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Olhos na bola...

Iniciado por berrio, Setembro 26, 2008, 14:13

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berrio

Enquanto andamos todos entretidos com a discussão no congresso dos EUA - e a discutir se isto é ou não o fim do Bear market ou do liberalismo - estamos a tirar os olhos da proverbial "bola", a Libor-OIS spread.

Para quem não é familiar com estas expressões, a Libor-OIS spread é a medida usada pela Reserva Federal para medir o "pulso" ao mercado interbancário. Básicamente, é o prémio de risco pago por empréstimos em dólares, face á swap "diária" do dólar. Em português, quanto tem de se pagar de risco para se emprestar em dólares a outros bancos.

Obviamente, quanto mais alto o valor, maiores os medos - eu peço maiores prémios de risco se tenho medo que a pessoa a quem "empresto" é mais arriscada. Nos últimos dias esta "taxa" tem subido... na vertical!

As consequências são bastante simples: os bancos não estão a emprestar uns aos outros. Para quem possa pensar "e o que é que isso tem a ver comigo?" a resposta é ainda mais simples: tudo!

O mercado interbancário é onde os bancos emprestam dinheiro uns aos outros para gestão de liquidez diária. A taxa de juro destes empréstimos (Libor nos EUA, Euribor na UE e Tibor no Japão) é o que estabelece a taxa de juro para todos os mercados. [Sim, o BCE não estbelece esta taxa por decreto, ao contrário do que é "vendido" por aí].

Mas a grande pergunta aqui não é "o quê?" mas sim "porquê?". Numa frase simples, os bancos pura e simplesmente não confiam uns nos outros. Note-se que, durante o último ano foi sendo feita uma brincadeira (eu diria fraude, mas vamos ser "simpáticos"):

Na ausência de preço "publico", os bancos foram autorizados a fazer "mark to model" no que hoje é conhecido como "lixo tóxico". Ou seja, "façam lá um modelo para dar um preço que vos convenha". Isto chama-se, segundo os standards contabilisticos deles, Level III accounting (sendo Level I, mark to market, Level II mark to observable inputs).
Por exemplo, a Goldman Sachs tinha em Agosto último 72 mil milhões de dólares nesta conta. A conta de capital próprio, por exemplo, só tem pouco menos de 50 mil milhões de dólares. Ora, os valores actuais em Level III em wall street "assumem" um preço médio de 70/80 centimos por cada dólar de "activos manhosos".

A wake up call foi a falência da Lehman Brothers. Quando uma empresa abre falência, os detentores de obrigações colocam-se em fila para receber o seu "quinhão". Normalmente, sofrem perdas. Mas, numa empresa estilo Lehman Brothers, não sofrem muito. Por cada 1 dólar emprestado, Secured Debt recebe em média 75 centimos. O problema foi que, os 110 mil milhões de dólares em Secured Debt passaram de 95 centimos para 12 centimos (ou seja, por cada 1 dólar, perderam 88 centimos). Com a Unsecured Debt a valer essencialmente zero, isto mandou um sinal claro como água: havia um buraco de 110 mil milhões de dólares no balanço da Lehman Brothers.

Pode isto acontecer sem ser fraude? Não! E os bancos sabem isto melhor que ninguém...e heis que se lança a dúvida: quem mais andou a brincar com os números?!

Dado que os Bancos Centrais não promovem a resolução do problema - injecções de liquidez são o equivalente prático a dar heroina a um viciado, para combater a dor de cabeça da ressaca inicial - os bancos estão a tentar o mais possível esconder isto. E em caso de dúvida, não há dúvida: não sei quem tem o lixo mal "marcado", então não empresto a ninguém! E heis que o mercado de crédito interbancário congela, levando consigo o mercado de papel comercial (obrigações com maturidade inferior a um ano, usadas por empresas não-financeiras!).

Enquanto a Reserva Federal não se deixar de "injecções" e não exigir aos bancos os seus reais valores - e no limite, tomar conta da "loja" eliminando total ou parcialmente os accionistas - não vamos sair destas tensões.
Abraços,
Guilherme Diaz-Bérrio
"Os economistas passam metade do tempo a fazer previsões. A outra metade passam-na a explicar por que se enganaram"
LinkedIn Profile

cax

Sem dúvida, mais do mesmo. A grande desconfiança entre bancos é a principal razão do agravamento desta crise, na minha opinião isto não vai lá com injecções de capital isso é como tapar o sol com uma peneia.
Para isto inverter será necessário bater no fundo e voltar a construir partindo de uma base sólida e de confiança, só assim se vai lá, tudo o resto serve apenas para arrastar esta crise.

