Infância e adversidade

Benjamin Graham nasceu Benjamin Grossbaum a 9 de Maio de 1894 em Londres, numa família judia de origem polaca. Com apenas um ano, a família emigrou para os Estados Unidos, estabelecendo-se em Nova Iorque. A infância de Ben foi marcada por duas tragédias que moldaram para sempre a sua relação com o dinheiro e o risco.

O pai morreu quando Ben tinha 9 anos, deixando a família em dificuldades financeiras. A mãe tentou compensar investindo as poupanças da família no mercado accionista — e perdeu quase tudo no pânico de 1907. O jovem Ben viu a mãe humilhada, a ter de pedir dinheiro emprestado a familiares. Nunca esqueceu. A sua obsessão futura com a «margem de segurança» e a protecção contra perdas nasceu ali.

Columbia e Wall Street

Apesar das dificuldades financeiras, Graham foi um estudante excepcional. Graduou-se pela Columbia University em 1914, segundo da turma, com ofertas para leccionar em três departamentos diferentes — Filosofia, Matemática e Inglês. Recusou todas e foi para Wall Street, começando como messenger boy na Newburger, Henderson & Loeb a 12 dólares por semana.

A sua ascensão foi meteórica. Em semanas, passou de messenger a analista. A sua capacidade de analisar balanços e encontrar discrepâncias entre o preço de mercado e o valor contabilístico das empresas era inigualável. Aos 25 anos ganhava o equivalente a meio milhão de dólares actuais. Aos 26, já era sócio da firma.

Em 1926, fundou a Graham-Newman Corporation com Jerome Newman, uma empresa de investimento que aplicaria os seus métodos de forma sistemática durante quase três décadas.

O Crash de 1929 e a lição definitiva

Mesmo Graham não foi imune à euforia dos anos 20. Apesar da sua abordagem disciplinada, usou alavancagem e perdeu cerca de 70% do capital durante o crash de 1929 e o mercado em baixa que se seguiu. Foi uma experiência devastadora — tanto financeira como emocionalmente.

Mas Graham fez algo que poucos fazem: usou o fracasso como combustível intelectual. Em vez de se afastar dos mercados, dedicou-se a construir um sistema de investimento que tornasse impossível (ou pelo menos muito improvável) sofrer perdas tão catastróficas. O resultado foram os dois livros que mudariam a história das finanças.

As obras que mudaram tudo

«Security Analysis» (1934) — escrito com o colega David Dodd ao longo de quatro anos, durante a Grande Depressão. É um livro monumental: mais de 700 páginas de análise meticulosa sobre como avaliar acções e obrigações com base em factos e números — não em emoções, rumores ou previsões. Foi o primeiro livro a estabelecer a análise financeira como uma disciplina rigorosa.

Antes de Graham, «investir» e «especular» eram praticamente sinónimos. Ele foi o primeiro a traçar uma linha clara entre os dois: investir é uma operação que, após análise cuidadosa, promete segurança de capital e um retorno adequado. Tudo o resto é especulação.

«The Intelligent Investor» (1949) — a versão mais acessível da sua filosofia, dirigida não ao profissional mas ao investidor comum. É neste livro que Graham apresenta as suas duas metáforas mais poderosas:

Mr. Market — imagine que tem um parceiro de negócios chamado Mr. Market. Todos os dias, ele aparece na sua porta e oferece-se para comprar a sua participação no negócio ou para lhe vender a dele. O problema é que Mr. Market é emocionalmente instável: alguns dias está eufórico e oferece preços absurdamente altos; outros dias está deprimido e vende por quase nada.

O investidor inteligente não é aquele que segue o humor de Mr. Market — é aquele que o explora. Compra quando Mr. Market está deprimido (preços baixos) e vende quando está eufórico (preços altos). Ou, melhor ainda, ignora-o completamente durante a maior parte do tempo.

Margem de segurança — o conceito mais importante de todo o value investing. Graham insistia que nunca se deve pagar o «valor justo» por uma acção — deve-se exigir um desconto significativo (20-50%) como protecção contra erros de cálculo, contra eventos imprevistos, e contra a própria falibilidade do analista. É a margem de segurança que transforma uma especulação numa investimento.

O professor que criou milionários

Graham leccionou na Columbia University de 1928 a 1957, quase três décadas. A sua aula de análise de investimentos era lendária — tinha lista de espera e atraía profissionais de Wall Street além de estudantes regulares.

Entre os seus alunos estavam:

Warren Buffett — o mais famoso, que diz ter encontrado «o mapa do tesouro» com Graham. Chamou ao seu primeiro filho Howard Graham Buffett em homenagem ao mestre.

Walter Schloss — que geriu um fundo durante 50 anos com retornos médios de 16% ao ano, seguindo os princípios de Graham à risca.

Irving Kahn — que trabalhou como assistente de Graham e depois investiu com sucesso até aos 109 anos, sendo um dos investidores mais longevos da história.

William Ruane — fundador do Sequoia Fund, um dos fundos com melhor track record das últimas décadas.

O facto de tantos alunos de Graham terem tido sucesso notável refuta a teoria dos mercados eficientes — se o sucesso fosse apenas sorte, não se concentraria tanto numa única sala de aula.

Investidor defensivo vs empreendedor

Uma das distinções mais úteis de Graham é entre dois tipos de investidor:

O investidor defensivo (ou passivo) quer resultados adequados com o mínimo de esforço e risco. Graham recomendava-lhe uma carteira simples: 50% em acções diversificadas de empresas de qualidade e 50% em obrigações de grau de investimento. Reequilibrar anualmente. Não tentar ser esperto. Dormir descansado.

O investidor empreendedor (ou activo) está disposto a dedicar tempo e esforço significativos para obter resultados superiores. Graham ensinou-lhe a procurar «bargains» — acções que negoceiam abaixo do valor de liquidação da empresa, com PER baixos e dividend yields acima da média. São os «charutos encontrados no chão» — ainda com uma baforada de valor.

Legado eterno

Graham morreu a 21 de Setembro de 1976, em Aix-en-Provence, França, onde se tinha retirado anos antes. Tinha 82 anos.

Praticamente cada conceito usado hoje na Análise Fundamental — desde o PER ao price-to-book, desde a análise de balanços à avaliação de obrigações — foi inventado ou formalizado por Graham. Quando um investidor compara o preço de uma acção com o seu valor intrínseco, está a usar o método Graham, mesmo que não o saiba.

Nas suas próprias palavras: «na vida financeira, como na vida em geral, a derrota é muitas vezes o prelúdio necessário para o sucesso — desde que se aprenda com ela.» Graham não só aprendeu como ensinou o mundo inteiro a aprender.