Apenas uma coisa é certa, o aumento do preço do petróleo tem consequências no crescimento económico e na inflação, diminuindo o primeiro e aumentando a segunda, mas as consequências podem ser mais ou menos gravosas consoante inúmeros factores. Os economistas têm estudado aprofundadamente a relação entre o aumento do preço do petróleo, o crescimento económico, a inflação e as medidas tomadas para contrariar os efeitos do aumento do preço na economia. Mas como as diferentes variáveis diferem de situação para situação torna-se difícil encontrar a fórmula certa que nos dê um resultado final entre a evolução das mesmas.



Como se pode verificar pelo gráfico abaixo, desde o fim da Segunda Guerra Mundial, nove das dez recessões na economia norte-americana foram precedidas por aumentos do preço do petróleo. Mas como também se pode verificar, nem todas as subidas do preço foram sinónimo de recessão.



Um estudo elaborado pela IEA (International Agency Department), a OCDE e o FMI, em Maio deste ano, indicava que um aumento de 10 dólares nos preços do petróleo, de 25 para 35 dólares, (preços já há muitos meses ultrapassados), teria uma influência negativa de 0,4% no PIB dos países pertencentes à OCDE, um aumento da inflação em 0,5 pontos percentuais e um aumento do desemprego. As últimas análises divulgadas por bancos centrais e instituições financeiras de renome também apontam para consequências semelhantes.

Apesar da última recessão norte-americana ter sido precedida por um aumento do preço do petróleo, de há vinte anos para cá a evolução do seu preço parece ter menos efeitos na economia do que no passado.

As razões para que tal esteja a acontecer são essencialmente duas, menor consumo de energia relativamente à riqueza criada e efeito aprendizagem dos choques passados, com melhores políticas de estabilização da economia.

Primeiro, o peso do consumo de energia na riqueza criada tem diminuído ao longo dos anos, devido por um lado, ao aumento da importância dos serviços na economia, por diminuição do peso da produção de bens, e por outro, a um aumento da eficiência energética.

Como se pode verificar pelo gráfico abaixo, relativo à economia norte-americana, durante a década de sessenta os serviços passaram a ter um maior peso na economia do que os bens. A evolução manteve-se ao longo dos anos e actualmente os serviços têm um peso de praticamente 60% enquanto que os bens apenas de perto de 30%.



Este facto conjugado com um aumento da eficiência energética, melhor utilização dos recursos disponíveis, levou a que houvesse uma diminuição do consumo de energia, em Btu (British Termal Unit), por cada dólar do Produto Interno Bruto (PIB). E assim, se nos anos setenta utilizava-se 17 Btu por cada dólar produzido, actualmente utiliza-se apenas 10. O peso do petróleo e gás natural passou de 13 para 6. Isto quer dizer que houve um diminuição muito forte, mais de metade, do peso da utilização de energia na criação de riqueza.



Além disso, e apesar de uma maior dependência dos países desenvolvidos nas importações de petróleo, os países da OCDE viram o peso em valor dessas importações diminuírem relativamente ao PIB, de 6,5% em 1979 para 2% em 2003.

Relativamente a políticas de estabilização da economia, as atenções têm-se virado em força para a resposta da política monetária e fiscal aos aumentos do preço do petróleo. Ambas as políticas são determinantes porque, se se optar por uma política restritiva, com o objectivo de controlar a inflação, poder-se-á atingir com maior dureza o crescimento económico no curto prazo, mas se se optar por uma política expansionista, poderão ocorrer a médio prazo efeitos negativos do aumento da inflação no crescimento económico.

Os bancos centrais procuram actualmente ter uma política monetária neutra, que não agrave nem diminua os efeitos de um choque petrolífero. Esta política é conseguida quando o PIB nominal, isto é, o crescimento económico sem considerar a inflação é mantido constante durante o periodo do choque. Mas é muito complicado atingir tal objectivo, não só porque o PIB não é conhecido em tempo real, como também os primeiros números conhecidos são normalmente revistos e por vezes os números finais são completamente dispares.

A tarefa dos bancos centrais e dos governos fica assim muito complicada quando o preço do petróleo começa a aumentar.

A análise da subida do preço do petróleo precisa também de ter em conta três pontos. Qual a percentagem da subida, a que velocidade e a diferença, em tempo e preço, face ao último máximo relativo. A tabela abaixo indica sumariamente o cenário dos últimos choques petrolíferos.