Um abraço.

vidinha

"Ricardo Reis contra plano Paulson
O economista portugues Ricardo Reis diz que o plano do secretario do tesouro dos EUA, Henry Paulson, para travar a crise financeira terá "consequências desastrosas". "O plano, tal como foi apresentado, é perigoso errado, injusto, e terá, proventura consequencias desastrosas", afirmou à Lusa o professor de Economia da _Universidade de Columbia.
Pelas interrogações que levanta, o plano Paulson "deve ser deitado ao lixo", referiu Ricardo Reis. "entre o plano actual e não fazer nada". "Não vale a pena consertar o que nasceu torto:é melhor deitar para o lixo e começar de novo", defendeu."

In Jornal Publico 25.09.08

Eu não percebo nada de economia mas não estarão os senhores nos EUA a dizer façam as asneiras que quiserem que depois vimos nos e limpamos e alguém ade pagar.
Não seria melhor deixar as empresas fracas falirem com certeza as que ficarem serão as que tiveram melhor gestao nos últimos anos.

Isto não seria muito bom para mim que estou bastante entalado, mas não seria o melhor?

Bons negócios.

Broker_Invest

Os Juros só baixam quem a economia já não tiver solução, depois eu quero ver a cara do Sr. trichet a dizer que vai ter que baixar os juros de refêrencia em 50 a 75% a taxa pode ir mesmo abaixo dos 2% na europa, e depois ele vai ver que só em pensar na PROCARIA da inflação deu cabo de toda economia europeia, acho que não é precisso ser Licenciado ou Douturado em Gestão ou Economia para prever este tipo de cenário, é pena que a crise não lhe toque no bolso dele, senão viriamos como ele iria baixar de imediato o raio da taxa de juro.
A UBS já anda a dizer que muitos de nós aqui no forum andam a dizer a muito tempo, é tempo de baixar as taxas.

Fonte JN

Alerta do UBS
Economia global precisa de redução concertada das taxas de juro
A Reserva Federal dos EUA, o Banco Central Europeu (BCE) e o Banco de Inglaterra deveriam reduzir as respectivas taxas de juro. O UBS acredita que uma operações concertada evitaria um agravamento da crise financeira e seria benéfica para a economia mundial.

--------------------------------------------------------------------------------

Paulo  Moutinho
[email protected]


A Reserva Federal dos EUA, o Banco Central Europeu (BCE) e o Banco de Inglaterra deveriam reduzir as respectivas taxas de juro. O UBS acredita que uma operações concertada evitaria um agravamento da crise financeira e seria benéfica para a economia mundial.

O cenário de cortes de juros concertados "é muito robusto", de acordo com o analista do UBS, George Magnus, em declarações à Bloomberg. "Não penso que a redução dos juros será o factor que irá levar as pessoas a voltar a procurar o crédito. Mas poderá criar um ambiente [económico] mais benigno", salientou.

Os bancos centrais mundiais têm agido para combater a crise de liquidez nos mercados financeiros, efectuando injecções praticamente numa base diária para travar a escalada das taxas interbancárias.

"Chegou a altura dos bancos centrais oferecerem algo ligeiramente diferente das injecções de liquidez dado que o enfraquecimento da economia começa a ganhar dimensão", refere o analista. Para Magnus, um corte nas taxas de referência evitaria um agravamento do abrandamento da economia global.

"A recessão nos EUA, Reino Unido, Japão e na Zona Euro será uma realidade, de qualquer das maneiras". "Está apenas em questão se [a recessão] poderá ser moderada através da re-estabilização do sector financeiro", acrescentou o especialista do UBS, à Bloomberg.
Não há mal que perdure e bem que dure sempre

berrio

Citação de: Broker_Invest em Setembro 26, 2008, 15:45
Os Juros só baixam quem a economia já não tiver solução, depois eu quero ver a cara do Sr. trichet a dizer que vai ter que baixar os juros de refêrencia em 50 a 75% a taxa pode ir mesmo abaixo dos 2% na europa, e depois ele vai ver que só em pensar na PROCARIA da inflação deu cabo de toda economia europeia, acho que não é precisso ser Licenciado ou Douturado em Gestão ou Economia para prever este tipo de cenário, é pena que a crise não lhe toque no bolso dele, senão viriamos como ele iria baixar de imediato o raio da taxa de juro.
A UBS já anda a dizer que muitos de nós aqui no forum andam a dizer a muito tempo, é tempo de baixar as taxas.

