Os primeiros anos: o rapaz que contava tudo

Warren Edward Buffett nasceu a 30 de Agosto de 1930 em Omaha, Nebraska, segundo de três filhos de Howard Buffett, um corretor de bolsa e congressista republicano. Desde muito cedo, Warren mostrou uma obsessão com números que ia além do normal para uma criança.

Aos 6 anos, comprava packs de seis garrafas de Coca-Cola por 25 cêntimos e vendia cada garrafa por 5 cêntimos — um lucro de 20% por transacção. Aos 8, começou a ler os livros sobre investimento do pai. Aos 10, já tinha lido todos os livros da secção financeira da biblioteca pública de Omaha. Não estava a brincar.

A primeira acção veio aos 11 anos: três unidades de Cities Service Preferred, compradas a 38 dólares cada. A acção caiu para 27 e Warren aguentou nervosamente. Quando recuperou para 40, vendeu — para a ver subir até 200 pouco depois. Desta experiência nasceram duas lições que nunca mais esqueceu: não entrar em pânico nas quedas e ter paciência para deixar os lucros correr.

Aos 13, fez a sua primeira declaração de impostos, já com rendimentos de um negócio de entregas de jornais. Aos 14, comprou 40 acres de terra agrícola com as poupanças. Aos 16, já tinha acumulado mais de 5.000 dólares — uma pequena fortuna para um adolescente em 1946.

Columbia e o encontro com Benjamin Graham

Depois de completar o secundário em Washington D.C. (onde o pai serviu como congressista), Buffett candidatou-se à Harvard Business School. Foi rejeitado — o entrevistador achou que, aos 19 anos, era demasiado novo e imaturo. Décadas depois, Buffett chamaria a esta rejeição «a melhor coisa que me aconteceu».

A razão? Ao pesquisar alternativas, descobriu que Benjamin Graham e David Dodd leccionavam na Columbia Business School. Graham era o autor de «Security Analysis», o livro que Buffett tinha devorado na adolescência. Candidatou-se e foi aceite.

Na Columbia, Buffett foi um aluno transformado. Absorvia cada palavra de Graham como uma esponja. O conceito de «margem de segurança» — comprar apenas quando o preço está significativamente abaixo do valor intrínseco — tornou-se o pilar da sua filosofia. Foi o único aluno na história da Columbia a receber um A+ de Benjamin Graham.

Após a graduação, Buffett ofereceu-se para trabalhar gratuitamente na Graham-Newman Corporation, a empresa de investimento de Graham. O mestre recusou inicialmente, mas acabou por aceitá-lo em 1954. Foram dois anos de aprendizagem intensiva, trabalhando lado a lado com a lenda.

As partnerships: o génio emerge

Quando Graham se reformou e fechou a empresa em 1956, Buffett regressou a Omaha e, com apenas 25 anos, criou a Buffett Partnership Ltd. Começou com 105.100 dólares de sete investidores — familiares e amigos. A sua contribuição pessoal? Apenas 100 dólares.

O acordo era simples: Buffett ficava com 25% dos lucros acima de 6% ao ano. Se perdesse dinheiro, absorvia a perda pessoalmente. Era uma demonstração de confiança absoluta na sua capacidade.

Os resultados foram extraordinários. Entre 1957 e 1969, a partnership gerou um retorno médio anual de 29,5%, contra 7,4% do Dow Jones. Em 13 anos, nunca teve um ano negativo. Os 105.100 dólares iniciais transformaram-se em mais de 26 milhões.

Foi nesta fase que Buffett começou a afastar-se do «value investing puro» de Graham — comprar empresas muito baratas, independentemente da qualidade — e a evoluir para uma abordagem mais sofisticada, influenciado por Charlie Munger e por Philip Fisher: comprar empresas extraordinárias a preços justos.

A Berkshire Hathaway: de fábrica têxtil a império

Em 1962, Buffett começou a comprar acções da Berkshire Hathaway, na altura uma fábrica têxtil em declínio em New Bedford, Massachusetts. As acções estavam baratas — era um investimento «à Graham», baseado puramente no preço. Em 1965, tinha o controlo da empresa.

O negócio têxtil continuou a definhar, mas Buffett usou a Berkshire como veículo para os seus investimentos. Comprou companhias de seguros (National Indemnity, GEICO), que geravam «float» — capital dos prémios dos clientes que podia ser investido antes de ser pago em sinistros. Era dinheiro emprestado a custo zero, investido por um génio. A máquina de compor capital estava montada.

Ao longo das décadas seguintes, Buffett foi adquirindo empresas inteiras e participações significativas com uma disciplina inabalável. As compras mais icónicas incluem:

Coca-Cola (1988) — investiu 1,3 mil milhões de dólares. Hoje vale mais de 25 mil milhões, além de milhares de milhões em dividendos acumulados. «Se me dessem 100 mil milhões e me dissessem para tirar a Coca-Cola da posição de liderança, devolveria o dinheiro e dizia que não era possível», disse Buffett.

