boca"

Bons negócios.


Estado poupa 100 milhões nas Scut com a crise(28-05-2008 - 09:56)


A estagnação económica dos últimos anos tem um lado positivo: o Estado vai poupar nas estradas com portagem virtual porque passaram menos carros do que o previsto. A crise dos combustíveis vai acentuar a tendência. Em Lisboa houve uma redução de 5% no tráfego automóvel e os transportes públicos têm mais passageiros.

O tráfego nas sete auto-estradas sem portagens encontra-se em níveis inferiores às estimativas que serviram de base ao cálculo do preço a pagar pelo Estado, devido à estagnação económica.

O resultados é uma poupança média anual para os cortes públicos que deverá rondar os 100 milhões de euros, noticia hoje o "Diário Económico".
Não há mal que perdure e bem que dure sempre

alpino

Citação de: Broker_Invest em Maio 28, 2008, 11:06
Aqui está uma razão para que o Estado não baixe o ISP no combustiveis, se baixar vai perder dinheiro, mas ao mesmo tempo vai ter que pagar mais aos SCUT devido ao aumento de tráfego. Isto mais parece uma "pescadinha de rabo-na-boca"

Não entendo bem esse raciocínio das SCUT´s, mas tudo bem.

Ora, se o Estado baixar o ISP, tá-se mesmo a ver que quem vai comer essa diferença são as gasolineiras e não os consumidores, porque quem fixa os preços são elas, e não o Estado. É como no imobiliário, quando o Estado dava incentivos aos compradores das casas, o preço das casas subia, pelo que quem lucrava com isso eram os construtores, e não os compradores das casas.

Quem está a dar cabo disto tudo são os especuladores bolsistas, ao investirem em fundos e futuros petrolíferos, fazendo subir as cotações em dólares acima da própria desvalorização do dólar.
Quando a crise financeira acabar, esses especuladores irão desviar as suas aplicações para acções de bancos e empresas em geral. Quem tiver aplicações em produtos relacionados com petróleo e matérias primas que se cuide, porque podem acordar um dia mal dispostos e com os bolsos mais vazios... lol



berrio

Antes de se começar a "pregar especuladores à parede" por supostamente "darem cabo disto tudo", vamos olhar para alguns factores que têm influenciado o mercado de crude:

É verdade que existe alguma especulação no mercado de crude em particular - e commodities em geral - mas é preciso ter algum cuidado quando avaliamos o seu impacto. Em primeiro, temos de distinguir os dois tipos de especuladores presentes no mercado: o "trader" tradicional e o "index replicator".

O trader tradicional não têm grande impacto no preço. Simplesmente toma a contra-parte dos produtores, que na grande maioria estão normalmente "liquido curtos" - dado que produzem X commodity, vão ao mercado, vendem o contrato de futuros do mês que querem e "fixam o seu lucro". Este tipo de especulador é price sensitive, toma o risco que os produtores não querem, e dado que opera longo e curto, fornece liquidez ao mercado. O problema está nos Index replicators. Estes fundos basicamente replicam indices de commodities - como o Goldman Sachs Comm. Index, o AIG Comm. Index ou o Reuters CRB - e alocam grandes quantidades de capital às mesmas. Estamos a falar, por exemplo, de fundos como o Calpers - fundo de pensões da California, o maior do mundo com 200 mil milhões USD sob gestão e que recentemente alocou 2% dos seus activos a este mercado. O mero tamanho destes "meninos" torna-os largamente price insensitive com um problema acrescido: a sua metodologia é buy and hold, ou no caso dos futuros, comprar um contracto e fazer roll over ad eternum no que se chama um calendar spread. Ao todo estes "meninos" contabilizam 250 mil milhões de dólares para cima do mercado de commodities - que encaram como activo financeiro - e dado que são buy and hold não criam liquidez, muito pelo contrário extraiem liquidez do mercado...