Fonte JN

Alerta do UBS
Economia global precisa de redução concertada das taxas de juro
A Reserva Federal dos EUA, o Banco Central Europeu (BCE) e o Banco de Inglaterra deveriam reduzir as respectivas taxas de juro. O UBS acredita que uma operações concertada evitaria um agravamento da crise financeira e seria benéfica para a economia mundial.

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Paulo  Moutinho
[email protected]


A Reserva Federal dos EUA, o Banco Central Europeu (BCE) e o Banco de Inglaterra deveriam reduzir as respectivas taxas de juro. O UBS acredita que uma operações concertada evitaria um agravamento da crise financeira e seria benéfica para a economia mundial.

O cenário de cortes de juros concertados "é muito robusto", de acordo com o analista do UBS, George Magnus, em declarações à Bloomberg. "Não penso que a redução dos juros será o factor que irá levar as pessoas a voltar a procurar o crédito. Mas poderá criar um ambiente [económico] mais benigno", salientou.

Os bancos centrais mundiais têm agido para combater a crise de liquidez nos mercados financeiros, efectuando injecções praticamente numa base diária para travar a escalada das taxas interbancárias.

"Chegou a altura dos bancos centrais oferecerem algo ligeiramente diferente das injecções de liquidez dado que o enfraquecimento da economia começa a ganhar dimensão", refere o analista. Para Magnus, um corte nas taxas de referência evitaria um agravamento do abrandamento da economia global.

"A recessão nos EUA, Reino Unido, Japão e na Zona Euro será uma realidade, de qualquer das maneiras". "Está apenas em questão se [a recessão] poderá ser moderada através da re-estabilização do sector financeiro", acrescentou o especialista do UBS, à Bloomberg.


Não querendo voltar a entrar nesta discussão de deve ou não baixar taxas (já escrevi o suficiente sobre isso, no passado, neste fórum), uma pequena nota:
Mas estás à espera que um banco diga o contrário!?

Vamos lá acentar pontos aqui:
Bancos adoram "curvas de juros" inclinadas! Quanto mais inclinadas, melhor para eles... e para quem não me está a seguir: taxas de curto prazo muito baixas (onde eles se financiam, ou pagam juros nos depósitos a prazo) e taxas de curto prazo muito altas (onde eles efectivamente cobram os empréstimos!). Dinheiro limpo, cortesia do banco central.

Obviamente que quem tiver depósitos a prazo está a pensar: "Pera...então e eu?" Bem... vocês (quem poupa) são na prática taxados para manter quem consome a crédito poder continuar alegremente, e o banco ficar bem na diferença!

A isso chama-se: "talking my own book!"

E já agora: antes de baterem no Trichet, vão lá ver as taxas de médio e longo prazo (Schatz, Bobl e Bund alemãs são a referencia) e verão que elas estão a descer. Agradeçam ao Trichet: a politica dele deu credibilidade ao BCE, e em troca, os investidores estão a fugir para as obrigações europeias fazendo cá o que durante anos fizeram nos EUA: dar um "subsidio" à nossa economia!
Abraços,
Guilherme Diaz-Bérrio
"Os economistas passam metade do tempo a fazer previsões. A outra metade passam-na a explicar por que se enganaram"
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bp1511

O grande problema, neste momento são os desequilíbrios.

Vou dar um exemplo, o congresso dá a massa ao Paulson (quando ele começar a rastejar).

Reacções:

Os mercados bolsistas sobem;
O dólar enfraquece porque a divida americana vai disparar;
O petróleo sobe, porque os investidores refugiam-se neste Matéria Prima.
O petróleo subindo as bolsas começam a descer.

E lá voltamos nós ao mesmo sitio.

A economia Americana neste momento parece um crivo.




Broker_Invest

Citação de: berrio em Setembro 26, 2008, 16:16

Não querendo voltar a entrar nesta discussão de deve ou não baixar taxas (já escrevi o suficiente sobre isso, no passado, neste fórum), uma pequena nota:
Mas estás à espera que um banco diga o contrário!?

Vamos lá acentar pontos aqui:
Bancos adoram "curvas de juros" inclinadas! Quanto mais inclinadas, melhor para eles... e para quem não me está a seguir: taxas de curto prazo muito baixas (onde eles se financiam, ou pagam juros nos depósitos a prazo) e taxas de curto prazo muito altas (onde eles efectivamente cobram os empréstimos!). Dinheiro limpo, cortesia do banco central.

