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Questão para Mr. Turn e outros entusiastas de sistemas mecânicos

Iniciado por Mec, Janeiro 12, 2006, 12:19

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Mec

Há cerca de uns meses que me comecei a interessar por sistemas mecânicos, tendo já lido e relido os excelente topicos sobre este tema, quer aqui no Clubeinvest, quer noutro forum onde o Cem também participa.

Penso estar neste momento pronto para arregaçar as mangas e começar a desenvolver o meu sistema mas necessito de alguma ajuda dos membros mais experientes nestas andanças.

Nota-se nas intervençoes do Turn uma extrema preocupação com os drawdowns que o sistema pode provocar, tendo em conta o histórico de comportamento do mesmo. Dai a criteriosa analise e testes exaustivos de indicadores para avaliar o seu comportamento em diferentes cenários.

Penso que tal preocupação é compreensivel e todos os traders, pequenos e grandes, devem ter o drawdown como uma variável muito importante.

No entanto, a propensão para aceitar drawdowns maiores ou menores pode variar em função do tamanho da carteira e era sobre esse tema que gostaria de ouvir as vossas opiniões.

No meu caso pessoal a minha preocupação com o drawdown seria muito superior caso tivesse uma carteira de 250.000 ou 500.000€ do que, como é o caso, com uma carteira de 5.000€.

Contas simples mostram que, mesmo com uma rentabilidade de 20% ao ano durante 10 anos consequtivos, o que seria excelente para qualquer trader, a carteira subiria de 5.000 para cerca de 31.000€. Significativo mas algo escasso na minha perspectiva.

Gostaria de criar um sistema mecânico que incorporasse um potencial de maiores rentabilidades, aceitando como reverso da medalha um maior drawdown no inicio.
Isto permitiria que a conta crescesse mais rapidamente no inicio, embora com a sobra da falência da conta sempre presente, tomando posteriormente uma postura mais conservadora quando 10 ou 15% de rentabilidade anual já representem um valor absoluto mais significativo.

Queria deixar claro, para que não haja más interpretações, que o meu objectivo não é o de olhar para a bolsa como qualquer jogo de casino tipo preto ou vermelho onde se pode enriquecer rapida e facilmente.

É simplesmente o de criar um sistema que, ao contrário do que faz o Turn e outros participantes, tenha menos preocupação pelo drawdown e mais foco na rentabilidade, ainda que isso possa custar um drawdown altissimo ou mesmo a eventual falência da conta.

Como sei que o Turn já testou milhentos indicadores com variadissimos parametros, queria pedir-lhe algumas pistas sobre as direcções que devo tomar nesta empreitada, nomeadamente em que situações e tipos de indicadores é que mais encontrou a situação que procuro. No resto tenho consciência que é um longo e árduo caminho...

