Autor: Salomão
Data: 18-05-2003 07:56
No monte o cavador, cansado da labuta
do dia que passou, monótono, uniforme,
são oito horas, ceou, recolheu-se e já dorme,
feliz por ver medrar as terras que disfruta.
A lavradora, não; activa e resoluta
moireja até mais tarde e descansa conforme
a faina lho consente e a barafunda enorme,
de homens e de animais que em derredor se escuta.
Mas a filha, que tem vinte anos e que sente,
na solidão da herdade, a alma descontente,
e o sangue a referver num sonho tresloucado,
encosta-se à janela; ouvem-se as rãs e os grilos;
e os olhos de azeviche, ardentes e tranquilos,
ficam-se horas a olhar as sombras do montado...
CONDE DE MONSARAZ
Vou passar um bocadinho pelas brasas. E duas imagens se ocuparão do meu espírito: uma traz a imensidão de uma Terra, a outra, a fé de cajado na mão e o sacrifício encarnado nos corpos que, em guisa de formigas, se arrastam pelas bermas de estradas poluídas e barulhentas até chegarem a um destino que eu ignoro.
Salomão.
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