Mas se a história acabasse aqui estava tudo muito bem: bastava correr com os especuladores. A questão é que a história não acaba aqui!

O crude oil transaccionado em NY na NYMEX é o West Texas Intermidiate, também conhecido com "light sweet crude oil". Este crude não só é menos denso - logo mais facil de refinar - como tem um baixo nível de "enxofre" baixo - normalmente abaixo dos 0,5%. Apenas 25% da produção mundial é de "light sweet crude", e cerca de 1/2 disso fica em casa - por exemplo a China produz "light sweet crude oil". Por contraste existe o "sour crude oil", mais pesado e com maior percentagem de enxofre - Por exemplo, o Irão produz crude com 2 a 3% de enxofre.

E porquê esta explicação do "enxofre no crude"? Porque nos EUA, Canadá e UE foi implementada regulamentação ambiental que obriga as refinarias a produzirem diesel com baixo teor de enxofre, logo elas preferem o WTI por ser de origem mais baixo. A maquinaria para "retirar" enxofre do "sour crude" é cara, logo a procura por este é inferior - por exemplo o Irão tem super petroleiros no Golfo Persico com "sour crude oil" à espera que alguém compre, a Arabia Saudita está a vender "sour crude oil" com descontos de 11 USD face ao preço do WTI. Isto quer dizer que o efeito "substituição" entre o WTI e o "sour crude" é muito pequeno - cerca de -0.02 de acordo com estudos efectuados. Ao todo o mercado de WTI têm 20 milhões de barris/dia transaccionados.

Traduzindo por miudos: se retirarem 1% do WTI no mercado, os preços têm de subir 25 a 40% para o mercado ajustar. E desta vez não são os "especuladores" que estão a tirar o WTI do mercado, mas sim o Dep. of Energy dos EUA. Em Agosto de 2007 eles reiniciaram o abastecimento das reservas estrategicas de crude - e só pararam agora. Eles comprar sensivelmente 1 barril de WTI por cada 2 de "sour crude". O problema é que o efeito global foi retirar quase 0,8% do mercado de WTI - que tem procura rigida via regulamentação ambiental - ou seja, o "stock pilling" do DoE foi responsável por 15 a 20 USD de súbida.

Infelizmente a história ainda não acaba aqui... algumas companhias aereas - Air France-KLM/Southwest Airlines/... - fizeram "hedge" à subida e conseguiram "fixar o custo à voltas 51 USD/barril".  Como? Simples: comprar call options sobre futuros de crude com strike a 51 USD. Ora quem vende a call option tem o risco de, se o preço subir fica a perder dinheiro, pelo que tem de fazer "delta hedging" - neste caso ir ao mercado comprar o subjacente à medida que ele sob. Isto quer dizer que este "delta hedging" age como um "magnificador" do movimento: quanto mais soube mais hedging é feito a preços mais altos.

O mesmo aconteceu quando quando os produtores fizeram hedge da produção comprando puts - aqui o raciocinio é o contrario: quem vende a put tem de ir ao mercado vender futuros à medida que o preço desce, o que levou o crude por exemplo aos 51 USD...

Mas, heis que a história AINDA não termina aqui: Inventários privados. As empresas, em especial refinarias e afins, fazem inventários quando isso lhes é rentavél, ou seja o lucro cash and carry - ou seja, comprar spot/vender futuro, ficar com a diferença - é positivo e maior que os custos de financiamento/armazenamento. Ora desde Agosto temos tido um pequeno problema: não só o custo de financiamento de todos os mercados aumento (via venda de 10Year Notes do Governo, injecções das mesmas nos bancos, e o unwind dos hedges às MBS que eram feitos comprando tresurys, e que vão sendo "desfeitos" - aka vendidas - à medida que estas descem de preço, aumentando as taxas de longo prazo) como a taxa de retorno de "Cash and Carry" virou negativa. Logo, o expectavel aconteceu: os inventários começaram a diminuir pelos que em vez de comprar spot e vender futuro, as empresas passaram longas no futuro, puxando outra x o preço para cima...