Desde já agradecido
Mec

Mr. Turn

Amigo Mec:
Em primeiro lugar gostaria de lhe agradecer as referências que me fez, acrescento que em ambos os foruns encontrará certamente vários participantes com conhecimentos técnicos superiores aos que julgo possuir e que tenho a certeza o poderão elucidar melhor do que aquilo que procurarei fazer abaixo.
Tocou no ponto chave do risco das carteiras: que drawdown estamos dispostos a suportar contra a nossa carteira?
Eu compreendo bem essa situação de correr mais riscos no início no pressuposto de que se perdermos poucos €€€ no início, a uma determinada escala das possibilidades de cada trader, sempre poderemos recorrer a umas poupanças extra ou parte dos salários, o que de outra forma seria impossível quando o capital da conta atingisse outra dimensão, por falta manifesta de recursos. As consequências psicológicas de uma perda irreparável desse tipo são manifestamente devastadoras, é fácil reconhecê-lo.
O drawdown é uma consequência de factores externos à nossa vontade que determinam movimentos contrários às nossas expectativas especulativas.
O valor que arbitrámos à partida como limite pode ser ultrapassado. Como? Ora repare, muitas vezes ouço dizer: "Controlo o risco e os drawdowns através de stops". Aqui eu posso contestar de 2 maneiras:
1)   Se não encerrámos a posição no final da sessão, o que fazer se no dia seguinte o mercado abrir, após um acontecimento catastrófico, muitíssimo mais abaixo do que os stops que tínhamos no sistema? Resposta: o drawdown será muitíssimo superior ao esperado! Os stops não serviram o objectivo pretendido.
2)   O que acontece se os stops de protecção, para limitar os drawdowns, foram atingidos? Saímos, certo, o drawdown fica limitado ao valor pré-estabelecido. Mas o que acontece a seguir se a trade ou as trades seguintes são também negativas? O drawdown acumulado será necessariamente superior ao previsto, não há nada a fazer!
Posto isto há só uma forma de atenuar ou procurar combater os drawdowns: usar baixas alavancagens e ir acompanhando estatisticamente com o decorrer do tempo, através de uma distribuição de Gauss ou similar, se estamos confinados aos parâmetros pré-fixados à partida.
A melhor forma de fixar as alavancagens é através de testes prévios aos mercados em causa com comportamentos de volatilidades semelhantes, de preferência com sequências temporais longas e em diversos regimes sideways, ascendentes e descendentes. Em função dos resultados obtidos poderíamos então articular o caminho a seguir.
É evidente que a estratégia tem de ser equilibrada e seguir regras básicas de money management, para evitar a ruína da carteira temos de usar um número de contratos de preferência proporcional ao valor do capital disponível.
Para arrancar com maior risco e probabilidades de sofrer maiores drawdowns no início, a solução é aumentar a alavancagem, ou usar maior número de contratos por capital disponível, numa primeira fase e ir baixando gradualmente esse valor até atingir a velocidade de cruzeiro posteriormente. Esta forma de actuar é aceitável.
Outra questão menos debatida mas também importante é o período em que pretendemos usar determinado sistema de trading em regime de position trading: se apenas tencionamos utilizá-lo por 3 anos podemos usar maiores alavancagens ou maior risco do que por um período muito mais longo, digamos superior a 15 anos. Porquê? Porque a possibilidade de se registar um grande crash em 15 anos é claramente superior em relação ao mesmo acontecimento numa escala temporal de 3 anos.
Usar stops como controle do risco é um engano em que muitos traders caem facilmente. Para mim a utilização de stops é o mesmo que comprar ou vender, por forma a que uma única trade não se transforme psicologicamente num evento desastroso pontual. Têm mais a ver com sinais de entrada e saída e terão de ser compatibilizados com as performances a longo prazo obtidas com o sistema de trading.
Espero ter ajudado.
Boa sorte, a sua aventura de pesquisa de indicadores para o sistema de trading será certamente penosa mas bem recompensada, faço votos nesse sentido!
Cumprimentos.
Turn

Mec

Caro Turn,

Obrigado pela sua resposta. Fiquei bastante satisfeito que não entendesse a minha pergunta como a de um maluco que vem para a bolsa à espera de enriquecer facilmente e que tivesse abordado o assunto pela perspectiva que eu realmente pretendia.

O seu post levantou-me uma duas questões principaias:

1. Se bem entendi o Turn defende que a alavancagem poderá ser aumentada, assumindo deliberadamente esse maior drawdown ou mesmo a falência da conta. Só não entendi é se essa maior alavancagem seria a de transaccionar além do óptimo temporariamente até a conta crescer.
No caso do f de kelly (que sabemos não ser o ideal), se o óptimo for 0.15, que deveremos temporariamente transaccionar à direita do máximo, por exemplo em 0.20 ou 0.25, até a conta crescer ou praticamente falir ?
Ou por exemplo, no caso do f do Ralph Vince, dizer que a maior perda pode ser apenas 5% embora tenhamos visto no histórico que houve perdas de 10 ou 15% em crashes ?

2. Gostaria de saber, da sua experiência, se determinado tipo de indicadores se proporcionam mais ao que me proponho fazer. Explico-lhe um pouco do raciocinio usando o f de kelly que é o mais fácil - depois logo se fazem as adapações para algo menos arriscado.
Imaginemos o lançamento de uma moeda ao ar. É evidente que o f de kelly aqui é zero. No entanto se soubermos que as caras e as coroas vinham em banda, tipo 1110111100000011111, ainda que no final pudessem haver 10 caras e 10 coroas com f = zero, seria no entanto possivel 'apostar' num dos lados com um f=0.2, com a perspectiva de, ou falir a banca, ou aumentá-la 3 ou 4 vezes.
Da sua experiência, e assumindo negócios de 2 / 3 dias, encontrou ao longo dos seus testes indicadores que tenham um comportamento como este e que possam ser utilizados para aproveitar estas 'ineficiências' ? Claro que é uma estratégia muito arriscada, como já referi antes, mas que no meu caso pessoal continua a fazer sentido agora no inicio já que, nem o dinheiro da carteira me faz falta, nem a perda do mesmo me causa qualquer pressão psicológica a que estão sujeitos os traders com grandes carteiras.

