1975 — As Nacionalizações

No rescaldo do 25 de Abril de 1974, o processo revolucionário levou à nacionalização de toda a banca privada portuguesa em Março de 1975. De um dia para o outro, instituições como o Banco Espírito Santo, o Banco Português do Atlântico, o Banco Pinto & Sotto Mayor, o Banco Totta & Açores, e dezenas de outros passaram para as mãos do Estado.

O sector bancário ficou inteiramente público. A CGD (Caixa Geral de Depósitos), que já era pública, tornou-se o colosso do sistema. O crédito passou a ser decidido pelo Estado — com as ineficiências, o clientelismo e a falta de inovação que a banca estatal tipicamente traz.

Durante 15 anos, entre 1975 e 1990, a banca portuguesa funcionou como braço financeiro do Estado. Financiou défices, canalizou crédito para sectores «estratégicos» escolhidos pelo governo, e acumulou ineficiências estruturais que só viriam a ser corrigidas com a reprivatização.

1984-2000 — As Privatizações e o Renascimento

A partir de 1984, com a revisão constitucional que abriu a porta ao sector privado bancário, começou o processo de reprivatização. Novos bancos privados surgiram (BPI, BCP) e os antigos foram gradualmente devolvidos ao sector privado ao longo dos anos 90.

O BCP (Banco Comercial Português), fundado por Jorge Jardim Gonçalves em 1985, foi o caso de sucesso mais emblemático. Nascido do zero, cresceu agressivamente através de aquisições — Banco Português do Atlântico, Banco Mello, Império, Crédito Predial — até se tornar o maior banco privado do país. O modelo BCP — crescimento por aquisição, rede comercial agressiva, inovação em produtos — definiu a banca portuguesa da década de 90.

O BES (Banco Espírito Santo), reprivatizado e devolvido à família Espírito Santo, manteve o perfil de banco institucional e conservador que tinha antes de 1975. Com forte presença em banca privada e uma rede de relações empresariais e políticas que atravessava o país, o BES era visto como o «banco de referência» da elite económica portuguesa.

O BPI, fundado por Fernando Ulrich em 1985, adoptou uma estratégia diferente: crescimento orgânico, foco na qualidade do serviço, e prudência na concessão de crédito. Foi, durante décadas, o banco mais conservador e mais rentável dos três grandes privados.

2000-2007 — A Expansão e os Excessos

A entrada no euro em 1999 foi o gatilho para uma expansão sem precedentes da banca portuguesa. As taxas de juro baixas do BCE — desenhadas para a economia alemã, não para a portuguesa — criaram condições para uma verdadeira explosão de crédito.

O crédito habitação disparou. As famílias portuguesas, que historicamente tinham baixo endividamento, passaram a estar entre as mais endividadas da Europa. Os bancos concediam empréstimos a 100% do valor do imóvel, por vezes até mais. As comissões de abertura de crédito e a venda cruzada de seguros tornaram-se as maiores fontes de receita da banca.

Ao mesmo tempo, os bancos expandiram-se internacionalmente: o BCP para a Polónia (Millennium), Grécia, Moçambique e Angola; o BES para Angola (BESA), Brasil, e investimentos privados do Grupo Espírito Santo; o BPI para Angola (BFA).

Na bolsa, as acções bancárias eram as estrelas. O BCP chegou a negociar acima dos 4 euros. O BES acima dos 20. Juntos, os três grandes representavam mais de 30% da capitalização do PSI-20. Investir na bolsa portuguesa era, em grande medida, investir na banca.

2008-2011 — O Crash e a Crise

A crise financeira global de 2008 atingiu a banca portuguesa em cheio. Os problemas acumulados — excesso de crédito, exposição internacional arriscada, governação deficiente — vieram todos à superfície em simultâneo.

O BPN, um banco de média dimensão controlado por Oliveira e Costa, foi nacionalizado em Novembro de 2008 após a descoberta de irregularidades massivas. O custo para o contribuinte foi de milhares de milhões de euros — e o caso tornou-se símbolo da falta de supervisão no sector.

O BCP precisou de aumentos de capital repetidos, diluindo dramaticamente os accionistas. O BES manteve uma aparência de solidez que se revelaria ilusória. O BPI, o mais prudente dos três, sobreviveu relativamente intacto mas viu o preço das acções cair mais de 70%.

Para os accionistas dos bancos portugueses, o período 2008-2011 foi catastrófico. Quem tinha comprado acções do BCP a 3 euros em 2007 viu-as a 0,40 em 2012. Quem tinha BES a 16 euros viu-as abaixo de 1 euro antes da resolução. Décadas de poupanças investidas em «acções seguras» de bancos «sólidos» desapareceram.

A Reestruturação

O programa da Troika impôs uma reestruturação profunda do sector bancário. Os bancos foram recapitalizados com dinheiro público (8,8 mil milhões de euros via Fundo de Resolução e linha da Troika), sujeitos a stress tests do BCE, e obrigados a reduzir o balanço — vender activos, fechar balcões, despedir funcionários.

O mapa da banca portuguesa mudou radicalmente: o BPN foi nacionalizado e vendido; o BES foi resolvido e deu origem ao Novo Banco; o Banif foi resolvido; o BPI foi adquirido pelo CaixaBank espanhol; o Totta foi absorvido pelo Santander. Dos grandes bancos privados que dominaram a bolsa durante duas décadas, pouco resta.

Lições para o Investidor

Não confundir familiaridade com segurança. Os investidores portugueses compravam acções de bancos porque os conheciam — tinham lá conta, o gerente era simpático, eram «os bancos de sempre». A familiaridade criou uma falsa sensação de segurança que custou milhares de milhões.

A concentração sectorial é perigosa. Uma carteira com 30% em acções bancárias — como muitas carteiras portuguesas tinham — está exposta a um risco sectorial devastador. A diversificação por sectores é tão importante como a diversificação geográfica.

A supervisão falha. O caso BPN, e mais tarde o BES, demonstraram que os reguladores podem não detectar (ou não agir sobre) problemas graves durante anos. O investidor não pode depender da supervisão para proteger o seu capital — tem de fazer a sua própria análise.

A banca portuguesa viveu uma saga de nacionalizações, privatizações, expansão e colapso em pouco mais de três décadas. Para o investidor que acompanhou esta história, as lições são claras e dolorosas. Para o investidor que a estuda pela primeira vez, o objectivo é aprender com os erros dos outros — que é sempre mais barato do que cometê-los pessoalmente.