Na 6ª feira finalmente consegui definir uma estratégia nos mercados para a guerra, que assenta em duas premissas essenciais:

1) O sentimento de mercado está demasiado baixo. O mercado não deverá iniciar já uma grande tendência de queda, com o S&P a quebrar os 775 pontos. Senão, qualquer pessoa que estivésse vendida por causa das notícias da guerra, ganharia dinheiro pelos motivos errados. Isso não costuma acontecer nos mercados.

2) Existe a possibilidade de criar um cenário optimista em que muito público será novamente atraído para os mercados, a preços mais elevados: uma resolução rápida do conflito. Acredito neste cenário, e quando ele acontecer, o mercado estará pronto para, depois de receber os incautos bulls seguidores de notícias, iniciar as quedas até à casa dos 600 pontos no S&P (quando o público tem motivos, dados pelos media, para comprar, o mercado cai. Quando tem motivos para vender, o mercado sobe - isto porque o público desconhece os motivos relevantes para os movimentos do mercado, agindo sempre erradamente pelos motivos incorrectos. Depois do público comprar o mercado só pode cair porque não há mais ninguém para comprar a seguir e continuar a impulsionar os preços, quando o público vende em massa só pode subir a seguir).

Isto daria pano para mangas e consiste numa Teoria, a Teoria da Opinião Contrária que se baseia na análise do Sentimento de Mercado. Existem múltiplos indicadores para medir esse sentimento de mercado, assim que puder escreverei um artigo explicando esses indicadores.

De qualquer forma poderão ler aqui a hipótese que defendo para este tempo de guerra.

1. A sessão

A introdução desta Mensagem trata um pouco do médio prazo, agora vamos ver, mercado por mercado, o que aconteceu na 6ª feira e o que se espera sejam pontos de referência para a sessão de hoje.

1.1. DAX



Os futuros do DAX abriram em gap down, nos 2.419,5, quando o mínimo de 5ª feira tinha sido 2.433. Imediatamente começou o «gap trade», em que day traders começam a alongar na expectativa de que o mercado suba para fechar o gap (é raro os futuros do DAX deixarem gaps abertos), criando uma linha de procura.

Quando isto acontece, um gap down, quem está a comprar na expectativa de fecho do gap passará a vendedor quando o gap for fechado, o seu motivo para estar longo deixa de existir. Por isso, quando o mercado subiu após a abertura em baixa, fechando o gap nos 2.419,5 - 2.433, foi criada aí uma linha de oferta (em torno dos 2.433 - resistência de curto prazo) que levou o DAX a novos mínimos da sessão.

Mas o DAX exibia firmeza relativa face aos outros mercados europeus, e parecia encaixar bem as investidas dos bears nos futuros dos states. De tal forma que quando foi divulgado o relatório do emprego, que foi desastroso, o DAX não descambou para mínimos muito inferiores aos que já tinham ocorrido durante a sessão, e recuperou rapidamente.

Logo após a abertura dos EUA saiu a notícia de que teriam sido presos 2 filhos de Bin Laden, e o DAX disparou aos 2.465 pontos. Naturalmente recuou tudo o que tinha ganho nessa notícia, mas depois começou a criar uma base que teria pernas para fazer novo máximo da sessão. Voltou a descair no final da sessão, ao sabor das oscilações do S&P, para um fecho praticamente unchanged, ainda assim com uma branca nos futuros (doji no cash) e um volume apreciável de 101.638 contratos.

1.2. S&P 500



Esta foi uma sessão extremamente volátil no S&P, e mais do que isso, teve uma amplitude elevada de 18,32 pontos. Devido ao relatório do emprego de Fevereiro, em que se esperava a criação de 20.000 empregos e afinal foram destruídos 308.000 empregos na economia, o S&P abriu a quebrar o seu suporte de curto prazo, que estava nos 819 pontos.

Mas ele não tem conseguido manter grandes variações logo na abertura, e iniciou uma recuperação, que foi catapultada pela referida notícia da captura dos 2 filhos de Bin Laden («2 down, 26 to go», disse o Art Cashin do floor da NYSE), atingindo a zona de resistência dos 826-830 pontos. Vacilou nessa linha de oferta, novamente até à zona dos 819 pontos (que continuava a ser suporte, pelos vistos), onde estava uma linha de procura que sustentou o S&P e motivou compradores para um fecho perto dos máximos da sessão, nos 828,89 pontos, ainda assim sem ultrapassar a zona de resistência dos 830 pontos.

2. Amanhã

2.1. DAX




Hoje não se esperam notícias que consigam movimentar os mercados no intraday, pelo menos não está agendada a divulgação de relatórios económicos relevantes. O DAX fechou com um doji no cash (padrão de candlesticks revelador de indecisão dos traders) e com uma pequena branca, com grandes sombras, nos futuros. Mas vamos aos pontos de referência ...

Resistências:

1) O midpoint da negra anterior ao doji, nos 2.484 dos futuros, continua a ser resistência. O sinal bearish dado por esse marubozu negro apenas será anulado com um fecho acima dos 2.484 pontos.

