Do Dark Side of the Moon 1 até hoje

Muita coisa aconteceu desde 27 de Agosto de 2001, aos mercados e à própria sociedade.

Pouco depois de ter escrito o artigo, deram-se os terríveis atentados terroristas do World Trade Center e do Pentágono, onde foram vítimas milhares de pessoas. Diz-se que foi um acontecimento que mudou o Mundo, criando uma crispação entre o Ocidente e o Mundo Árabe, com origens religiosas, que poderá desembocar numa nova Guerra EUA - Iraque. Embora este acontecimento e as suas sequelas sejam dramáticas e preocupantes, sempre defendi que o movimento macroeconomico global pouco seria afectado. Isto porque as causas para a depressão economica e violentas quedas dos mercados já estavam presentes num momento histórico anterior aos atentados.

A prova de que o 11 Setembro teve uma influência negativa apenas temporária nos mercados é que eles tiveram enormes recuperações no último trimestre de 2001, com o S&P a subir 24%, o Nasdaq a subir 49% e o DAX a valorizar-se 54%.

A recuperação foi «certa» porque as quedas que se seguiram ao 11 de Setembro não faziam sentido à luz da macroEconomia global. Depois dos mercados terem caído depressa demais por causa do 11 de Setembro e de terem recuperado dessas quedas abruptas, o cenário de Dark Side of the Moon 1 voltou a vigorar. E as quedas voltaram ...

Desde o 1º artigo até hoje o S&P desceu 31%, o Nasdaq desceu 38%, o DAX caiu 46%, o CAC desceu 43% e o PSI 20 caiu 31%. Finalmente o Nikkei, o barómetro de toda a análise, desceu 17% (curioso, foi o que caiu menos - faz sentido).

As taxas de juro do FED foram cortadas mais vezes, dos 3.5% do artigo 1 aos 1.75% actuais. Não resolveram o problema, como antecipado.

A situação actual e futura

Vou transcrever um parágrafo do 1º artigo, que me parece conter a questão fulcrar da Economia global neste momento:

«O Mundo parece ter tido uma bebedeira de investimento, e agora está a ressacar sob a forma do endividamento colectivo. Tal como no Japão, em que a poupança está a níveis recorde, é não só possível como provável que a psicologia das massas se vá obrigatoriamente alterando, do binómio Investimento + Consumo para o binómio Poupança + Entesouramento.»

Isto está a acontecer de uma forma muito lenta, mas é o caminho que os agentes económicos forçosamente têm de percorrer ... se lermos atentamente os artigos do Steven Roach ele refere continuamente a existência de duas bolhas na Economia norte-americana (a maior do Mundo, com 21% do PIB mundial), a do Imobiliário e a do Consumo. E um dos problemas: o Endividamento. A taxa de retorno nos investimentos, de qualquer ordem, sejam especulativos ou não, é neste momento bastante baixa. Os investimentos feitos pelas empresas na segunda metade da década de 90 estão a ter resultados catastróficos, levando empresas que outrora foram muito sólidas quase à ruína, como a France Telecom, Deutsche Telekom, etc. Estas empresas devem várias vezes aquilo que valem ...

Como no Japão, é natural que os agentes económicos refreiem o Investimento e o Consumo, aumentando a Poupança. Por dois motivos: 1) a taxa de retorno dos investimentos é negativa (devido a questões de sobre-capacidade instalada, concorrência perfeita que tira «pricing power», e ausência de procura por consumidores estarem «overloaded» em termos de dívida); 2) O Consumo deverá diminuir porque o Desemprego deverá aumentar, e porque os próprios consumidores não se podem endividar mais. Outro motivo para o Consumo cair é a deflação, «para quê consumir hoje se daqui a 6 meses está mais barato? - vou esperar mais um pouco e entretanto poupo».

Diminuindo o Consumo e o Investimento, é claro que a Poupança vai, gradualmente, começar a aumentar. Mas o Entesouramento também. Entesouramento é guardar dinheiro fora do Sistema Monetário.

E isto porquê?

