Comecemos pela economia e análise do endividamento, passando depois para as contas deficitárias e finalmente vamos ao mercado accionista.

Analisando o endividamento, apercebemo-nos primeiramente que o serviço da dívida se tem mantido a níveis aceitáveis, apesar de no máximo dos últimos vinte anos, dentro do intervalo 12 a 14%. Pois então, porquê tanto alarido sobre o endividamento??



A verdade, é que o aumento exponencial da dívida, como veremos a seguir, beneficiou da forte redução das taxas de juro durante o período analisado para o equilíbrio da balança dos consumidores, no que diz respeito às suas obrigações de pagamento de prestações. Se em 1981 as taxas de juro rondavam os 15%, hoje em dia estão como é sabido a 1,25%, logo as prestações periódicas a que qualquer empréstimo fica sujeito foram gradualmente reduzidas permitindo a ilusão de se pedir cada vez mais capital emprestado sem pesar no bolso ao fim do mês.



Mas o facto do serviço da dívida estar nos níveis mais altos das últimas duas décadas, com as taxas de juro em mínimos históricos, é factor de muita preocupação, pois sugere que no futuro próximo um aumento do custo da moeda pode ter efeitos negativos muito fortes sobre o consumo, que conta em cerca de 70% para o crescimento do PIB (Produto Interno Bruto).

Como se pode ver pelos dois gráficos a seguir, desde inícios de 80 que os consumidores norte-americanos não se pouparam a gastos. E assim, a poupança foi cada vez menos uma receita utilizada pelos habitantes da Terra do Tio Sam, sendo o seu rendimento disponível canalizado para o consumo de bens e serviços e para a compra de habitação.



Actualmente, apesar de se ver alguma preocupação em poupar, a verdade é que o caminho a percorrer ainda é longo, e a dívida continua assim, a exceder o rendimento disponível, facto impensável há umas décadas atrás quando o rácio era de apenas 65%.



A política de dólar forte e forte endividamento, tornou os Estados Unidos o centro de crescimento do mundo, o cavalo de corrida onde todos queriam apostar pois a probabilidade de ganhar era cada dia maior. Todas as forças foram conduzidas nesse sentido, e os países de todo o mundo, obedeceram que nem cordeirinhos. O Investimento Directo Estrangeiro nos Estados Unidos ultrapassou, deste modo, valores impensáveis.



Mas tudo de bom tem um reverso, e esse reverso é actualmente um défice de conta corrente e da balança comercial nos valores mais elevados de há muitas décadas, se não de sempre. Quando se fala no resto do mundo emprestar perto de 2 mil milhões de dólares por dia a este país, justifica-se pelo financiamento deste monstro colossal que é o défice dos Estados Unidos.



Penso que devemos ficar felizes pelo facto de estas graves, muito graves, feridas não terem ainda encetado uma espiral catastrófica. A Reserva Federal, tem sido o principal pilar de segurança, com uma agressiva política monetária expansiva. Após ter sido considerada uma das culpadas, em permitir que a situação chegasse a este ponto, o seu papel tem sido claramente em procurar que o equilíbrio, a diluição dos excessos, ocorra calmamente, durante anos se for preciso. O essencial é que não haja pânicos!

Existe um outro ponto, que foi muito pouco enunciado, mas que a meu ver também permitiu a situação estar-se a desenvolver a esta velocidade. O facto de em 2001 a população pensar que a economia estava a crescer apesar da queda dos mercados, e só no ano passado com a revisão dos dados se ter vindo a saber que afinal o país tinha vivido uma forte recessão. Acho que se os reais valores tivessem sido conhecidos na altura, o ciclo depressivo teria aumentado a velocidade e perigosidade e hoje a situação podia ser bem pior.

Foquemo-nos agora no mercado accionista e vamos constatar porque o optimismo terá de ser deixado de lado ainda por alguns anos. A questão é simples, estão a maioria das acções caras ou baratas face à sua história??

Agora, como já não existe o mito da nova economia, os antigos conceitos de valor são mais fáceis de transmitir e, assim, aqui ficam os tradicionais Per e Dividend Yield do S&P500, esse índice que cobre uma ampla economia, como a dos Estados Unidos.



Se não tivéssemos vivido a situação, possivelmente pensaríamos que os gráficos tinham um “spike”, um erro de processamento de informação, relativamente aos dados dos últimos anos. Mas, a verdade é que não.

O Per de 37, apesar de ter diminuído muito, continua a valores muito elevados, face a uma média de 14 dos últimos 100 anos. O Dividend Yield de 1,4%, a valores demasiado baixos, face a uma média de 4,7%. Uma ressalva tem de se fazer relativamente a este rácio de análise, é que se em 1980, 93% das empresas distribuíam dividendos, o ano passado esse valor era apenas de 70%, demonstrativo da degradação dos resultados.



De seguida, apresento um gráfico com uma medida de avaliação utilizada pelo mestre do Investimento, Warren Buffett, que compara o valor total das acções com o PNB (Produto Nacional Bruto). Este rácio é também indicativo de sobrevalorização do preço das acções no geral. Reparem que no início da década de 80 e de 50, que foi o princípio de dois grandes bull markets, o rácio era de 40% comparativamente a 100% actualmente.



Assim chegamos ao fim, com a rendibilidade do S&P500, dividendos reinvestidos, dos últimos 25 anos. Como todos sabem os últimos anos têm sido negros e recordes esperam-se vir a ser batidos.



A vida está difícil, pois está, e o pior é que vai continuar.

João Henriques
www.clubeinvest.com

Fonte dos dados:
Reserva Federal dos Estados Unidos
Standard and Poors