Obviamente que quem tiver depósitos a prazo está a pensar: "Pera...então e eu?" Bem... vocês (quem poupa) são na prática taxados para manter quem consome a crédito poder continuar alegremente, e o banco ficar bem na diferença!

A isso chama-se: "talking my own book!"

E já agora: antes de baterem no Trichet, vão lá ver as taxas de médio e longo prazo (Schatz, Bobl e Bund alemãs são a referencia) e verão que elas estão a descer. Agradeçam ao Trichet: a politica dele deu credibilidade ao BCE, e em troca, os investidores estão a fugir para as obrigações europeias fazendo cá o que durante anos fizeram nos EUA: dar um "subsidio" à nossa economia!


Berrio, não estou a discordar com aquilo que dizes, mas o facto das taxas estarem a este nivel, já está fazer bastante moça na economia europeia, já nem falo nas familias que tem o devido credito habitação sempre aumentar, mas berrio sem credito não investimento, e sem investimento as empresas não crescem e sem crecimento não há futuro para qualquer empresa, logo toda micro e a macro economia fica em recessão se as taxas continuarem a subir da maneira que estam. Eu gostava que o BCE baixasse os juros para os 2%, mas em que os bancos metessem alguns entraves na consessão no credito e não facilita-lo, mas oura se os juros estão baixos os proprios bancos vão aliciar as pessoas a ficar com mais dividas do que já teem, para mim era assim "se tens dinheiro para pagar tudo bem, caso contrario não há dinheiro" e fazer uma linha de credito especial para empresas de media e grande dimensão terem juros bastante mais baixos do que praticados (Tipo escalões de IRS).
O grande desafio é o BCE descer as taxas porque tem medo! "medo do quê!"  do disparo da inflação "salarios, bens de primeira necessidade", eles deveriam fazer o trabalho de casa como deve ser! vamos baixar, mas com estas condições especias.

Assim podiamos criar uma harmonia para todos.
Não há mal que perdure e bem que dure sempre

berrio

Mas Broker_Invest, as recessões são necessárias!

Mercados financeiros são sistemas complexos, onde regulação é uma actividade extremamente perigosa. Politica monetária é altamente "viciante" e pode ser o equivalente a fazer uma "queimada controlada" no meio do pinhal de Leiria...com Napalm!!
Banir o short-selling - como foi feito na sexta feira - é o equivalente prático a tentar matar um mosquito com um canhão... acertando na bilha de gás que está um pouco mais atrás! (alias nota-se : os mercados estão extremamente violentos nos últimos dias).

Qualquer economista honesto vos sabe dizer isto! Se for honesto claro está! Se eu for a um congresso de um partido apresentar uma moção a dizer "recessões são necessárias e não se deve brincar com taxas de juro", consigo uma proeza: uma moção lida e chumbada! Se eu sugerir para um programa eleitoral medidas difíceis , a probabilidade de ser "editado" (cortado!) é alta. Se não for, a probabilidade de não ser eleito é ainda maior!

Então eu "dobro" um pouco a teoria. É fácil em economia: é uma matéria já de si complexa, e com um pouco de formalismo matemático eu consigo fazer 2+2=5 (com erros lógicos no meio, mas para o olho "não treinado" passa muito bem!). Se juntar mais uns quantos pressupostos, o pacote está feito. A coisa funciona, num aquário...

E vou dar um exemplo de como fazer isto:
A economia é um sistema. Como qualquer sistema complexo tem um "mecanismo de correcção de erros", que serve um propósito de "auto-preservação" do sistema. Para quem não está a acompanhar, pensem no vosso corpo. Os vossos nervos servem esta função. Quando algo está errado e coloca em causa a "estabilidade estrutural" do mesmo, sentem dor. O sistema nervoso é o vosso sistema de correcção de erros.
Mesmo que não saibam que lume queima, se lá meterem a mão vai-vos doer, e instintivamente vão aprender: quem brinca com fogo queima-se. Agora, hipoteticamente, imaginem-me a mim (o "economista ao serviço da causa pública") com uma seringa com uma dose bem grande de morfina. Começa a dor, mas eu digo-vos "não te preocupes... toma lá um pouco de morfina". A dor desaparece, e vocês continuam lá com a mão alegremente.
Obviamente que daqui, depois de algumas injecções - a morfina só dura certo tempo - vocês vão "viciar", e vai perder efeito. A única questão que resta descobrir é: querem mãozinha bem ou mal passada?