Ora bem, tendo nós empresas e famílias endividadas, e pensando que vem aí uma Depressão Económica (os mercados estão a antecipar isso), com aumento do Desemprego, vai certamente acontecer uma subida do crédito mal-parado, e a minha previsão é de que o próximo sector a sofrer forte (a seguir ao sector tecnológico), será o sector bancário. Alguns bancos vão falir (tem acontecido no Japão, aconteceu nos anos 30 - só nos EUA faliram 10.000 bancos), e com isso a confiança no Sistema Monetário vai ficar abalada.

Agora podem perguntar-me, como pode isto acontecer?

Isto tem tudo a ver com a expansão anterior, na forma como se densenvolveu e na bolha de activos que criou. Qualquer estudioso de História Económica sabe que o período de Ouro da Economia mundial foram os anos 50 e 60, com taxas de crescimento do PIB mundial da ordem dos 8% ao ano. E sabe também que a Economia cresceu mais na segunda metade do séc. XX do que em toda a restante História da Humanidade. É preciso colocar as coisas em perspectiva ...

Agora, como se explica que, tendo sido os anos 50 e 60 o melhor período de sempre, e que os anos 80 e 90 nem foram assim nada de especial (com taxas médias de crescimento na ordem dos 3% ao ano), que o maior Bull Market da História tenha ocorrido precisamente entre 1982 e 2000? Como poderão verificar no artigo Contagem de Bull e Bear Markets, este Bull Market não teve qualquer precedente em toda a História, foi o maior quer em termos de duração temporal quer em termos de valorização.

Eu penso que este Bull Market foi em parte justificado, mas foi empolado nos últimos anos e transformou-se numa bolha, que entretanto estoirou. Isto tudo já sabemos, agora há uma curiosidade macroeconomica que todos os interessados devem de vez em quando questionar:

«Se dantes existia o padrão-ouro, e o Banco Central criava moeda de acordo com o Ouro que detinha, como é agora? Agora já não existe Ouro para converter as notas e moedas, tudo se baseia numa relação de confiança no Sistema Monetário. Mas, como é agora criado o dinheiro, quais são os critérios que servem de base à criação e destruição de moeda?»

Ora bem, a massa monetária aumenta de acordo com o Crédito Interno (CI) e a variação das Disponibilidades com o Exterior (DLX). O CI é o vulgar crédito a empresas e particulares. O DLX é a diferença entre aquilo que o Banco Central tem em Ouro e Divisas menos a sua dívida a países estrangeiros. O padrão-ouro foi abandonado pelos EUA em 1971 porque o Banco Central não tinha Ouro em reserva correspondente à massa monetária em circulação, as notas e moedas passaram a ser inconvertíveis. O Ouro, que estava com o seu valor fixo nos 35 $, foi libertado para flutuar livremente de acordo com as leias da oferta e da procura, e subiu 2.300% nos 9 anos seguintes.

O principal problema do padrão Ouro era colocar entraves à expansão económica. Gerava confiança, pois o crescimento era sólido, com passos seguros, mas era um entrave. Passou-se a criar moeda (e a financiar o crescimento da Economia) baseado essencialmente no aumento do crédito. Criaram-se medidas de controle aos bancos, como os rácios de solvabilidade exigidos (por falar nisso, têm sido divulgadas notícias de que o BCP não está a cumprir com o rácio de solvabilidade exigido pelo Banco de Portugal) e o Fundo de Garantia de Depósitos (que cobre apenas uma pequena parte dos depósitos, atenção) para garantir que uma crise de confiança não abale o Sistema Monetário.

Baseado no crédito, qualquer um pode crescer, a taxas exponenciais se for preciso, o problema é se esse crescimento não for sustentável, e os créditos têm sempre de ser pagos. Só para dar um exemplo, eu, trabalho numa empresa que dá prejuizo, que por sua vez depende de uma multinacional (T-Online) que dá prejuizo, que por sua vez depende de uma das maiores empresas europeias (Deutsche Telekom) que dá prejuízos anuais da dimensão de mais de metade do PIB português. A Deutsche Telekom investiu com dinheiro dos bancos, dinheiro emprestado, que tem de pagar. Eu não o fiz, mas imagino que milhares de empregados da empresa tenham comprado casas e carros a crédito, e toda essa riqueza, todo esse crescimento, é fictício, é baseado exclusivamente no aumento da dívida.