Depois existe a questão da procura: embora esta tenha sido reduzida na OCDE - grande parte via a relutancia dos paises desenvolvidos em interferir e baixar impostos - o mesmo não acontece nos paises emergentes. A China, por exemplo, tem preços controlados, pelo que a procura manteve-se articifialmente alta face a um aumento NÂO SENTIDO pela China. Embora muitos paises comecem a não ter dinheiro para suportar este "congelamento", a China ainda têm, pelo que a procura está "artificialmente" alta nos mercados emergentes.

E por último: produção. Produzir crude não se resume a descobrir um poço e cavar um buraco no chão. Existe um "lag time" entre a descoberta e a efectiva "operacionalidade do poço". Existe também outro problema: Nós estamos habituados ao "crude árabe". Este custa cerca de 10 USD/barril para extrair - a teoria "cavem um buraco no deserto e sai petroleo". Extracção nas Tar Sands do Canadá já é mais cara: cerca de 40 USD. Mas as maiores "novas reservas" do mundo estão neste momento na América do Sul: Brasil e Venezuela. Ora o crude venezuelano(do Orinoco por exemplo) não só é mais denso - mais caro de refinar - como é mais dificil de extrair - custando cerca de 60 USD/barril. O crude brasileiro, com as novas reservas que se suspeita sejam baotante grandes têm um problema: é "deep sea drilling", e como calculam é mais cara prefurar a maior profundidade no meio do Atlantico a maior profundidade, do que no meio do deserto. Um barco para começar prefuração em mar alto custa 600 mil USD/dia de aluguer verus 125 mil USD/dia à 4 anos atrás - e não há muitos.

Resumindo e baralhando:
Mesmo descontando os 15 a 20USD via DoE e os 15 a 20 USD via grandes fundos replicadores de indices, ter crude a menos de 75USD quando as grandes novas reservas custam 60 USD a tirar é um sonho. E para chegar aos 75 USD precisamos de quebras de consumo, que não estamos a verificar em grandes países emergentes como a China, pelo que se calhar é melhor não contar com crude a menos de 100 USD. E não estou a ter em conta o "prémio de risco politico" - aka Irão querer armas nucleares por exemplo - a Nigéria a sabotar poços ao mesmo tempo que inventa impostos retroactivos para cobrar à Shell/BP para financiar a petrolifera estatal que tem que colocar dinheiro nas parcerias com a Shell/BP ou o mero efeito "descida do USD" ...

E para finalizar, peço desculpa pela "seca"  ::) ::) ::)
Abraços,
Guilherme Diaz-Bérrio
"Os economistas passam metade do tempo a fazer previsões. A outra metade passam-na a explicar por que se enganaram"
LinkedIn Profile

bluexip

a bubble is a bubble

cumprimentos,
bluexip
Ever wonder why fund managers can't beat the S&P 500? 'Cause they're sheep, and sheep get slaughtered.
- Gordon Gekko in Wall Street

Pedro Miranda

Excelente post Bérrio! ;) (1 point)

Fizeste uma muito completa análise fundamental ao petróleo, muito bom mesmo ;)

abraço,
Pedro Miranda
www.clubeinvest.com

Paff

CitaçãoMesmo descontando os 15 a 20USD via DoE e os 15 a 20 USD via grandes fundos replicadores de indices, ter crude a menos de 75USD quando as grandes novas reservas custam 60 USD a tirar é um sonho. E para chegar aos 75 USD precisamos de quebras de consumo, que não estamos a verificar em grandes países emergentes como a China, pelo que se calhar é melhor não contar com crude a menos de 100 USD

O valor de $75 não é de facto um número inocente. Recorede-se que este foi o mesmo número avançado pelo presidente da Galp numa recente "Grande Entrevista" na RTP.

