O Contexto: Do 25 de Abril às Privatizações

Para compreender as privatizações, é preciso recuar ao 25 de Abril de 1974. Após a revolução, o processo PREC (Processo Revolucionário em Curso) nacionalizou a banca, os seguros, os transportes, as comunicações, a energia, os cimentos e grande parte da indústria transformadora. Em poucos meses, Portugal ficou com um dos maiores sectores públicos empresariais da Europa Ocidental — centenas de empresas sob controlo estatal, geridas por nomeações políticas, com objectivos frequentemente mais sociais do que económicos.

Durante 15 anos (1974-1989), estas empresas foram geridas pelo Estado com resultados mistos. Algumas funcionavam razoavelmente. Muitas eram ineficientes, sobre-dimensionadas e cronicamente deficitárias. A adesão à CEE (Comunidade Económica Europeia) em 1986 trouxe duas pressões: a necessidade de modernizar a economia para competir no mercado europeu e a entrada de fundos estruturais que criavam oportunidades de investimento que o sector público não conseguia aproveitar sozinho.

O Lançamento: 1989-1996

O governo de Cavaco Silva (PSD, 1985-1995) lançou o programa de privatizações em 1989 com uma dupla motivação: reduzir o peso do Estado na economia (libertando recursos e melhorando a eficiência) e criar uma classe de pequenos accionistas — o «capitalismo popular» que democratizaria o acesso à bolsa e daria aos portugueses participação directa no crescimento económico.

As primeiras OPVs foram eventos nacionais. As agências bancárias enchiam-se de pessoas que nunca tinham comprado uma acção. Os bancos promoviam as OPVs com entusiasmo (ganhavam comissões na colocação) e o governo oferecia incentivos: preços com desconto, bonificações para pequenos investidores que mantivessem as acções durante períodos mínimos, e facilidades de pagamento.

As grandes privatizações desta fase incluíram:

Bancos: BTA (Banco Totta & Açores), BFB (Banco Fonsecas & Burnay), BPA (Banco Português do Atlântico), que se fundiram e consolidaram ao longo dos anos no BPI e eventualmente no BCP e no grupo Espírito Santo.

Cimentos: Cimpor — privatizada gradualmente, que durante anos foi uma das acções mais sólidas da bolsa portuguesa, até ser adquirida pelo grupo brasileiro Camargo Corrêa.

Energia: Petrogal (futura Galp Energia), EDP (Electricidade de Portugal) — privatizadas em múltiplas fases ao longo de mais de uma década.

Telecomunicações: Portugal Telecom — a mais emblemática e, eventualmente, a mais trágica.

O Capitalismo Popular: Realidade e Ilusão

Nos primeiros anos, o capitalismo popular funcionou: as acções das OPVs eram frequentemente oferecidas com desconto significativo ao preço de mercado, e os primeiros investidores ganhavam dinheiro quase sem risco. Comprar na OPV e vender no primeiro dia de cotação podia render 10-20% em semanas. A bolsa de Lisboa (BVL) vivia anos de euforia.

Centenas de milhares de portugueses compraram acções pela primeira vez. Alguns tornaram-se investidores informados e de longo prazo. Muitos outros compraram por impulso, sem compreender o que era uma acção, sem diversificação, e com a ilusão de que «subiam sempre». Quando o mercado corrigiu, muitos venderam em pânico — cristalizando perdas — e juraram nunca mais investir em bolsa. O trauma das perdas criou uma geração de portugueses avessos ao mercado accionista — um efeito que dura até hoje.

A Maturação: 1997-2007

As privatizações continuaram sob governos socialistas (António Guterres, Durão Barroso, Santana Lopes, Sócrates) com fases adicionais de venda na EDP, PT, Galp, Brisa (auto-estradas) e outras. O processo tornou-se mais profissional e menos populista — os investidores eram cada vez mais institucionais (fundos de pensões, seguradoras) e menos «povo nas filas das agências».

As melhores privatizações criaram empresas genuinamente competitivas. A Jerónimo Martins (embora não tenha sido uma privatização — era já privada — beneficiou do ambiente) expandiu-se para a Polónia com a Biedronka e tornou-se a empresa portuguesa mais bem-sucedida internacionalmente. A Galp, apesar da volatilidade do sector energético, consolidou-se como empresa integrada de energia. A EDP expandiu-se para as renováveis e tornou-se uma das maiores produtoras de energia eólica do mundo.

A Troika e as Privatizações Forçadas: 2011-2013

O programa de resgate da Troika (2011-2014) impôs novas privatizações como condição para o empréstimo. Foram privatizações por necessidade, não por convicção — vendas forçadas num momento de fraqueza extrema do país. Os críticos argumentaram (com alguma razão) que vender activos estratégicos no fundo de uma crise é como vender a casa quando o mercado imobiliário está no mínimo.

EDP: venda de 21,35% à China Three Gorges por 2,7 mil milhões. Criticada por vender a preço baixo a uma empresa estatal chinesa — mas a Three Gorges comprometeu-se a manter e expandir investimento em Portugal.

REN (Redes Energéticas Nacionais): venda ao consórcio State Grid of China + Oman Oil.

ANA (Aeroportos): venda ao grupo francês Vinci por 3,1 mil milhões. Revelou-se um bom negócio para a Vinci (o tráfego aéreo em Portugal explodiu com o turismo).

CTT (Correios): a última grande privatização, já em 2013-2014. Controversa porque a empresa tinha um serviço público essencial e a privatização foi acompanhada de degradação do serviço postal.

O Balanço: Vencedores e Perdedores

Vencedores de longo prazo: quem comprou EDP, Galp ou Jerónimo Martins nas fases iniciais e manteve durante duas décadas, com dividendos reinvestidos, obteve retornos sólidos que bateram a inflação por larga margem. São os exemplos do capitalismo popular que funcionou — mas exigiu paciência, diversificação e convicção durante múltiplas crises.

Perdedores: quem concentrou em Portugal Telecom (destruída pela fusão com a Oi), quem confiou no BES (colapsado em 2014), quem comprou no pico da euforia e vendeu no pânico das correcções. São os exemplos do capitalismo popular que falhou — frequentemente por falta de informação, diversificação insuficiente e governança corporativa deficiente.

Lições das Privatizações para o Investidor

O entusiasmo popular é um sinal de risco, não de oportunidade — quando há filas nas agências para comprar acções, o preço já reflecte (ou excede) o valor. As melhores compras fazem-se quando ninguém quer comprar — não quando toda a gente quer.

A governança corporativa é tão importante como os números — muitas empresas privatizadas mantiveram culturas de gestão «à portuguesa»: nomeações por relações pessoais, conflitos de interesse não declarados, conselhos de administração complacentes. A PT/Oi é o exemplo mais doloroso. Quando avalia uma empresa portuguesa, avalie quem a gere e para quem trabalham realmente.

O home bias é o maior risco dos investidores portugueses — a tendência de investir apenas em empresas nacionais (porque as conhecemos, porque são familiares, porque a agência do banco as recomenda) concentra todo o risco num mercado pequeno e pouco diversificado. O PSI-20 tem menos de 20 empresas com liquidez real. O MSCI World tem 1.500. A diversificação global via ETFs é a solução — e era impossível nos anos 90 mas é trivial hoje.

O timing forçado produz maus resultados — as privatizações da troika (2011-2013), feitas sob pressão e em condições de mercado adversas, obtiveram preços inferiores ao que teriam obtido em condições normais. A lição é universal: vender por necessidade (stop-loss atingido é diferente de vender em pânico) raramente produz bons resultados. Mantenha sempre liquidez suficiente para não ser forçado a vender no pior momento.