A-Shares e B-Shares — O Muro Invisível

A particularidade mais notável da bolsa de Xangai é a divisão entre A-shares e B-shares. As A-shares são denominadas em renminbi (yuan) e foram, durante décadas, reservadas exclusivamente a investidores domésticos chineses. As B-shares, denominadas em dólares americanos, eram o único veículo disponível para estrangeiros. Esta divisão criou uma situação peculiar: a mesma empresa podia ter duas cotações diferentes, uma para chineses e outra para estrangeiros, com disparidades de preço que chegavam a 40-50%.

A lógica por detrás desta separação era proteger o mercado doméstico da volatilidade do capital especulativo internacional. O governo chinês queria que os cidadãos investissem nas empresas nacionais, mas não queria que os fluxos de capital estrangeiro desestabilizassem um mercado ainda jovem e em desenvolvimento. Foi uma abordagem paternalista, sem dúvida, mas que reflectia a preocupação real de que um mercado imaturo podia ser devastado por movimentos bruscos de capital global. A abertura gradual, através dos programas QFII (Qualified Foreign Institutional Investor) a partir de 2002 e, mais recentemente, do Stock Connect com Hong Kong em 2014, tem vindo a derrubar este muro invisível peça a peça.

A Bolha de 2007 — Euforia e Desastre

Se há um episódio que define o carácter da bolsa de Xangai, é a bolha espectacular de 2006-2007. O Shanghai Composite subiu de cerca de 1.000 pontos no início de 2006 para mais de 6.100 pontos em Outubro de 2007 — uma valorização de mais de 500% em menos de dois anos. Milhões de chineses que nunca tinham investido em acções abriram contas de corretagem, muitos deles reformados, donas de casa e trabalhadores rurais que viam nos mercados uma forma de enriquecer rapidamente. Havia filas à porta das corretoras. Os jornais publicavam histórias de taxistas que tinham triplicado as poupanças em meses. Era a definição perfeita de euforia colectiva.

O que se seguiu foi igualmente espectacular na destruição. Em doze meses, o índice caiu de 6.100 para 1.700 pontos — uma perda de mais de 70%. As poupanças de uma geração evaporaram-se. A lição foi brutal mas necessária: os mercados emergentes podem oferecer retornos extraordinários, mas a volatilidade é de uma ordem completamente diferente daquilo a que um investidor europeu está habituado. Quem comprou no pico de 2007 ainda não recuperou o investimento em 2010.

O Governo como Jogador — Intervenção Directa

Uma das características mais marcantes da bolsa chinesa é a intervenção directa e frequente do governo. Em 2015, quando o mercado voltou a cair abruptamente (mais de 40% em semanas), o governo tomou medidas que seriam impensáveis nos mercados ocidentais: proibiu vendas a descoberto, impediu grandes accionistas de venderem durante seis meses, ordenou ao fundo soberano que comprasse acções massivamente e suspendeu a negociação de centenas de empresas simultaneamente. Mais de metade das empresas cotadas foi suspensa ao mesmo tempo — algo sem precedente na história dos mercados financeiros globais.

Para o investidor ocidental habituado à separação entre Estado e mercado, estas intervenções podem parecer aberrantes. Mas é fundamental compreender o contexto: na China, o mercado de capitais é uma ferramenta de política económica ao serviço dos objectivos do Partido Comunista. A estabilidade social prevalece sobre a eficiência de mercado. E quando o governo decide que o mercado deve estabilizar, tem os instrumentos — e a vontade — para o forçar. Isto significa que investir na China requer uma leitura atenta da política tanto como dos fundamentais das empresas.

A Inclusão no MSCI — O Ponto de Viragem

Em Junho de 2018, o MSCI incluiu pela primeira vez A-shares chinesas no seu índice de mercados emergentes. Foi um momento simbólico e prático. Simbólico porque representava o reconhecimento internacional de que a bolsa chinesa cumpria padrões mínimos de acessibilidade e governança. Prático porque obrigou milhares de fundos que seguem o índice MSCI a comprar automaticamente acções chinesas, trazendo um fluxo de capital institucional que o mercado nunca tinha visto. A inclusão foi inicialmente com um peso modesto (5% do factor de inclusão), mas o caminho está aberto para uma representação proporcional ao tamanho real da economia chinesa — o que poderá eventualmente representar 20-30% do índice de mercados emergentes.

Stock Connect — A Ponte de Hong Kong

O programa Shanghai-Hong Kong Stock Connect, lançado em 2014, foi a inovação que verdadeiramente abriu a bolsa chinesa ao mundo. Através de Hong Kong, investidores internacionais podem comprar A-shares directamente, e investidores chineses podem aceder a acções cotadas em Hong Kong. É como uma ponte entre dois mundos financeiros: o capitalismo de Estado chinês de um lado e o mercado livre de Hong Kong do outro. Os fluxos através do Stock Connect tornaram-se um indicador importante do sentimento dos investidores estrangeiros em relação à China. Quando os «northbound flows» (dinheiro a entrar na China continental via Hong Kong) aumentam, é sinal de confiança. Quando diminuem, é sinal de cautela.

Como Investir na China Continental

Para o investidor português, a forma mais prática de ganhar exposição à bolsa de Xangai é através de ETFs. O iShares MSCI China A UCITS ETF, por exemplo, oferece acesso às A-shares denominado em euros e negociável na Euronext. Alternativas incluem o Xtrackers CSI 300 e o HSBC MSCI China A. A escolha depende do índice subjacente e das comissões, mas todos cumprem a função básica: exposição diversificada ao mercado continental chinês sem as complicações de abrir conta numa corretora chinesa.

A alocação recomendada à China depende da tolerância ao risco e do horizonte temporal, mas para a maioria dos investidores europeus, 3-8% da carteira total é uma exposição razoável. O suficiente para beneficiar do crescimento da segunda economia mundial sem que uma crise localizada destrua a carteira. Porque crises haverá — na China como em qualquer outro mercado. A diferença é que na China, quando a crise chega, o governo intervém com uma mão pesada e imprevisível. E isso, para o bem e para o mal, é algo com que qualquer investidor na bolsa de Xangai tem de aprender a conviver.