Para além de todos os factores avançados pelo Berrio eu acrescentaria um, que ainda não aparece muito nas parangonas. O mercado das renováveis atinge já valores apreciáveis de Capex. Por certo, que é do interesse de muitas destas empresas que o preço do petróleo suba, ou pelo menos se mantenha em níveis mais elevados. Certamente que ninguém sabe ao certo, se existem movimentos escondidos que assim o influenciem, mas por certo que a vontade e o desejo lá estão! E quando há vontade e desejo...

Paff

PS - O Calpers é um dos maiores fundos de pensões do Mundo, mas certamente que não o maior. Não sei se o Berrio se referia à percentagem que tem alocada a este tipo de investimentos, mas como capitalização total existem pelo menos 7 fundos mais amplos. Já agora, o Fundo de Pensões do Governo Japonês é o maior da actualidade, com uma  capitalização de cerca de 935 mil milhões de USD.

alpino

Citação de: berrio em Maio 28, 2008, 15:18
Antes de se começar a "pregar especuladores à parede" por supostamente "darem cabo disto tudo", vamos olhar para alguns factores que têm influenciado o mercado de crude:

É verdade que existe alguma especulação no mercado de crude em particular - e commodities em geral - mas é preciso ter algum cuidado quando avaliamos o seu impacto. Em primeiro, temos de distinguir os dois tipos de especuladores presentes no mercado: o "trader" tradicional e o "index replicator".

O preço do petróleo sobe como sobe o preço do ouro ou do imobiliário, isto é, a maior parte das vezes sem fundamentais que o justifiquem. Como também acontece nas acções das empresas. Os grandes especuladores sabem trabalhar a opinião pública e criar as condições para que os preços subam.

Em meados de 1973 o petróleo andava pelos 2,5-3,0 USD/bbl. No fim desse ano e em 1974 passava para cerca de 12 USD/bbl. Nada de fundamental na indústria havia mudado, mas a guerra do Kipour fez subir as cotações (um factor político com influência psicológica nos merfcados).

Em 1979-80 o barril atingiu cerca de 40 USD, sem fundamentais a justificar tal subida. Seis anos depois, em 1986, descia para cerca de 10 USD/bbl, embora esta descida encontrasse alguma justificação na entrada em funcionamento de algumas dezenas de centrais nucleares na Europa e Japão.

Agora, no espaço de dois anos subiu de 20 USD/bbl para os 130 USD/bbl, e com tendência para subir mais, embora haja uma desvalorização do dólar mas que não justifica tal subida do crude. Nem a OPEP entende esta loucura, pois que a produção vai respondendo à procura. Ainda não se viu racionamento nenhum em lado nenhum, apesar do aumento da procura em certos países acima do aumento médio global (China, Índia, etc.).

Na opinião de muita gente entendida, há especulação e da forte (nos mercados bolsistas e fora deles), agravada por factores políticos. Para mim, que também conheço a indústria porque já trabalhei nela durante muitos anos, não tenho dúvidas sobre isso. E só uma concertação a nível mundial que consiga regular e ou intervir nos mercados bolsistas será capaz de parar esta loucura. A globalização tem coisas boas, mas encerra também enormes perigos. O sub-prime é um deles, as cotações bolsistas de produtos essenciais são outro.

Cuidem-se!


berrio

CitaçãoEm meados de 1973 o petróleo andava pelos 2,5-3,0 USD/bbl. No fim desse ano e em 1974 passava para cerca de 12 USD/bbl. Nada de fundamental na indústria havia mudado, mas a guerra do Kipour fez subir as cotações (um factor político com influência psicológica nos merfcados).

Excepto talvez que a OPEC, enquanto Cartel produtor de petroleo, decide pura e simplesmente parar a exportação de crude para os países que apoiavam Israel na Guerra do Yum Kippur. Os EUA, Europa Ocidental e Japão simplesmente deixaram de conseguir mais crude com o embargo.