O economista com a morfina chama-se "politica monetária estabilizadora do ciclo". Ou seja, eu dou-vos morfina. Baixo os juros. Injecto capital a custo zero. Mantenho o sistema a correr. Estou, para todos os efeitos, a eliminar o processo de correcção de erros: a recessão. (em troca, sou eleito para ministro das finanças, FMI, BCE ou qualquer tacho... quando o efeito passar, eu já cá não ando... pensem "Greenspan" e percebem o que estou a tentar dizer!).

A única questão que sobra é: "querem a economia bem ou mal passada?"

Custa? Claro que custa... mas olha bem para os EUA - 25 anos "recession free", com um Banco Central "amigo". O resultado está à vista... não é uma questão de harmonia: é uma questão de não deixares queimar a mão, ao injectares morfina...
Abraços,
Guilherme Diaz-Bérrio
"Os economistas passam metade do tempo a fazer previsões. A outra metade passam-na a explicar por que se enganaram"
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Paff

Viva,

Caro Berrio,
Há contudo algo com o qual discordo. Os bailouts, tal qual estão a suceder, seriam de facto extremamente perniciosos caso não estivessemos a passar por um momento particular na História. Não estamos em crise ou em recessão, estamos, de facto numa depressão económica, e social!, que só não se consolida na rua, porque os sistemas financeiros internacionais possuem alicerces mais sólidos, e acima de tudo, mais diversificados, do que em 1929. Nessa época, não haviam sovereign funds que nos pudessem valer, e o Médio Oriente era apenas um local com areia a mais.

Estamos perante o dilema da intervenção estatal e até de uma maior socialização da sociedade norte-americana. Uma mudança de paradigma, forçada, mas factual. Concordo contigo que sistemas económicos se devem auto-regular e expulsar o que de tóxico detêm através de mecanismos próprios. Infelizmente, não me parece que nos possamos dar ao luxo de passar por uma depressão, que sublinho, aconteceria numa época de economia globalizada (com efeitos claramente mais glabalizados que em 29) que obrigaria a que as filas de sopa se realizassem não à porta de um abrigo na 5ª Avenida, mas talvez na mais provinciana Avenida da Liberdade. O papel dos Estado está claramente em discussão na actualidade, mas, se se aliar da sociedade, que Estado teremos? Não estaremos perante a necessidade de um bailout social?

Liberalismo económico ou intervencionismo activo.... hmmmm, complexo não?

Paff

berrio

A Depressão de 1929 não é um periodo comparável, por duas razões muito simples:
O mundo tinha saido à menos de uma década da Primeira Guerra Mundial. Entra os custos da guerra e as indemnizações, a Alemanha foi levada à falência. A França já não tinha reservas, e o Reino Únido lutava com uma libra sobreavaliada por conveniencia politica. O padrão-ouro fez o resto - como fio condutor o padrão-ouro coloca a pressão na "moeda mais fraca". Basicamente não havia poupança no mundo para amortecer a desalavancagem!

Repara também que foi exactamente a tentativa de "adiar" o inevitável que levou uma crise financeira à depressão. Isto há muito que é sabido e foi, inclusivamente, admitido ontem por Ben Bernanke no congresso: a tentativa de sustentar preços "justos" foi o que provocou a derrocada no sistema, que levou a à Grade Depressão.

Não vivemos no mesmo mundo. A Europa está bem e recomenda-se, a Asia está bem e recomenda-se (e poupança é coisa que não falta neste último, e mesmo no primeiro ainda temos poupança positiva) e os EUA não estão propriemente pobres. Vamos colocar as coisas na devida perspectiva: os americanos simplesmente vão ter de consumir menos e deixar de correr crédito sobre crédito. Talvez, não se vendam tantos iPods ou SUVs...

Aliás, esta crise não é diferente de todas as outras, sendo os casos extremos do passado (décadas de 80/90) Espanha, Reino Unido, Suécia, Coreia do Sul e Japão. Todos ainda cá estão!

