Apesar dos meus parcos conhecimentos em assuntos de macro-economia gostaria de reflectir acerca do impasse em que caiu a economia locomotiva deste planeta e a forma de sair deste ciclo vicioso em que se meteu a economia americana:

A) A Federal Reserve baixou as taxas de juro a níveis nunca vistos.

B) As empresas, em vez de aproveitar a benesse para investir e criar postos de trabalho, apostaram em aumentos de produtividade e emagrecimento dos seus custos fixos através de despedimentos. A Fed é obrigada a ir mais além para incentivar os investimentos. As taxas de juro estão condenadas a descer mais? Consequência imediata: o dólar é pressionado em baixa, tornando a prazo a economia americana mais competitiva através das exportações. A Bolsa seria teoricamente beneficiada mas as outras economias competitivas não ficarão a dormir, a Europa e Japão não podem permitir que as suas exportações fiquem prejudicadas pelo facto das suas divisas se valorizarem, resta-lhes acompanhar a descida das taxas de juro do Euro e Iene para pressionar a respectiva desvalorização. Digamos que a resultante destas reacções em cadeia dos governos centrais se traduzem normalmente num empate...
As taxas de juro atingiram um patamar tão baixo que a sua redução nesta fase é igual ao litro, a reacção dos mercados de capitais é de completa indiferença!

C) A riqueza dos particulares e empresas nos States mede-se em grande parte pela evolução da Bolsa, se os índices sobem o seu património aumenta e sentem-se particularmente com mais apetência para gastar e investir. A Fed sabe disso e para impedir que um determinado clima de confiança esmoreça, sabe também que um aumento de taxas de juro seria neste caso um tiro no pé.

D) As taxas de juro já têm pouca margem de manobra, daqui a pouco tocam no zero, mas as tensões inflacionistas só se farão sentir quando o consumo interno disparar e aí, sim, as empresas tiverem procura suficiente dos seus produtos que as obriguem a contratar mais pessoal! Ora, isso só acontecerá quando os níveis bolsistas atingirem patamares de valorização apreciáveis, situação que ainda não se verificou.

E) Conclusão: enquanto as Bolsas não arrancarem de vez para níveis mais elevados continuaremos a ter taxas de juro baixas, dólar a desvalorizar, metais a apreciar, desemprego sem inversão à vista, investimento estagnado e crise a longo prazo a persistir.

F) As iniciativas anunciadas, por diversas fontes, da Fed intervir directamente nos mercados bolsistas, comprando acções para inverter as conclusões anteriores, parecem-me absurdas e irrealistas.
Tenho dúvidas que tal tenha acontecido, mas não excluo a hipótese, quer-me parecer que a difusão desta intervenção se destina mais a injectar um tom de segurança artificial a todos os investidores da Bolsa do que a alguma estratégia que à partida estaria destinada a um fracasso.
Mas vamos supor que sim, que houve uma injecção maciça de compras no mercado accionista. Por muitos biliões que a Reserva Federal possua ou fabrique, não vejo como pode contrariar a lógica e a força devastadora da maioria dos institucionais de um mercado mundial a funcionar a uma escala de triliões!
Resta-lhe a única alternativa credível: um trabalho de prestidigitação altamente complicado com um único objectivo: tentar criar a ilusão de uma economia sólida e com um clima de confiança elevado, para tentar incentivar o investimento na Bolsa...é muito duvidoso que o consiga nas presentes circunstâncias internacionais, onde o trauma da crise é muito recente e persistente!

G) Penso até que esta desvalorização do dólar é inevitável perante a necessidade vital da Fed ter de emitir mais dólares em quantidades descomunais para por um lado procurar intervir nos mercados em alturas críticas que considere apropriadas, para não esmorecer o clima de confiança, e por outro lado tapar os buracos do Governo Federal.
Não há alternativa possível à opção tomada pela administração Bush para fazer frente à sua política de défices gigantescos gerados perante os gastos impressionantes das campanhas do Afeganistão, do Iraque e à redução de receitas através da abolição da anterior taxa de mais valias. O défice tem de ser pago e coberto, nas presentes circunstâncias, a um preço muito elevado, para desespero da Federal Reserve.

H) De facto o défice é outro pesadelo e poderá ser o coveiro que irá matar à nascença a possibilidade de uma recuperação que parecia estar à vista.
O Governo Federal criou um factor perturbador que com toda a probabilidade arruinou neste ciclo económico todas as esperanças de recuperação económica. Alegando razões de segurança, os contornos duvidosos da justificação política que criou este défice monumental criaram um novo foco de instabilidade que passa pelas consequências da cobertura da dívida.
Se recebo 100 e gasto 120, tenho de ir pedir emprestados 20 para pagar o excedente. Este problema resolve-se tradicionalmente na prática recorrendo a um empréstimo pedido à Banca no caso dos particulares e empresas ou emitindo obrigações no valor de 20 mais juros no caso das empresas e governos que gastaram a mais.
Estamos portanto perante um desequilíbrio orçamental que será resolvido através da emissão de dívida mediante a solução tradicional de obrigações a longo prazo para financiar o diferencial entre os custos que excedem as receitas.

A pergunta que faço é simplesmente esta: se antigamente o Japão tinha uma liquidez impressionante ao comprar a parte de leão da dívida americana nos anos 80 e tendo em conta que nos anos 90 a administração Clinton conseguiu um feito ao estancar os défices crescentes transformando-os em superavits, quem tem neste momento a nível mundial a capacidade real de ir em socorro desta necessidade vital de comprar as obrigações americanas?

Resposta: ninguém a nível de governos centrais!
Consequência: para tentar captar a apetência de investidores particulares e institucionais na urgência da venda das bonds ( obrigações ), as taxas de juro das mesmas terão de ser suficientemente atractivas. Esse prémio de emissão das obrigações incentivará inevitavelmente um abandono generalizado dos investimentos em acções e sua transferência para as treasuries americanas de baixíssimo risco e remuneração mais atractiva!

Conclusão) Lá se vai a estratégia da Fed por água abaixo: um balde de água fria à estratégia de intervenções de injecção de confiança nos mercados accionistas, fuga de investidores para investimentos sem risco e remuneração mais simpática que o habitual, retoma do crescimento adiada porque a transferência dos investimentos de acções para obrigações será inevitável e terão como consequência imediata nova queda nas Bolsas...onde parará então este ciclo infernal sem solução à vista?
Alguém tem resposta a estas perguntas?

Cem


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