GEICO (1996) — comprou a totalidade da seguradora por 2,3 mil milhões. Hoje vale dezenas de vezes mais e é uma das maiores seguradoras dos EUA.

Burlington Northern Santa Fe (2009) — comprou a ferrovia inteira por 44 mil milhões de dólares, a sua maior aquisição. Chamou-lhe «uma aposta no futuro da economia americana».

Quem investiu 10.000 dólares na Berkshire Hathaway em 1965 tem hoje uma posição avaliada em mais de 300 milhões de dólares. Uma acção que custava 19 dólares vale agora mais de 600.000. É provavelmente o maior track record de investimento da história.

A filosofia: simples mas não fácil

A abordagem de Buffett pode resumir-se em princípios que parecem simples mas que pouquíssimos conseguem executar com a sua consistência:

«Circle of competence» — investir apenas no que se compreende genuinamente. Buffett evitou as empresas tecnológicas durante toda a bolha das dot-com porque não as compreendia. Em 1999, foi ridicularizado — a Berkshire teve um dos piores anos relativos da sua história. Em 2001, quando a bolha rebentou e as tecnológicas perderam 80-90% do valor, Buffett estava intacto. «O risco vem de não sabermos o que estamos a fazer», disse.

«Moat» (fosso competitivo) — procurar empresas com vantagens competitivas duráveis que as protejam da concorrência. Marcas poderosas (Coca-Cola), custos de mudança elevados (Apple), efeitos de rede, ou vantagens de custo. Quanto mais largo o fosso, mais previsível o futuro da empresa — e Buffett detesta incerteza.

Horizonte infinito — «o nosso período de detenção favorito é para sempre.» Buffett não é um trader. Não se preocupa com o preço diário das acções. Compra negócios extraordinários geridos por pessoas competentes e honestas, e deixa o tempo e os juros compostos fazer o trabalho.

Medo e ganância — «tenha medo quando os outros são gananciosos, e seja ganancioso quando os outros têm medo.» Durante a crise financeira de 2008, enquanto o mundo entrava em pânico, Buffett investiu 5 mil milhões na Goldman Sachs e 3 mil milhões na General Electric — em condições extremamente favoráveis. Quando toda a gente quer vender, é quando Buffett quer comprar.

Gestão de qualidade — «quando um gestor com reputação de brilhante entra num negócio com reputação de mau, é a reputação do negócio que se mantém intacta.» Buffett investe em pessoas tanto como em empresas. Procura gestores honestos, competentes e apaixonados pelo que fazem.

As cartas anuais: uma masterclass gratuita

Todos os anos, Buffett escreve uma carta aos accionistas da Berkshire que é uma obra-prima de comunicação financeira. Escritas com humor, clareza e honestidade brutal, estas cartas cobrem não só os resultados da empresa mas também lições de investimento, negócios e vida.

Buffett é o primeiro a admitir os seus erros — e fá-lo com uma candura invulgar no mundo empresarial. A compra da Berkshire Hathaway, por exemplo, é algo que ele considera um dos seus maiores erros: investir num negócio em declínio por ser «barato» em vez de investir num negócio em crescimento por ser bom.

O homem por trás do mito

Apesar de ser consistentemente um dos homens mais ricos do mundo, Buffett vive na mesma casa em Omaha que comprou em 1958 por 31.500 dólares. Conduz o seu próprio carro. Almoça frequentemente no McDonalds. Bebe cinco Coca-Colas por dia (diz que assim «ingere cerca de um quarto das suas calorias diárias»). Não tem telemóvel sofisticado nem computador no escritório.

A sua assembleia anual da Berkshire, realizada em Omaha no primeiro sábado de Maio, atrai mais de 40.000 accionistas de todo o mundo. É conhecida como o «Woodstock do capitalismo» — um evento único onde Buffett e Charlie Munger (até ao seu falecimento em 2023) respondiam a perguntas durante mais de cinco horas, entre goles de Cherry Coke e piadas secas.

Em 2006, Buffett anunciou que doaria mais de 99% da sua fortuna à caridade, a maior parte à Fundação Bill e Melinda Gates. É o maior acto de filantropia da história. «Não há nada de dinástico na riqueza acumulada», disse. «A sociedade é que deve beneficiar.»

Lições para o investidor português

No Clubeinvest, o Buffett é provavelmente a figura mais citada e discutida. As suas frases aparecem em assinaturas de membros, são debatidas em tópicos dedicados, e o livro «The Snowball» (a biografia autorizada por Alice Schroeder) gerou uma discussão animada no fórum com dezenas de respostas.

A maior lição de Buffett não é sobre acções ou empresas — é sobre temperamento. Não é preciso ser génio para investir bem. É preciso disciplina, paciência e a capacidade de resistir ao pânico quando tudo cai e à euforia quando tudo sobe. É preciso dizer «não» à maioria das oportunidades para poder dizer «sim» com convicção às poucas que realmente importam.

Como o próprio resume: «investir é simples, mas não é fácil.»