Também um simples facto que tem de ser admitido de uma vez por todas:
Não será possível evitar uma recessão nos EUA. Esta é alias necessária. E falar de sopa dos pobres é falacioso. Estamos a falar de um país onde um agregado médio tem uma casa, 2 carros de alto consumo e uma caterva de produtos de consumo puro!
Os EUA estão hoje demasiado endividados ao exterior, com uma posição externa insustentável. A única razão pela qual o dólar ainda não cavou um buraco até ao outro lado do planeta (desculpem-me a expressão) é o seu (ainda) estatuto de moeda de reserva, o que, em português corrente significa que os bancos centrais à volta do mundo têm suportado aquela dívida e aquela moeda.
Não estamos a falar de trocos. Só no último ano, os bancos centrais dos países do Golfo Pérsico, União Europeia, China e Japão, mantiveram o "motor de crédito norte-americano" a funcionar. Esta foi a única razão, não a política da Reserva Federal. Os dados são públicos (Flow of Funds Data) e mostram que os EUA têm qualquer coisa como 16 biliões de dólares de divida privada. O que os bancos centrais do resto do mundo na prática têm feito é emprestar dinheiro ao consumidor norte-americano para pagar os juros deste ano (no que Brad Setser, ex-economista do Tesouro Norte-Americano e do FMI, durante a crise asiática, chama de "quiet bailout"). Ao todo, só este ano, o resto do mundo "emprestou" 1000 dólares a cada americano para este servir a sua dívida e manter os mercados de crédito a funcionar.
A única forma de resolver a situação de forma definitiva é aumentar a poupança (e reduzir divida constitui um acto de aumento de poupança) e a única forma é reduzir o consumo. Uma recessão é não só inevitável, como desejável. Não há "boas" soluções para este problema.

Agora, vamos ser honestos aqui: o recente plano da Reserva Federal é, no minimo, ingénuo. A Reserva Federal quer dar (estão a ler bem, dar) 700 mil milhões de dólares a Wall Street.

Surge uma pergunta lógica:
Estará o resto do mundo, leia-se bancos centrais, dispostos a financiar? A verdade é que esta matéria - financiamento dos EUA à custa das reservas de cada país - começa a ser cada vez mais criticada em países como a China e o Japão. E mesmo que estejam, estamos a falar de mais 2000 dólares por americano, em cima dos já 1000 dólares já "entregues". Alguém é ingénuo o suficiente ao ponto de pensar que a taxa de juro exigida não vai subir?
Não se esqueçam que a taxa juro "indexante" por terras de Tio Sam é a maturidade longa acima de 10 anos - OT a 10 anos e a 30 anos - ao contrário de, por exemplo, a maioria das hipotecas em Portugal.

O erro de Bernanke é a solução que ele, académicamente, acredita ser a melhor. Para ele, o erro japonês foi não ter sido agressivo o suficiente no corte de taxas de juro o mais rápido possível e no auxilio aos balanços bancários. Fora as considerações de risco moral, este raciocinio tem um erro fundamental (sim, estou a arrogar-me ao direito de dizer que um doutorado está errado!): esta crise é uma de desalavancagem (tal como no Japão, entre outras crises semelhantes) e nestas condições o problema não é induzir o consumidor a consumir a crédito - já de si uma aventura perigosa que foi a principal causa deste problema. O problema é induzir os bancos a emprestar. E estes não têm essa capacidade. Toda a liquidez "oferecida" pela Fed (a contagem já vai em 800 mil milhões, e se juntarmos os 700 mil milhões, fazemos 10 por cento da economia norte-americana) é totalmente absorvida por um buraco negro. Outra questão essencial é que, a resposta depois dos anos 30 também não se aplica:
1. Foi feita depois dos activos corrigirem, habitação incluida, algo que ainda não aconteceu nos EUA - o imobiliário ainda está 25 por cento acima da média que devia;
2. Na altura os EUA não tinham a moeda de reserva, pelo que a subsequente desvalorização do dólar não era "inflaccionária" pelo lado as importações.

A politica actual da Fed não tem feito nada para ajudar o norte-americano. Muito pelo contrário, colocou-o numa situação ainda pior. Então qual deveria ser a solução adoptada? Antes demais admitir que não é possivel "evitar a bala da recessão". Esta é, inclusivamente, necessária de modo a reconstituir a poupança. Simplesmente, os americanos consomem demais.