As exportações de crude dos paises arábes só desceram de 1,2 milhões de barris/dia para 19000 barris/dia no ano do embargo. Claramente não existiam fundamentais para a subida...

Também nos estamos a esquecer quem em 1971 é o fim de Bretton Woods e da "janela do ouro", ao que o dollar, a flutuar livremente desceu de valor, e que nesse ano a OPEC decide indexar o barril ao ouro, pelo que o valor por barril em USD teve automáticamente de subir!

CitaçãoEm 1979-80 o barril atingiu cerca de 40 USD, sem fundamentais a justificar tal subida. Seis anos depois, em 1986, descia para cerca de 10 USD/bbl, embora esta descida encontrasse alguma justificação na entrada em funcionamento de algumas dezenas de centrais nucleares na Europa e Japão.

Outra época claramente sem fundamentais: o segundo maior produtor do mundo sofre uma revolução interna em 1979 e faz um embargo ao ocidente - a produção diária passa de 6 milhões de barris para 1,2 milhões de barris/dia. E há falta de fundamentais, no ano seguinte o mesmo país invade o vizinho iraque e como consequencia a produção dos dois paises quase que pára.

A descida de 1985/1986 deveu na altura porque pela primeira vez os paises "não OPEC" estavam a produzir e exportar mais crude que a OPEC no seu conjunto, a OCDE tinha aumentado a sua efeciencia energetica  do parque automóvel - devido aos choques de 1973/1979 - e com a entrada em funcionamento da infra-estrutura nuclear.

Abraços,
Guilherme Diaz-Bérrio
"Os economistas passam metade do tempo a fazer previsões. A outra metade passam-na a explicar por que se enganaram"
LinkedIn Profile

Raro-x

Tenho que reconhecer q a análise é muito "profunda" para mim, mas fiquei com uma boa ideia sobre o negócio do "ouro negro"...

Abraço!

berrio

CitaçãoAgora, no espaço de dois anos subiu de 20 USD/bbl para os 130 USD/bbl, e com tendência para subir mais, embora haja uma desvalorização do dólar mas que não justifica tal subida do crude. Nem a OPEP entende esta loucura, pois que a produção vai respondendo à procura. Ainda não se viu racionamento nenhum em lado nenhum, apesar do aumento da procura em certos países acima do aumento médio global (China, Índia, etc.).

Normalmente, depois de alguma explicação sobre o preço dos combustiveis, a resposta costuma ficar algures entre "uma bolha é uma bolha" e o "a oferta da OPEC tem respondido à procura" passando pelo "existe hoje tanto petroleo como à 35 anos atrás". Logo, o preço actual deve ser seguramente "especulação" do "grande capital" e das "grandes petroliferas"...

Paremos dois segundos antes de nos atirarmos à goela do "grande capital" para observar a produção mundial de crude. Actualmente esta está nos 85 Milhões de Barris por dia, mas é preciso não esquecer que à medida que este vai sendo extraído, os poços perdem produtividade - por exemplo por menor pressão dentro do mesmo. Esta perda de produtividade é, em média, cerca de 4,5% da produção.

Isto significa que só para manter a produção constante, tem de ser colocados em operação novos poços capazes de compensar esta perda de produtividade. Colocando a coisa de outra forma: para manter a produção constante é preciso todos os anos, novos poços que debitem um total de 3.8 milhões de barris por dia.

Isto leva-nos a uma "pescadinha de rabo na boca": à medida que aumenta o consumo mundial a oferta mundial de crude tenta acompanhar aumentando a produção, mas isso implica que o valor de novas reservas necessárias para compensar a perda anual de produtivade aumenta também. Num recurso finito - nem precisa de ser escasso - este processo tem invariavelmente um fim: um "planalto" de produção, ou seja, um ponto a partir do qual a produção mundial deixa de subir.