Obrigado mais uma vez
Mec

Mr. Turn

Amigo Mec:
Se bem entendi as questões, aqui ficam os meus pontos de vista necessariamente pouco aprofundados.
A)
Se os testes da fórmula de Kelly registarem um valor de 0.15 para o sistema a utilizar, eu diria que o melhor era estabelecer à partida quanto não se importaria de perder para além do sistema com um capital já muito substancial.
Por exemplo, se for começar com uma carteira de 10.000 Euros e não se importar de perder toda a massa inicial se as coisas correrem para o torto, eu diria que o normal é estabelecer um drawdown a longo prazo que não exceda os 40%.
Poderia então começar com uma alavancagem perto do dobro do aconselhável e ir subindo o capital com a curva respectiva a parecer-se com uma grande montanha russa, por vezes a excedendo bastante em certas alturas os 40% de drawdowns, desde que o valor em Euros do maior desses drawdowns nunca exceda os 10.000 Euros. No limite até poderia ocorrer um drawdown de 80% e mesmo assim (grandes sustos!) podia continuar a aguentar-se em jogo!
Atenção que a parte psicológica e emocional tem aqui um papel muito mais relevante do que à partida poderia pensar, mas isso é outra conversa.
A partir da altura em que o capital atingiu os 25.000 Euros há que começar a reduzir para a tal velocidade de cruzeiro.
Podia assim organizar uma pequena tabela orientadora que podia transmitir mais ou menos o seguinte plano:
1)   Fase inicial: Capital de 10.000 € ; utilizar o dobro da alavancagem normal futura; risco possível de ocorrência de drawdown de 80% (8.000 € de perdas acumuladas desde o pico record atingido pelo capital acumulado).
2)   Fase intermédia: Capital de 15.000 €; utilizar uma alavancagem de 3/2 da normal futura; risco possível de ocorrência de drawdown de 60% ( 9.000 € de perdas acumuladas desde o pico record atingido pelo capital acumulado).
3)   Fase de cruzeiro inicial: Capital de 25.000 €; utilizar a alavancagem prevista a longo prazo; drawdowns possíveis de 40% (10.000 € de perdas acumuladas desde o pico record atingido pelo capital acumulado).
4)   Fase de cruzeiro posterior: Capital de 50.000 €; utilizar a alavancagem prevista a longo prazo; drawdowns possíveis de 40% (20.000 € de perdas acumuladas desde o pico record atingido pelo capital acumulado).
B)
A questão colocada tem a ver com uma análise de dependência estatística e aí há inúmeras estratégias a seguir.
É claro que existem muitos indicadores que se comportam dessa forma embora nenhuma trade possa ter à partida mais probabilidades de sucesso do que outra gerada pelo mesmo indicador de determinado sistema de trading.
Uma forma simples e óbvia de aumentar as chances de sucesso de um determinado sistema é adicionar "filtros" de autorização de trades.
Por exemplo: se eu tiver um sistema de curto prazo que tenha uma probabilidade de sucesso de 50% para posições longas ou compradas, poderia aumentar essa taxa de sucesso se tiver o tal "filtro" de autorização para comprar desde que a tendência de médio e longo prazo também indique uma trade no mesmo sentido. Vamos entrar em menos trades mas as hipóteses de sucesso podem aumentar para 60% ou 70%, aumentando desta forma a relação profit/risk e o respectivo factor "Optimal f" da fórmula de Kelly.
Podia também estabelecer outra regra alternativa para exemplificar: mesmo que o sistema esteja a dar sinal de compra, se tiver tido anteriormente 1 ou 2 trades perdedoras consecutivas (indicação possível de que alguma tendência poderia estar a mudar) passamos a trade seguinte, isto é, ignoramos o sinal da trade que se seguiria à(s) trade(s) negativa(s) e só entraríamos na trade seguinte se aquela que tivermos ignorado tiver sido teoricamente positiva.
Há também traders que usam médias da sua curva de capital. Exemplificando uma média de 30 sessões, se o capital real vier abaixo da respectiva média fecham-se todas as posições e continua-se a monitorizar a futura evolução teórica da curva entrando novamente no mercado logo que a curva de capital exceda novamente a média utilizada.
Penso que os exemplos indicados já dão uma ideia sobre possíveis estratégias a seguir.
Cumprimentos.
Turn