O Sistema

O dólar era convertível em ouro a 35 dólares por onça. Todas as outras moedas eram fixas em relação ao dólar. O FMI emprestava a países com problemas de balança de pagamentos. O Banco Mundial financiava reconstrução e desenvolvimento. O objectivo: estabilidade cambial, comércio livre e crescimento económico.

O Declínio

O sistema funcionou bem nos anos 50 e 60 — a «era dourada» do capitalismo ocidental. Mas dependia da disciplina fiscal americana. Quando os EUA começaram a imprimir mais dólares do que o ouro suportava, a confiança ruiu. O fim do padrão-ouro em 1971 foi o fim formal de Bretton Woods.

A Conferência de 1944: O Novo Mundo Financeiro

Em Julho de 1944, com a Segunda Guerra Mundial ainda a decorrer, 730 delegados de 44 países reuniram-se no Mount Washington Hotel em Bretton Woods, New Hampshire. O objectivo: criar a arquitectura financeira do mundo pós-guerra para evitar a repetição do caos monetário e das guerras comerciais dos anos 30 que tinham contribuído para a guerra.

Duas visões competiram: a de John Maynard Keynes (Reino Unido), que propunha uma moeda internacional (o «bancor») e uma câmara de compensação multilateral, e a de Harry Dexter White (EUA), que propunha um sistema centrado no dólar americano com taxas de câmbio fixas. White venceu — porque os EUA tinham o dinheiro, o ouro e o poder militar. A geopolítica moldou a economia.

O Sistema: Dólar como Âncora

O sistema de Bretton Woods estabeleceu: (1) o dólar americano convertível em ouro a uma taxa fixa de $35 por onça — tornando o dólar «tão bom como ouro», (2) todas as outras moedas fixas ao dólar (com bandas de flutuação de ±1%), (3) o FMI (Fundo Monetário Internacional) para fornecer empréstimos de curto prazo a países com problemas de balança de pagamentos, (4) o Banco Mundial (IBRD) para financiar a reconstrução e o desenvolvimento.

O sistema funcionou extraordinariamente bem durante as duas primeiras décadas: estabilidade monetária, crescimento económico sem precedentes (os «trinta gloriosos» de 1945-1975), expansão do comércio internacional e reconstrução da Europa e do Japão. Foi a era dourada do capitalismo ocidental.

O Colapso: Nixon Fecha a Janela do Ouro

O sistema tinha uma contradição fundamental (o «dilema de Triffin»): para fornecer liquidez global suficiente, os EUA tinham de ter défices comerciais (exportar dólares para o mundo). Mas défices persistentes minavam a confiança na convertibilidade do dólar em ouro (dólares em circulação cresciam mais rápido do que as reservas de ouro americanas). O sistema dependia de confiança — e a confiança dependia de disciplina que os EUA não conseguiam manter.

A 15 de Agosto de 1971, o presidente Richard Nixon anunciou unilateralmente que os EUA suspendiam a convertibilidade do dólar em ouro — o chamado «Nixon Shock». Foi o fim de Bretton Woods e o início da era de câmbios flutuantes e moedas fiduciárias puras em que vivemos hoje. O dólar deixou de ser «tão bom como ouro» — mas manteve-se, por inércia e por falta de alternativa, como moeda de reserva mundial.

O Legado para o Investidor

Bretton Woods criou as instituições que ainda governam as finanças internacionais: o FMI (que resgatou Portugal em 2011, a Grécia em 2010, e dezenas de outros países), o Banco Mundial e o sistema de câmbios que — mesmo após o fim do padrão-ouro — mantém o dólar como moeda dominante do comércio e das reservas globais.

Para o investidor, a lição é sobre a importância do sistema monetário como contexto de investimento. Num mundo de moedas fiduciárias sem lastro, os governos podem (e fazem) imprimir dinheiro para financiar défices, resgatar bancos e estimular economias. Isto cria inflação de longo prazo que erode o poder de compra do cash. É a razão fundamental pela qual investir (em acções, imobiliário, ouro — activos reais) é mais seguro a longo prazo do que poupar em depósitos: os activos reais acompanham a inflação; o cash perde valor todos os anos. Dalio chama-lhe «cash is trash» — e o fim de Bretton Woods é a razão pela qual tem razão.

O Legado

O FMI e o Banco Mundial sobreviveram — e continuam a ser actores centrais nas crises de dívida soberana (como a troika em Portugal). O dólar manteve-se como moeda de reserva mundial — não por acordo formal mas por falta de alternativa credível. E o debate sobre como organizar o sistema monetário global continua aberto, 80 anos depois de Bretton Woods.