Um segundo problema com a produção actual de crude é uma sigla chata: ERoEI - Energy Return on Energy Invested. Ou seja, qual é o ratio de energia que eu extraí face à energia que eu usei para a extração. Quanto maior o ratio melhor: o objectivo é eu ter o maior valor possivel de "energia liquida", em especial tendo em conta que estou a remar contra uma maré de "4,5% nova produção necessária só para manter as coisas constantes"...

O problema é que nós já usámos a grande maioria dos "bons poços" - do "light sweet crude oil", o facil de refinar - onde o ERoEI era igual ou superior a 100. Por comparação, extração das "areias de alcatrão" do Canadá tem um ERoEI de 5, o que quer dizer que consume-se 20 vezes mais energia a extrair este crude. O ERoEI do ethanol, por exemplo é 1.2. O mesmo se aplica ao crude mais pesado (Sour crude iraniano, Venezuelano, Brasileiro, Saudita, etc) que exige mais energia na extração e refinação. (Daqui virá o argumento para o post seguinte: o facto de também não ser bom para a indústria - Galp, BP e afins - que a energia dispare sem controlo)

Outra questão curiosa é que os países produtores e exportadores estão hoje mais ricos. Por cada 10 USD de súbida do preço do barril, os paises do Golfo ganham mais 57 mil milhões de USD. A Rússia mais 25 mil milhões de USD, 10 mil milhões para o Irão e 8 a 9 mil milhões USD para a Noruega e a Venezuela. Estes países - com a excepção da Noruega - hoje estão mais ricos e têm mais dinheiro para consumir. Regra geral, maior consumo implica maior gasto energético, e isso ocorreu: hoje estes produtores consomem mais energia que à 30 anos atrás, pelo que exportam menos para o resto do mundo.

Isto quer dizer que além do aumento do consumo da OCDE e dos países emergentes como a China, India, Brasil e outros, os países exportadores exportam hoje menos, porque parte da produção "fica em casa". Além do mais, para produzir crude eu consumo hoje mais crude do que consumia à 35 anos atrás. Em cima de isso tudo, tenho que também compensar a perda de produtivade dos poços com 3,8 milhões de novos barris por dia, usando para isso poços novos mais caros de explorar e menos eficientes do ponto de vista energético.

A isto chama-se "Peak Oil", e é a justificação para um facto que (finalmente) se tornou por demais evidente e inegável: a produção mundial não só está num pico como tem estado constante face a uma procura crescente e prevê-se - estimativas optimistas - que a partir de 2012/2015 a produção mundial comece a decrescer...

continuam admirados com crude a mais de 100 USD?
Abraços,
Guilherme Diaz-Bérrio
"Os economistas passam metade do tempo a fazer previsões. A outra metade passam-na a explicar por que se enganaram"
LinkedIn Profile

tiagodandre

Parabéns berrio por mais um brilhante "Resumo" de ciências económicas... ;)

O que disseste está correcto e quem quiser mais informação sobre a matéria recomendo o seguinte site:

O Pico de Hubbert
http://www.aspo-portugal.net/hubbertpeak.asp


No entanto, o que se passa actualmente tem mais rótulo de bolha de curto prazo e porque?...tenho utilizado outro tópico para manifestar a minha opinião...

O Petróleo, o Dolar vs Euro, os mercados emergentes e as renováveis!...
/forumbolsa/index.php?topic=44793.msg89338#msg89338


Ou seja, o mercado só está a incorporar as notícias negativas (pressão compradora) no preço, já para não falar na "mãozinha" das casas de investimento (tal como ontem), que nos últimos dias não param de largar comunicados de estudos a apontar valores de 150$-200$ para o barril de petróleo...por isso é lógico pensar que estes $130 estão bem contaminados pela especulação...o que não é lógico é esperar efectivamente que o preço volte para valores abaixo de 80$...

