Como sabem, sou uma pessoa prática. Para mim, as teorias mais complexas e devastadoras devem ser apresentadas de forma simples, clara e aberta. O cenário que vou apresentar a seguir, embora pouco ortodoxo, tem subjacente as técnicas mais adequadas e o bom senso mais elementar. Por isso mesmo, para além de tomarem as devidas precauções, podem levar este tom coloquial à letra e, no final, para conversarmos um pouco, se assim o entenderem.

Ah! E não se admirem de ir contra o que eu próprio escrevi na crónica anterior (…”importante não é de forma nenhuma tentar saber ou descobrir o que vai acontecer no futuro”)! É que há casos em que devemos abrir uma excepção, e avançar com as nossas opiniões, as quais embora sendo meras hipóteses, podem fazer-nos pensar, o que já é uma boa desculpa.

Comecemos, então. Olhando para o USD, cuja evolução irá influenciar grandemente as bolsas em todo o mundo, vamos observar uma situação muito curiosa: a moeda norte-americana passou a ser, após 1944 (ano da criação do sistema de Bretton Woods), a mais utilizada nas transacções internacionais e a mais importante a nível mundial mas, ao mesmo tempo, não tem parado de se desvalorizar progressivamente. Com efeito, analisando as últimas décadas, o US Dollar Index (DX) tem sofrido inúmeras fortes variações, a mais importante das quais foi a descida de 164,7 em 25-02-85 para 78,3 em 09-01-92 (menos 53%),

Em relação ao Marco (DM/$) e ao iene (USD/JPY), de 1970 até 1995, a desvalorização do USD foi de 62% e 72%, respectivamente. De destacar, o período de pouco mais de 2 anos e meio, entre 1985 e finais de 1987, em que houve uma descida do USD de 54%, tanto em relação ao marco como em relação ao iene.

E o USD passou por isto tudo para poder continuar a desempenhar o seu papel de protagonista na cena mundial, caindo muitas vezes e depois levantando-se cada vez mais trôpego e curvado. Dá que pensar!

Só que estamos na altura de, no âmbito da sua actual tendência descendente de médio/longo prazo, perspectivarmos um provável reforço da duração e do nível da correspondente descida, tentando “ver”, no denso nevoeiro, o que “tem” de acontecer, mesmo que pareça um cenário exagerado ou essa eventualidade se nos afigure irrealista.

E é precisamente nesse contexto que alguns economistas internacionais estão a ponderar qual a percentagem necessária de desvalorização do USD (contada a partir de agora!), relativamente às moedas (euro e iene) dos seus maiores parceiros comerciais. E isto para não haver uma desgraça financeira global, motivada pelo aumento crescentemente acelerado do défice das contas externas dos EUA, que já conta com vários triliões no seu saldo.

Realmente, as previsões daqueles técnicos variam, mas praticamente nenhum deles tem dúvidas de que uma descida bastante pronunciada é infalível, com a posição dos optimistas a apontar para cerca de 15-20% de descida do USD, contra os 50% de desvalorização que os mais pessimistas admitem. Claro que esta variação deveria ser o mais lenta possível (dois anos, no mínimo) senão o castelo de cartas poderia cair e o problema tornar-se ainda maior.

Ora, fazendo as contas, o que é que isto dá? Com uma descida intermédia do USD de 30%, relativamente ao euro e ao iene, e considerando por simplificação uma desvalorização de 10% em relação às restantes moedas do cabaz, chegam-se aos seguintes valores: o DX passaria para 71, o EUR/USD para 1,64 e o USD/JPY para 78.

Seriam estes os objectivos a atingir… prevendo um processo controlado e não linear, até para não haver rupturas ou recessão a nível mundial! Se ficaram sem palavras, sempre vos posso dizer que a realidade ultrapassa muitas vezes a ficção, e que economistas do Goldman Sachs e do Deutsche Bank estão entre os que pensam que uma desvalorização do USD entre 40-50% é a mais indicada para reduzir o défice externo dos EUA … para 3,5% do PIB, lá para 2007!!!

O Jim Sinclair apresentou há tempos uma análise do DX, em que, com a quebra do neckline do H&S gigante, ele calculava um target de 72 para esse índice. É simples e brutal. Penso que nem ele acreditava muito nisso, nessa altura. E eu também posso ainda não acreditar o suficiente nesta teoria, embora a ache cada vez mais verosímil, e aquele valor perfeitamente aceitável para um destes próximos anos…

Para não me esquecer, tenho esse número (72) pregado no meu quadro de trabalho, não tanto como um objectivo futuro, mas como um referencial dos tempos complexos em que poderemos estar todos envolvidos.

Eu posso não acreditar muito, mas que existe uma boa probabilidade, lá isso existe…

Um abraço

Comentador