Senti que o meu outro texto não respondeu exactamente à pergunta, mas deu essencialmente uma opinião sobre o estado da economia nos pontos que o Cem também focou. Vou então completar a minha resposta/opinião.

A pergunta do Cem foi esta:

«A pergunta que faço é simplesmente esta: se antigamente o Japão tinha uma liquidez impressionante ao comprar a parte de leão da dívida americana nos anos 80 e tendo em conta que nos anos 90 a administração Clinton conseguiu um feito ao estancar os défices crescentes transformando-os em superavits, quem tem neste momento a nível mundial a capacidade real de ir em socorro desta necessidade vital de comprar as obrigações americanas?

Resposta: ninguém a nível de governos centrais!
Consequência: para tentar captar a apetência de investidores particulares e institucionais na urgência da venda das bonds ( obrigações ), as taxas de juro das mesmas terão de ser suficientemente atractivas. Esse prémio de emissão das obrigações incentivará inevitavelmente um abandono generalizado dos investimentos em acções e sua transferência para as treasuries americanas de baixíssimo risco e remuneração mais atractiva!

Conclusão) Lá se vai a estratégia da Fed por água abaixo: um balde de água fria à estratégia de intervenções de injecção de confiança nos mercados accionistas, fuga de investidores para investimentos sem risco e remuneração mais simpática que o habitual, retoma do crescimento adiada porque a transferência dos investimentos de acções para obrigações será inevitável e terão como consequência imediata nova queda nas Bolsas...onde parará então este ciclo infernal sem solução à vista?
Alguém tem resposta a estas perguntas?»


A minha nova resposta:

No final do primeiro trimestre 36% das obrigações do Tesouro estavam em mãos estrangeiras, o que equivalia a cerca de 1,25 triliões de dólares, a níveis muito perto do recorde. No fundo, podemos dizer que 36% do défice norte-americano está a ser financiado por estrangeiros.

Até ao mês de Maio o Japão e a China eram os dois maiores detentores de Obrigações norte-americanas, com 428 e 121 mil milhões de dólares, respectivamente. Hong-Kong detinha 52 mil milhões.
Os bancos centrais asiáticos possuíam mais de 20% do mercado de dívida do Estado norte-americano, cerca de 936 mil milhões de dólares.

Aqui põem-se um problema, é que se por um lado os Estados Unidos pressionam a China para valorizar o Yuan para que haja maior justiça no comércio internacional, o défice comercial dos Estados Unidos para com a China subiu nos últimos 13 anos de 6 milhões para 105 mil milhões de dólares, por outro, as reservas chinesas em dólares vão perder valor, logo não vale a pena investir tanto nas Obrigações norte-americanas e algumas pessoas na China mostraram já o seu desagrado por a China não adquirir mais reservas em euros e ienes. O mesmo problema se põe relativamente ao Japão.

Mas a verdade é que apesar da desvalorização do dólar nos dois últimos anos, a compra de activos norte-americanos continua em alta. E se no início deste ano alguns analistas começaram a duvidar da capacidade dos Estados Unidos continuarem a captar investimento estrangeiro, nunca se falando da possibilidade de fuga de capital, apenas um arrefecimento, a verdade é que no segundo trimestre a tendência compradora voltou a reforçar-se.

A aquisição de activos norte-americanos por parte de estrangeiros bateu um novo recorde no segundo trimestre, atirando para 387 mil milhões de dólares a compra durante o primeiro semestre e que aponta para um novo recorde no final deste ano. E mais impressionante é que durante os primeiros seis meses do ano os investidores estrangeiros adquiriram mais obrigações do que os investidores norte-americanos.

Até Junho, o Japão investiu 76 mil milhões de dólares nos Estados Unidos, dos quais 50 mil milhões foram para Treasuries. Se os investidores japoneses continuarem a adquirir Obrigações do Tesouro norte-americanas a esta velocidade, ultrapassarão em mais do dobro o recorde de 41 mil milhões de 1996.

Com estes números em cima da mesa, podemos afirmar que os países asiáticos reconhecem a importância dos Estados Unidos como motor de crescimento das suas próprias economias e assim estão prontos a financiar o seu endividamento. A forte propensão para o consumo dos norte-americanos equivale a mais bens vendidos pelas empresas exportadoras japonesas e chinesas. Qual o interesse destes dois países em não apoiar os Estados Unidos: para já nenhum, mas e no futuro, será que vão deixar de apoiar?

Eu penso que não, a cooperação internacional é algo obrigatório no mundo global de hoje, a política económica é delineada por cada Governo mas ajustada tendo em conta as necessidades globais. Uma fuga de capital das treasuries causaria uma instabilidade financeira que não era saudável para ninguém. Esta teoria é, em minha opinião, sustentada pela política de pressão que os Estados Unidos estão a realizar junto do governo japonês e chinês para que deixem as suas moedas valorizarem, com o objectivo de reequilibrar a balança comercial e permitir um ajustamento do défice corrente norte-americano. Se os Estados Unidos receassem uma fuga de capital a sua política seria a de continuação de um dólar forte.

O dólar fraco vai permitir reforçar a poupança norte-americana transferindo a força da economia da procura interna para as exportações e contribuindo para a luta contra a desinflação. Se houvesse uma fuga das treasuries assistiríamos uma subida das taxas de juro criando-se um obstáculo adicional ao investimento e ao consumo. Ontem os mercados reagiram em baixa com receio deste acontecimento.

A quantidade de emissão de obrigações está também relacionada com défice orçamental, e este está presentemente mais pressionado por questões de ordem política interna do que por questões externas. Com a eleição presidencial em Novembro de 2004, a equipa económica do Bush tem de delinear medidas para que o défice seja contido, já que se continuar a aumentar será uma arma política muito forte na mão dos seus opositores.

Deste modo, não acredito que venha a ser necessário um prémio na emissão de obrigações, não havendo consequentemente risco para o mercado accionista.

Mas a questão de obrigações versus acções é mais complexa e pode ser vista à luz da previsão da evolução da inflação e das taxas de juro e do crescimento económico.

Relativamente à evolução da inflação e taxas de juro, já em Julho deste ano, os receios de uma recuperação económica e do surgimento de inflação levaram a que o mercado obrigacionista tivesse um mês de perdas significativas. A subida das yields pressionou também negativamente as acções. Mas, as previsões de inflação continuam a ser que esteja contida nos próximos meses e os riscos apontam para mais desinflação do que para inflação. Deste modo, as taxas de juro deverão continuar pressionadas em baixa alimentando não só o mercado obrigacionista como o accionista. A dúvida agora dos mercados é que se houver uma desvalorização forte do dólar virá inflação e consequentemente uma subida das yields?? Eu penso que a desvalorização diminuirá apenas o risco de entrada em deflação.

Mas se tivermos em conta o crescimento económico, este está ameaçado pelos dois défices, orçamental e da conta corrente, que devido às suas enormes proporções deverão ser ajustados no futuro e que implicam com grande probabilidade um abrandamento da economia. Este abrandamento seria prejudicial às acções, e seria favorável às obrigações. (ver este artigo)

Como a economia não é uma ciência exacta e depende de inúmeros factores que se relacionam entre si, e os mercados financeiros têm comportamentos difíceis de prever esta foi a resposta possível :-)

João Henriques