E sobre Wall Street? Aqui fica a minha sugestão:
Temos três problemas básicos aqui em funcionamento - alavancagem excessiva, promovida pelas taxas de juro baixas dos últimos 20 anos e dando origem a empresas "grandes demais para falhar", mercado imobiliário a corrigir e o mercado de Credit Default Swaps.
Antes demais, identificar as empresas "grandes demais para falhar", algo que não é muito dificil de avaliar. Recapitalizar as instituições trocando capital próprio (acções) pelo dinheiro dos contribuintes (a usar a solução "bailout", ao menos que se faça como deve de ser). Podem colocar a questão - tal como Bernanke colocou no Senado, ontem - de que os bancos não vão querer participar. Desculpem meus caros mas, neste caso, não devem ter escolha!
Os accionistas actuais seriam "eliminados" (ou seja, o valor de mercado da empresa seria transferido para o balanço da empresa, recapitalizando-a). Em alternativa, para não ser muito mau, podem dar aos accionistas "deep out of the money warrants" (basicamente, para leigos: opções de compra futura de acções com o preço muito afastado do preço actual, de modo a dar incentivos aos accionistas e gestores, de modo a recuperar o dinheiro, a portarem-se bem). A dívida necessita, obviamente de ser reestruturada. Junior Debt apanha com uma "corte de cabelo" profundo (chama-se na giria "debt haircut", ou seja, divida que vale hoje 100, é cortada, e passa a valer 80, seria um "hair cut" de 20 por cento). Isto porque os obrigacionistas também têm que aprender uma coisa: risco pagasse e due dilligence é essencial.
Senior Debt (a primeira na linha de "pedidos" em caso de falencia) também é reestruturada: Secured Senior Debt deixa de ser Secured (ou seja, deixa de ter um "hipoteca" sobre o balanço).

Este processo tem duas consequências: permite que empresas alavancadas em ratios de 1 para 40, se recapitalizem (à força, admita-se) e desalavanquem para ratios próximos do 1 para 4, e torna as obrigações destas empresas mais "inseguras". Isto tem um efeito benéfico: se há coisa que se aprendeu, ou se devia ter aprendido em 1998, foi que instituições demasiado grandes são uma "externalidade negativa" para o sistema. A reestruturação acima tornaria as obrigações de empresas "potencialmente grandes de mais para falhar" demasiado arriscadas, subindo o seu prémio de risco. Seria uma especie de "imposto de mercado sobre o tamanho", limitando o crescimento de futuros "gigantes alavancados".

Sobra uma questão: Credit Default Swaps (CDS). São basicamente seguros sobre créditos, mas infelizmente são transaccionadas em Over The Counter - mercados não públicos. A questão aqui não é contra mercados OTC, mas sim tamanho. Muitos produtos quando passam de determinado tamanho, deixam de ser OTC.
O mercado de CDS hoje vale 62 biliões de dólares (por comparação, o PIB mundial vale 55 biliões de dólares e o crédito total vale 31 biliões de dólares, logo algo vai mal aqui). O problema, além do tamanho é, dado que é OTC, não há "backoffice" centralizado. Ou seja, ninguém sabe quem deve o quê a quem. Obviamente que quando uma empresa grande cai, ninguém sabe quem tem de pagar o "seguro", a Credit Default Swap, logo dão-se desvios sistémicos.

É preciso pegar neste mercado, traze-lo a público, fazer a reconciliação de ordens - ver quem deve o quê a quem - e recolocar o mercado a funcionar...

Quanto mais tempo evitares esta correcção atirando dinheiro ao problema com argumentos de "sopa dos pobres" e "depressão social", mais tempo vais ficar estagnado sem crescimento. Esta vai ser a diferença entre uma recessão rápida mas que limpe, e uma economia zombie que passa 5 a 10 anos sem produzir valor ... e quem não sabe o que é uma economia zombie, pense Japão. Ou melhor, ainda: pense Portugal!!
Abraços,
Guilherme Diaz-Bérrio
"Os economistas passam metade do tempo a fazer previsões. A outra metade passam-na a explicar por que se enganaram"
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Paff

O que distingue a nossa visão sobre esta temática, é que tu supões que caso a Fed ou o Governo norte-americano não interferissem, isso daria origem a uma saudável recessão. Eu julgo que daria lugar a uma grave depressão.

De facto agora e 1929 não são épocas comparáveis, não percebeste que não fiz essa comparação. Julgo, que devido à interdependência dos mercados, o momento actual seria bem mais complicado que 1929.

A visão que tens é de facto correcta do ponto de vista dos fundamentais, quer da economia, quer dos motivos que originaram a crise/recessão/depressão. Contudo, não concordo com uma postura tão tecnocrática de olhar para a situação. Confinar o comum norte-americano a um consumidor de energia ou possuidor de SUV's é por demais redutor. Se para salvar milhões de pessoas da bancarrota eu tiver que engolir meia dúzia de sapos sob a forma de instituições financeiras mal geridas, pois assim seja.
A verdadeira questão passa pela actuação posterior, de regulação de mercados e retirar de lições.

Don't throw the baby out with the bath water

Paff

berrio

Não é uma visão "tecnocrata"... é perspectiva.