Enquanto que nos primeiros quatro periodos apresentados na tabela a economia entrou sempre em recessão, a subida do preço em 94% entre Janeiro de 2002 e Março de 2003, não levou a mais do que um abrandamento da economia dos Estados Unidos, com mínimo no quarto trimestre de 2002, onde apenas cresceu 0,7%. No aumento do preço de 2002/03, o efeito China, a pressão desinflacionista que a economia norte-americana estava a viver e o mesmo nível de preço atingido, face ao anterior máximo relativo, terão sido determinantes na limitação de maiores consequências económicas.

Desde que a China entrou na Organização Mundial do Comércio (OMC), em Novembro de 2001, o seu papel na economia mundial teve um aumento exponencial. O comércio entre a China e os Estados Unidos cresceu fortemente, mas tem sido mais favorável para os chineses que conseguem exportar mais do que os americanos. Por isso, os Estados Unidos têm actualmente um défice comercial com a China que é maior do que o défice comercial total norte-americano há seis anos atrás.



A China com os seus baixos preços de produção actuou como deflacionista na economia norte-americana e mundial, o que adicionado à baixa taxa de capacidade produtiva utilizada pelas empresas norte-americanas na altura, levou a que os efeitos inflacionistas não fossem tão salientes e permitiu que as políticas monetária e fiscal se pudessem manter expansionistas, taxas de juro reais negativas e redução de impostos, impulsionando a economia.

Além disso, o preço máximo atingido em Março 03 foi de 37,8 dólares, valor semelhante ao atingido 2,5 anos antes, no máximo de 2000.

Actualmente a situação é diferente, denota-se maior efeito nos preços, mas o cenário também não é dramático como o vivido em periodos anteriores.

Consequência de dois anos de política monetária e fiscal muito expansionista e início de um novo ciclo de crescimento, a economia norte-americana está mais susceptível relativamente à inflação, isto é, existe uma maior propensão para a geração de preços elevados.

Deste modo, a inflação disparou de 1,9% em 2003 para uma taxa anual de 4,1% este ano, devido essencialmente ao índice de energia, que subiu 25,9%. Excluindo este índice e também os preços voláteis da comida, os preços estão a subir 2,4% este ano, comparativamente a 1,1% em 2003.

Mas a economia norte-americana continua a sentir um défice na utilização da capacidade produtiva, isto é, as empresas utilizam apenas 77% das suas máquinas face a uma média de 81% entre 1972 e 2003. Este factor adicionado ao contínuo forte crescimento da produtividade, que permite os custos do trabalho não crescerem, e também ao elevado endividamento, tem sido determinante na cuidada condução da política monetária pela Reserva Federal, subindo as taxas de juro em pequenos passos e controlando as expectativas dos investidores. O Fed tem comunicado persistentemente que a subida da inflação deve-se a factores temporários dando a entender que a curto prazo a inflação diminuirá.

Além do mais, o preço do petróleo subiu 80% em 11 meses e o seu máximo é apenas 30% acima do máximo atingido em Março do ano passado, enquanto que, por exemplo, nos anos 90, a subida foi de 135% em 3 meses e a diferença entre esse máximo e o anterior, apesar de ter sido poucos meses antes, foi de mais de 70%, e nos anos de 99 e 2000, o preço subiu 180% em 18 meses e o anterior máximo relativo tinha sido, por um lado, já em Janeiro de 1997, 3,5 anos antes, e por outro, o preço 50% abaixo.

Concluindo, o actual preço elevado do petróleo tem efeitos negativos na economia, mas espera-se que em menor grau do que no passado, porque o peso do petróleo na economia é menor. Além disso, espera-se que hoje, os bancos centrais e governos estejam melhor preparados para enfrentar esta contrariedade. O cenário económico nos anos 70 era muito diferente do vivido actualmente e no início dos anos 80 o Fed adoptou uma política drástica de controlo da inflação e os fed funds chegaram a atingir os 19%. Ler A Grande Inflação dos anos 70

Adicionalmente, não se pode considerar o recente aumento do preço um choque petrolífero, porque o que se constata é sim uma tendência de longo prazo para se atingir novos máximos do preço, justificado pelas razões descritas no artigo As razões por detrás da subida do preço do petróleo. Num espaço de quatro anos o preço atingiu por três vezes novos máximos relativos.

A economia tem de encontrar formas de se ajustar às novas circunstâncias, ainda hoje o Director-Geral do FMI advertiu que a crise energética está para durar.

-> Veja também o Tópico do Petróleo em Acompanhamento no Fórum.

Cumprimentos,
João Henriques
www.clubeinvest.com