Penso que o que está escrito neste exemplo simplista é um dos problemas que temos hoje em dia na Economia mundial e nos mercados: uma boa parte do crescimento anterior foi fictício, não existiu, mas os mercados valorizaram-no. Agora é o «pay back time».

Voltando ao meio do artigo (isto deveria ser posteriormente organizado - mas não temos tempo), se pensarmos que o binómio Investimento + Consumo vai transformar-se progressivamente em Poupança + Entesouramento (numa pequena parte, claro, não se vai deixar de investir ou de consumir (especialmente este), mas vai-se investir e consumir menos, em proporção do rendimento), temos também um problema do sistema monetário por resolver - se a criação de moeda é feita através do aumento do crédito interno, se ninguém pedir créditos, como é que a massa monetária aumenta, para proporcionar crescimento?

A taxa de juro não é mais do que o preço do dinheiro emprestado. Se há muita procura de dinheiro, o preço sobe. Se não há procura e há oferta, o preço desce. É por isso que as taxas de juro estão a cair vertiginosamente, ninguém quer (ou pode pedir) mais dinheiro emprestado ! E se pensarmos que no Japão as taxas de juro estão em 0%, e mesmo assim ninguém quer dinheiro emprestado, temos um problema. Um problema especialmente no sector bancário, coração da Economia, cujas receitas advém principalmente do crédito concedido. Que ainda por cima no Japão ficou agarrado com as acções em queda, o público em boa parte até que já vendeu, quem ficou com elas acabaram por ser os fundos de investimento (que têm dinheiro também do público - mas ainda hoje o Artur Santos Silva do BPI disse que o BPI iria continuar a investir na PT), e depois anda o Banco do Japão a comprar acções para ver se melhora os rácios de solvabilidade dos principais bancos, para não ter de os declarar insolventes.

Soluções?

Do ponto de vista económico, voltar a ser racional. Corrigir os excessos (por exemplo, o PER do S&P 500 nos 37, tem de vir para 10). Ser racional nos Governos, nos Bancos Centrais, nas empresas, nas nossas casas.

Afinal, a Economia não mudou, nós é que estávamos a viver um sonho acordados.

Do ponto de vista monetário, criar um Novo Sistema Monetário, que não baseie o crescimento da massa monetária no aumento do crédito (e do endividamento), mas sim num real crescimento do poderio económico. Ter como contrapartida para a massa monetária um valor, não uma relação de confiança.

Se me perguntam se os mercados ainda vão bater novos máximos históricos, no futuro, eu respondo com toda a convicção: SIM ! Mas antes disso, esta Tendência bear de longo prazo ainda tem imenso por onde se expandir, todos os ramos da análise racional (Análise Técnica, Análise Fundamental, Análise do Sentimento de Mercado) apontam para mais quedas no médio/longo prazo.

Como investimento lucrativo de longo prazo, relendo todo este artigo, continuo a advogar os shorts nos mercados accionistas (apesar de considerar que a dada altura pode haver um rebound, este artigo é de longo prazo), longo nas obrigações, e longo no Ouro e acções de empresas mineiras. Afinal, continua a ser essa a Tendência, o mercado está de acordo com a argumentação, e sabemos que não deveremos contrariá-lo ...

Imagino que este artigo possa ser chocante para alguns, desajustado no tempo para outros (mas este artigo é apenas mais um de uma série, mesmo anteriormente ao Dark side of the Moon 1 já tinha defendido quedas de longo prazo dos mercados), com uma flagrante ausência de dados concretos para outros ainda, triste para alguns (mas triste é não estarmos preparados e não darmos valor a coisas bem mais preciosas que a abundância económica), para outros ainda será uma aberração, mas ... aqui está escrito aquilo que penso, de forma resumida e algo atabalhoada, e é aquilo que posso fazer nesta altura (gostaria de só investigar estas questões macro de longo prazo, mas tenho uma família para sustentar lol).

Bom, se não der para mais nada o artigo deve dar para reflectir um pouco e estou satisfeito por tê-lo escrito.

Durante a tarde vou escrever o artigo Ouro 2, um abraço e bons negócios !

César Borja