E quanto às pessoas na bancarrota: em primeiro lugar isto não é Africa - como todo o devido respeito a todos os que lá nasceram. Quando se vai à "falencia", não se vai morrer de fome. Foi para isso que inventamos os "estabilizadores automáticos", os seguros de saúde, os fundos de desemprego.

Na minha humilde opinião,  a questão central numa recessão é a dor que implica.

Os agentes (alias, os seres humanos) só aprendem com os erros, quando estes inflingem dor. Senão, estamos a reforçar o processo mental do erro - psicologia 101: o cerebro é preguiçoso e reforça actos repetitivos se não vir mostras de falha no processo - falha essa que é tomada visivel ao mesmo pela via DOR (não me estou a refirir a dor fisica ou ir parar debaixo da ponte, obviamente).

É o mesmo com a poupança: as pessoas só aprendem a poupar depois de passarem dificuldades e se virem forçados a reavaliar as suas prioridades – algo que por exemplo em Portugal estão um pouco... trocadas.

E antes que me acusem, eu conheço este processo de forma muito pessoal. E é por isso que o defendo com convicção: já o vi em acção.

É exactamente por a Economia ser feita de pessoas que o processo de transmissão de dor (vulgo, recessão) não deve ser evitado (embora deva ser minimizado... subsidio de desemprego é sempre preciso, ninguém quer ver pessoas debaixo da ponte). Se fossem robots bastava programar a taxa de poupança e consumo e deixar um programa fazer o processo de feedback e correcção de erros.
Abraços,
Guilherme Diaz-Bérrio
"Os economistas passam metade do tempo a fazer previsões. A outra metade passam-na a explicar por que se enganaram"
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Paff

Citação(...)para isso que inventamos os "estabilizadores automáticos", os seguros de saúde, os fundos de desemprego.

Daí a minha pergunta no sentido da necessidade de se fazer um bailout social.
Quando estamos a falar, por exemplo, em Fannie Mae e Freddie Mac a irem ao ar, por certo que a dor que isso inflingiria seria motivo mais do que suficiente para muitas pontes ficarem ocupadas.

África está mais perto de nós (europeus ou americanos) do que muitas vezes julgamos Berrio! Falo também por experiência própria. ;)

Paff

berrio

Ah, mais aí está uma grande diferença!

Por exemplo, a FNM e a FRE irem ao ar tinham provocado essa dor toda no consumidor americano? Ai contesto... bastava olhar para os dados: o efeito das duas meninas era marginal nas hipotecas (0,1%). Quanto ao possível aumento das "taxas de juro", se se comprou uma casa que não se pode manter - e este é o verdadeiro problema americano, viver acima das suas posses - ninguém iria para debaixo da ponte... arrendavam uma casa. Ponha-se outra vez as coisas em perspectiva: quem perde mais com deixar estas empresas a cair são os seus investidores (nacionais e estrangeiros) e administradores.

E mesmo a solução encontrada foi devido a lobby dos... accionistas! Podias ter feito a coisa de modo diferente (e chegou a ser sugerido):
- Capitalização transferida para o balanço (accionistas eliminados);
- Divida sofre um "hair cut" de 10 a 20%, marginal no Big Picture, e reduzias a alavancagem.

Foi mesmo sugerido pelo Bill Poole, ex-presidente da Reserva Federal de Dallas.

Hoje a WaMu abriu falência. Deixaram-na cair, e a JP Morgan foi lá apanhar os "cacos". Era o maior thrift dos EUA. Sofreu o "little joe"? Não! Este está segurado pela FDIC. Sofreram sim, os investidores e obrigaccionistas, e desses não tenho mesmo pena nenhuma!

Quanto a África, julgo que percebeste o que estava a tentar dizer: em África, depois de um "falência" não tens onde te apoiar... o "negócio" é para dar de comer aos filhos, não para comprar uma casa nos subúrbios por 600 mil dólares!  ;)
Abraços,
Guilherme Diaz-Bérrio
"Os economistas passam metade do tempo a fazer previsões. A outra metade passam-na a explicar por que se enganaram"
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Paff

Citaçãoo "negócio" é para dar de comer aos filhos, não para comprar uma casa nos subúrbios por 600 mil dólares! 

Não generalizes. Os EUA não são só Wall Street ou as ruas verdes de Massachussets.

Tu és tramado, temo verdadeiramente pela tua próxima viagem aos States. Acho que vais ter de passar por uma daquelas salinhas de apoio no JFK ;)

Paff