Estar de férias na Jamaica!

Este é mesmo o sonho de muita gente, a esperança de visita a uma ilha de praias belas e tempo maravilhoso, de resorts de luxo e floresta tropical de muitos tons.

Um destino de revista, uma terra quente e hospitaleira, sob o som de música alegre e ritmo forte, ela é também uma fotografia viva com as cores da felicidade.

Ouvindo o gelo a vogar no copo longo de rum com cola, embalo-me no doce sussurro deste mar de cor impossível, no intenso prazer deste sol e desta brisa doce que me abriga.

Esta Jamaica, que vejo sob os olhos fascinados de turista, parece um lugar onde gostaria de ficar para sempre, numa vida distendida e calma, com um trabalho livre e ocasional, quando houvesse vontade.

Mas façamos um esforço de análise, abandonando as águas cálidas de Montego Bay. A Jamaica é um país que vive principalmente do turismo, embora tenha também boas produções de bauxite, alumínio e cana-de-açúcar. Estas fontes de rendimento são indispensáveis para a economia da ilha, que tem um défice comercial crescente, e que importa a maior parte das suas necessidades de consumo e de equipamento.

Trabalha, directa ou indirectamente no turismo, uma grande parte da população activa do país. Mesmo com bastantes unidades de luxo, constata-se facilmente que a esmagadora maioria dos trabalhadores do sector turístico efectua funções muito pouco qualificadas ou de reduzido valor acrescentado. Para além da extracção mineira e de um sector agrícola reduzido, os restantes sectores industriais e de serviços têm uma importância secundária.

Com este pequeno retrato, a que se junta uma taxa de desemprego a rondar os 15%, não é difícil aceitar que a Jamaica esteja bem dentro do terceiro mundo, apresentando um PIB per capita de cerca de 3.900 dólares anuais.

Se prestarmos atenção às condições da vida corrente, veremos que as estradas são más, há muitas falhas de electricidade e o sistema de saúde é insuficiente. Pior do que tudo, parece haver uma atitude passiva e de aversão à mudança.

Estamos assim perante um país que, tendo grandes potencialidades turísticas e vivendo há décadas praticamente dependente do desenvolvimento desse sector económico, só conseguiu atingir um nível de desenvolvimento que teremos de considerar muito modesto. Com efeito, com uma população de 2,9 milhões de pessoas, o seu PIB per capita, acima referido, é bastante baixo, mesmo quando comparado com outros pequenos países da América do Sul e Central, como por exemplo a Costa Rica (8.500 dólares de rendimento per capita) e o Uruguai (7.800 dólares).

Se alongarmos a nossa vista pelo mundo e reflectirmos um pouco, poderemos chegar a algumas conclusões simples, que nos permitirão começar a ponderar, com outros olhos, a estratégia de desenvolvimento a definir para Portugal, mais realistas e evitando análises abstractas que nos farão tropeçar como país por mais algumas dolorosas décadas. Por exemplo, não existe nenhum país, em todo o planeta, que se tenha desenvolvido a sério pela acção determinante do turismo. Por outro lado, poderemos também dizer que o turismo não é nunca um sector realmente decisivo em nenhum dos cerca de 40 países mais desenvolvidos.

E percebe-se porquê. Muitos dos projectos turísticos têm, por vezes, alguma dificuldade em conseguir um razoável retorno dos investimentos efectuados. Só uma pequena franja tem real capacidade de ter um efeito gerador de elevados rendimentos. Os grandes casinos, que pertencem a este último grupo e são até os que maiores rendimentos proporcionam, têm apesar disso um potencial de desenvolvimento limitado. E o nosso País até já está bem colocado nessa área, pelo que os outros 2 ou 3 novos casinos já planeados certamente esgotarão (ou ultrapassarão) as possibilidades da procura respectiva.

Está fora de causa negar a importância do turismo em Portugal, o qual deverá ser incrementado com investimentos cada vez de maior qualidade. O que tem de ser contestado frontalmente é a ideia que, no futuro, o turismo irá desempenhar o papel de motor do desenvolvimento económico português.

Uma discussão sobre este tema será fundamental para o nosso país, dado que está a ser falada, a vários níveis, a escolha do turismo como objectivo principal da nossa estratégia de desenvolvimento.

Um abraço

Comentador