Como sabem um dos grandes problemas dos Estados Unidos é o elevado défice corrente, 5,2% do PIB no final do ano passado, associado a um elevado endividamento das empresas e particulares.

Segundo um estudo realizado pela Reserva Federal há três anos, o ajustamento do défice em países industrializados faz parte do ciclo normal da economia e por isso se aplicarmos as conclusões da investigação ao caso dos Estados Unidos, o ajustamento estará provavelmente já a decorrer e o crescimento voltará ao normal daqui a quatro ou cinco anos.

Os desequilíbrios na conta corrente são normalmente consequência de um crescimento da procura doméstica acima do aceitável, e no processo de ajustamento a procura diminui e o défice melhora substancialmente, permitindo regressar a um padrão de crescimento positivo e equilibrado.

Ora, de acordo com o estudo, o processo de ajustamento inicia-se normalmente quando o défice atinge os 5% do PIB e dura entre três a quatro anos. As principais conclusões apontam para uma diminuição do crescimento, depreciação da moeda, diminuição do investimento e poupança, e melhoria da balança comercial.

Segundo diferentes estudos efectuados por diversos economistas os ajustamentos diferem consoante se trate de um país de elevado rendimento ou de menor riqueza, se em vias de desenvolvimento ou industrializado. No caso dos Estados Unidos, os resultados a adoptar são as de um país rico e industrializado.

Vamos por tópicos...

Ao nível da moeda salienta-se o facto de haver normalmente uma depreciação entre 10 a 20% iniciando-se este processo um ano antes do início do ajustamento do défice. Em 1987 quando os Estados Unidos diminuíram o seu défice de 3,7% para 1,6% em três anos, assistiu-se a uma depreciação do dólar em 34%, um valor muito acima da média, iniciando-se esta tendência um ano antes do défice atingir o seu máximo e prolongando-se até dois anos na fase de ajustamento. Actualmente o dólar já perdeu cerca de 25% face ao euro, tendo a depreciação começado no início do ano passado.

O ajustamento está em alguns casos associado a crises mais fortes de depreciação da moeda (crise cambial), que acontecem já na fase de ajustamento e é também normalmente sinónimo de alguma inflação.

Em termos de criação de riqueza, o pico de crescimento é atingido normalmente dois anos antes de o défice atingir o seu máximo e o pico de menor crescimento atingido no primeiro ano de ajustamento continuando fraco durante dois a três anos, 1 a 2% abaixo da média, mas voltando ao normal quatro a cinco anos depois. Os Estados Unidos atingiram o seu crescimento máximo em 1999 e mínimo no ano 2001 e têm vindo a crescer nos últimos dois anos abaixo do seu potencial.

Ao nível das taxas de juro, normalmente existe uma subida das mesmas em 2 pontos percentuais após três anos de deterioração do défice, muitas vezes consequência de políticas de suporte da moeda que inicia a sua desvalorização antes do ajustamento. Com a diminuição do défice as taxas de juro voltam a descer em média 3 pontos percentuais. Ora, nos Estados Unidos as taxas de juro foram cortadas de 6,5% para 1,25% nos últimos três anos.

Relativamente ao défice orçamental, não existe uma ligação comprovada com o défice corrente, apesar de que pode por vezes haja deterioração da conta corrente dado que o défice orçamental tem efeito na procura devido ao aumento dos gastos orçamentais. A diminuição do crescimento tem por vezes consequências negativas no rácio défice orçamental/PIB, no entanto, existe alguma evidência de que com a recuperação existe alguma consolidação fiscal. Nos Estados Unidos a situação orçamental degradou-se muito nos últimos três anos, passando-se de um excedente de 2,3% do PIB no início do ano 2000 para um défice de 2,3% no final do ano passado.

Um dos grandes contribuidores para o défice corrente é a balança comercial, que normalmente se deteriora 1 a 2% do PIB nos três anos antes do processo de ajustamento atingindo um valor negativo de 2% do PIB quando o défice atinge o seu máximo. Com a diminuição do défice corrente a balança comercial melhora em média 4% do PIB. A melhoria da balança comercial deve-se em grande parte à depreciação da moeda, influenciando primeiramente uma diminuição das importações e posteriormente, e com muito maior importância, um aumento das exportações. A balança comercial dos Estados Unidos tem-se vindo a deteriorar drasticamente nos últimos anos, passando de um valor negativo de 73 para 132 mil milhões de dólares do primeiro trimestre de 1999 para o último trimestre do ano passado.

Como já foi descrito o défice corrente é consequência de uma aumento desequilibrado da procura doméstica, deste modo, o rácio poupança/PIB diminui em média 2 pontos percentuais nos três anos antes do ajustamento enquanto que o investimento se mantém semelhante. Na fase de ajustamento acontece precisamente o contrário, o investimento diminui e a poupança mantém-se estável ou evolui positivamente. A taxa de poupança nos Estados Unidos tem vindo a aumentar subindo de apenas 0,3% em Outubro de 2001 para 4% no último ano, mas ainda assim contrastando com uma média de 9% no período 1970-94.

Mas se tivermos em conta a taxa de poupança líquida nacional, que combina os particulares, as empresas e o sector público, os Estados Unidos apresentam-se num nível recorde com uma taxa de poupança de apenas 1,3% no segundo semestre do ano passado, contra uma média 5% na década de 90.

Com os dados disponíveis sobre os Estados Unidos e os resultados do estudo da Reserva Federal, a probabilidade de estarmos a entrar numa fase de ajustamento cíclica e normal da economia é elevada, o dólar tem-se vindo a depreciar, a economia a crescer pouco, tendo já atravessado a sua pior fase, a poupança particular a aumentar e o défice orçamental a aumentar. Se o défice da balança comercial começar a diminuir, com a diminuição das importações e posteriormente, e mais importante, o aumento das exportações, tudo se parece encaminhar para a que economia norte-americana entre no trilho do crescimento económico.

Mas será o futuro assim tão previsível e linear? Penso que não, mas isso já é matéria para um novo artigo e para discutirmos no Fórum.

João Henriques
www.clubeinvest.com

Fonte: Current Account Adjustment in Industrialized Countries - Caroline L. Freund,
International Finance Discussion Papers, Number 692, December 2000