O Sistema que Nixon Destruiu

Desde 1944, o sistema monetário internacional funcionava com uma âncora simples: o dólar americano era convertível em ouro a uma taxa fixa de 35 dólares por onça, e todas as outras moedas tinham uma taxa de câmbio fixa em relação ao dólar. Os países acumulavam reservas em dólares sabendo que podiam, a qualquer momento, trocar esses dólares por ouro junto da Reserva Federal americana.

O sistema funcionava enquanto os EUA mantivessem disciplina fiscal e monetária — ou seja, enquanto não imprimissem mais dólares do que o ouro que tinham em Fort Knox podia suportar. Durante os anos 50 e início dos 60, o sistema funcionou razoavelmente bem. Mas dois factores começaram a miná-lo: a Guerra do Vietname e os programas sociais da «Great Society» de Lyndon Johnson.

A Armadilha de Triffin

O economista belga Robert Triffin identificou o paradoxo fundamental do sistema em 1960: para fornecer liquidez ao comércio mundial, os EUA tinham de exportar dólares (através de défices da balança de pagamentos). Mas quanto mais dólares exportavam, menos credível se tornava a promessa de conversão em ouro. A quantidade de dólares em circulação crescia muito mais depressa do que as reservas de ouro americanas. Era matematicamente insustentável.

Nos anos 60, os países europeus — particularmente a França de Charles de Gaulle — começaram a converter os seus dólares em ouro, percebendo que os EUA estavam a imprimir dinheiro para financiar gastos que não podiam suportar. As reservas de ouro americanas caíram de 20 mil toneladas em 1950 para menos de 9 mil toneladas em 1971. O relógio estava a contar.

O «Nixon Shock»

Em Agosto de 1971, a situação tornou-se insustentável. A Grã-Bretanha pediu a conversão de 3 mil milhões de dólares em ouro. Se os EUA atendessem, outros países seguiriam. Se todos os detentores de dólares pedissem conversão simultaneamente, os EUA ficariam sem ouro.

Nixon reuniu os seus principais conselheiros em Camp David durante um fim-de-semana — incluindo o secretário do Tesouro John Connally e o conselheiro económico Paul Volcker. A decisão foi tomada em segredo e anunciada na noite de domingo, 15 de Agosto, antes da abertura dos mercados asiáticos na segunda-feira.

Nixon «fechou a janela do ouro» — os EUA deixavam de converter dólares em ouro. Para sempre. Simultaneamente, impôs um congelamento de preços e salários de 90 dias e uma sobretaxa de 10% sobre importações. O pacote foi apresentado como temporário. A suspensão da conversibilidade tornou-se permanente.

O Caos Imediato

A reacção dos mercados foi violenta. O dólar perdeu valor contra todas as principais moedas. O ouro, que tinha estado fixo a 35 dólares durante décadas, começou a subir — para 44, depois para 120, depois para 195 dólares nos anos seguintes. Em 1980, atingiu 850 dólares por onça — uma subida de 2.300% em menos de uma década.

As moedas flutuaram livremente pela primeira vez desde a Segunda Guerra Mundial. O marco alemão subiu. O iene japonês subiu. A libra britânica oscilou. Os especuladores de câmbio ganharam fortunas. O mercado cambial (Forex) — hoje o maior mercado financeiro do mundo com volumes diários superiores a 6 biliões de dólares — nasceu desta decisão.

A Década da Inflação

Sem a âncora do ouro, os governos ficaram livres para imprimir dinheiro sem restrições físicas. E fizeram-no. A inflação, que tinha sido contida nos anos 50 e 60, explodiu nos anos 70. Nos EUA, a inflação atingiu 12-14% em 1974 e novamente em 1979-80. Em Portugal, a inflação ultrapassou 30% em 1977. O poder de compra dos cidadãos foi devastado.

Os choques petrolíferos de 1973 e 1979 agravaram a situação, mas a causa fundamental era monetária: sem disciplina imposta pelo padrão-ouro, os bancos centrais imprimiram dinheiro para financiar défices governamentais. Foi necessária a intervenção brutal de Paul Volcker na Reserva Federal — que subiu as taxas de juro para quase 20% em 1981 — para finalmente domar a inflação.

O Nascimento da Era Fiat

Desde 1971, todas as moedas do mundo são «fiat» — dinheiro sem lastro físico, cujo valor depende exclusivamente da confiança no governo emissor. O dólar continua a ser a moeda de reserva mundial, mas o seu valor já não está ligado a nenhum activo tangível. Um dólar vale o que vale porque o governo americano diz que vale — e porque o resto do mundo, por enquanto, aceita essa afirmação.

Os números são reveladores: um dólar de 1971 vale hoje menos de 15 cêntimos em poder de compra real. O ouro, que estava fixo a 35 dólares por onça, negoceia acima dos 2.000 dólares. Não é o ouro que ficou mais valioso — é o dólar que perdeu valor. A mesma erosão afecta todas as moedas fiat: o escudo português, a libra britânica, o marco alemão (antes do euro), o franco francês — todas perderam a esmagadora maioria do seu poder de compra desde 1971.

Esta mudança teve consequências profundas para os investidores. Antes de 1971, poupar dinheiro era relativamente seguro — o valor do dólar era estável porque estava ligado ao ouro. Depois de 1971, poupar dinheiro tornou-se sinónimo de perder poder de compra. A inflação, alimentada pela expansão monetária sem limites, corrói sistematicamente o valor do dinheiro guardado debaixo do colchão — ou mesmo numa conta bancária com juros. Se os juros do depósito são 2% e a inflação é 5%, o depositante perde 3% ao ano em termos reais.

É por isso que investir deixou de ser um luxo e passou a ser uma necessidade. Na era fiat, quem não investe perde dinheiro em termos reais — com certeza matemática. O ouro, as acções, o imobiliário — todos estes activos são, em parte, refúgios contra a desvalorização permanente da moeda fiduciária. Não são perfeitos, mas são melhores do que dinheiro parado.

Lições para o Investidor

O fim do padrão-ouro ensina que o sistema monetário não é imutável — pode mudar de forma radical e imprevisível. Ensina que os governos, quando confrontados com a escolha entre austeridade e impressão de dinheiro, escolhem quase sempre imprimir. E ensina que cada preço de cada activo desde 1971 deve ser lido à luz de uma expansão monetária sem precedentes na história. Quando o ouro sobe, quando as acções batem recordes, quando o imobiliário parece impossível de pagar — é legítimo perguntar: estão os activos a subir, ou é o dinheiro a perder valor? Frequentemente, a resposta é ambos.