2) 2.519 no cash, 2.523 nos futuros. Continua a insistir e a ter relevância como zona de suporte/resistência - neste caso é resistência, uma vez que o preço está abaixo desse nível, o mínimo de 2002.

3) Zona de tripla resistência (3 LT´s descendentes), nos 2.616 - 2.676 pontos.

Suportes:

1) Sendo uma branca, a abertura e o fecho do dia anterior poderão servir de suporte - enquanto o DAX transaccionar acima da sombra inferior da vela anterior, estará bullish segundo os candlesticks. Portanto, os valores 2.440 e 2.419,5 são zonas de suporte nos futuros. Caso o mercado se movimente durante algum tempo (mais de 1/2 hora) abaixo dos 2.419,5 fica com indicações bastante bearish, quebra os dois suportes dados pelos candlesticks para a sessão de hoje.

2) Parece que os 2.400 tiveram alguma relevância na sessão de 6ª feira, mas ainda é cedo para falarmos num suporte psicológico nessa zona. De qualquer modo, fica a referência.

3) Os 2.254 - 2.304, que é o target dado pela ruptura em baixa dos 2.519 pontos.

2.2. S&P 500



Há que considerar que o S&P recuperou de uma quebra de um suporte de curto prazo, para um fecho em alta, depois de péssimas notícias ao nível do emprego (de qualquer forma, em termos históricos desemprego alto é bull de longo prazo para os mercados - a taxa de desemprego é um lagging indicator).

Resistências:

1) Toda a zona dos 826-830 é uma zona de resistência. Um fecho acima deste nível seria bullish de curto prazo.

2) Quebrando em alta os 830, a próxima resistência relevante estará nos 852,5 pontos.

3) 865 pontos no S&P, dados pela MM 50 dias, a vermelho no gráfico com inclinação negativa.

Suportes:

1) 819-820 pontos mantém-se firmes como suporte, apesar da quebra ao nível do intraday, o que interessa é o fecho.

2) Zona dos 806-811 pontos. São os mínimos de 2003. Abaixo disso teríamos apenas os 775 pontos.

2.3. Nasdaq Composite



Esta vela do Nasdaq é estranhíssima, uma branca extremamente longa, todo o dia a recuperar de uma abertura em forte baixa (motivada pela Intel e pelos números do emprego), para um fecho praticamente unchanged. Esta vela é demonstrativa de que existem indicações muito difusas, e o substracto deste mercado no curto prazo está com pendor ligeiramente bullish, por causa do que referi na introdução desta mensagem.

Pontos de referência do Nasdaq composite:

Resistências:

1) Zona 1.306-1.310. Estou bastante indeciso em relação a esta vela do Nasdaq - um fecho acima dos 1.306-1.310 acabaria com as indecisões, e consideraria esta branca comprida como uma vela de inversão de tendência de curto prazo. Por outro lado, o facto dela acontecer na cara de más notícias (o mercado parece começar a procupar-se exclusivamente com notícias sobre a guerra) é uma indicação bullish.


2) 1.332. É uma resistência fraca de curto prazo.

3) 1.347 - 1.353 foram a zona dos últimos máximos relativos.

Suportes:

1) Devido à branca nos candlesticks, é possível que a uma abertura em baixa se siga uma recuperação.

2) Também é possível que se forme uma base junto aos mínimos de 6ª, no suporte junto aos 1.281 pontos.

3) 1.262 pontos, que foi o mínimo de 2003.

O Nasdaq continua com firmeza relativa face aos outros índices americanos em 2003. Entendo essa firmeza como fazendo parte do «war trade», pois segundo o VXN (índice de volatilidade do Nasdaq) o Nasdaq está pronto para quedas muito severas no médio prazo. Julgo que quando a guerra acabar (esta guerra pode demorar apenas alguns dias, julgo que acontecerá assim), finalmente o público entrará a comprar lá pelos seus motivos errados (a guerra ou não guerra nunca foi um motivo relevante - é irrelevante em termos de longo prazo nos mercados ! Praticamente não influencia os grandes ciclos económicos da Economia - e são esses que determinam a tendência de longo prazo - por isso, estar bear por quaisquer motivos ligados com as tensões geopolíticas é um erro que deverá ser pago (como foi pago o erro de vender ou shortar por causa do atentado do 11 de Setembro).

Entramos agora, mais do que no passado, num tempo de guerra. Não será fácil transaccionar nesta altura, que será bastante influenciada por notícias. Julgo que os position traders que deverão estar short deveriam encerrar as suas posições, para as voltar a abrir quando a guerra for resolvida e o público ficar longo, colocando os rácios de sentimento cheios de bulls (são indicadores de opinião contrária), e aí iniciarmos a grande viagem, pelos motivos certos e com o público no barco a remar ao contrário, até que as valorizações se tornem minimamente atractivas e o FED seja forçado a intervir, com o S&P na casa dos 600 pontos ... mas, cada dia é um dia, e cada dia nos mercados tem uma Mensagem da 1/2 Noite. A de hoje terminou, até à próxima :-)

Um bom dia !
César Borja