Todos os factores que mencionaste estão correctos, e já são debatidos há muito tempo...a solução passa pela implementação de nova tecnologia (+ barata), bem como o aumento dos equipamentos para Deep Water Oil Drilling...quando se lê uma notícia destas dá que pensar...

Petrobras aluga 80% do material perfurador de águas profundas
http://www.jornaldenegocios.pt/default.asp?CpContentId=317431

...ou seja, os custos neste momento são elevados, mas não quer dizer que não possam baixar...com certeza que outras empresas irão aproveitar este boom de negócio...
(Nota: A GALP é que vai pagar uma bela factura...quero ver como vão arranjar capital..)

O consumo está a cair na América e a própria China também está a desenvolver esforços para quebrar a procura deste "fóssil"...depois disto que fundamentais irão restar para os 150$??...

Um abraço....e larga mais uma seca dessas...


PS.1: Fica aqui outro site interessante...http://www.wolfatthedoor.org.uk/

PS.2: Quanto ao enxofre...já se descobriram umas bactérias que devoram isso... ;)
"Aprenda com os erros alheios. Não viverá o bastante para cometer todos os erros." (Martin Vanbee)

"Investir em conhecimento rende sempre os melhores juros." (Benjamin Franklin)

tiagodandre

Citação de: berrio em Maio 28, 2008, 15:18
a sua metodologia é buy and hold, ou no caso dos futuros, comprar um contracto e fazer roll over ad eternum no que se chama um calendar spread.


Giro, giro é quando se esquecem de fazer o roll.... :D :D E não é assim tão raro de acontecer...depois é a bronca...toca de fazer telefonemas... ;D
"Aprenda com os erros alheios. Não viverá o bastante para cometer todos os erros." (Martin Vanbee)

"Investir em conhecimento rende sempre os melhores juros." (Benjamin Franklin)

bluexip

olá Berrio,

Citação de: berrio em Maio 29, 2008, 13:24
Normalmente, depois de alguma explicação sobre o preço dos combustiveis, a resposta costuma ficar algures entre "uma bolha é uma bolha" e o "a oferta da OPEC tem respondido à procura" passando pelo "existe hoje tanto petroleo como à 35 anos atrás". Logo, o preço actual deve ser seguramente "especulação" do "grande capital" e das "grandes petroliferas"...

gostei bastante das tuas explicações mas de facto uma bolha é uma bolha. este comentário não pretende diminuir o valor de toda a tua argumentação mas apenas chamar a atenção para que em todas as bolhas há sempre argumentos muito racionais para explicar o movimento e até para negar a própria bolha.

no caso actual um dos elementos chave para negar que estejamos numa bolha é a desvalorização do dolar. com a desvalorização do dolar as mercadorias sobiram e, como tal, não há razão para se considerar uma bolha. causa-efeito simples.

depois há o aumento da procura. paises que até agora não contavam passaram a ter mais necessidades de consumo e a caminhar para o grupo dos países ditos civilizados/ocidentais. mais gente a consumir implica mais procura de bens. perfeitamente lógico e racional. e qual será esse ritmo de crescimento? e qual será a resposta da economia e tecnologia para fazer face a essa procura?

ainda há poucos anos tivémos uma bolha, a bolha tecnologica. nessa altura apesar da irracionalidade dos preços também parecia haver razão. afinal, a internet veio para ficar certo? e está e vai continuar a causar alterações importantes ao nivel social e económico ao nível mundial. falava-se da nova economia e fazia todo o sentido. no entanto foi uma bolha.

mesmo na década de 70 em que houve realmente uma escassez da oferta tudo não passou de uma bolha.

uma bolha é uma bolha e é uma bolha. e muito em breve assistiremos a uma queda dramática no preço do petróleo e de outras mercadorias contra todas as argumentações que possam existir sobre peak oil e afins.

cumprimentos,
bluexip

Ever wonder why fund managers can't beat the S&P 500? 'Cause they're sheep, and sheep get slaughtered.
- Gordon Gekko in Wall Street