Se olharmos para um gráfico histórico do preço do petróleo facilmente reparamos que os máximos históricos foram sempre atingidos quando houve cortes do lado da oferta. Assim foi nos anos setenta, quando houve um embargo ao Ocidente por parte dos países árabes, e nos anos noventa, em consequência da invasão do Kuwait e posterior Guerra do Golfo.



O ano passado, a invasão do Iraque justificou novamente um súbito aumento dos preços e adicionalmente a desvalorização do dólar comprometeu as margens dos vendedores, obrigando-os a aumentar preços, porque quando trocavam as suas vendas em dólares pelas suas moedas locais as receitas eram menores.



Mas nos últimos meses o dólar estabilizou, a OPEC aumentou a produção, e apesar disso o preço do petróleo continuou a subir. A grande diferença no mercado petrolífero é que actualmente apesar da oferta estar na sua máxima força ou muito perto disso, o crescimento da procura levou a um aumento dos preços. Os vendedores exigem um preço mais alto pela sua mercadoria e como existem mais compradores ou querem comprar em maior quantidade, estes são obrigados a aceitar esse preço.


Se por um lado, o aumento geral do preço das matérias primas é também consequência de políticas monetárias nos últimos anos fortemente expansionistas, por outro, o sector energético está a viver uma alteração de fundo, estrutural, que é preciso compreender, por nós consumidores, que somos afectados no dia-a-dia, e acima de tudo pelos Estados, pelos Governos, que terão de redefinir as suas políticas de energia nos próximos anos.

A subida dos preços do petróleo não é surpresa para os mais atentos que desde há alguns anos a esta parte previam que viesse a ocorrer. No século que estamos a iniciar as políticas de energia serão sem dúvida uma questão central, os recursos energéticos, nomeadamente o petróleo, base do crescimento económico do século passado são finitos e estão a entrar numa clara fase em que é preciso actuar com urgência para que o mundo possa viver em equilíbrio e sustentar níveis de crescimento económico satisfatórios.

Como se pode verificar pelo gráfico abaixo o aumento da procura de petróleo a nível mundial cresceu até meados deste ano 3% face ao ano anterior, em sintonia com o crescimento registado em 1996 e até mais abaixo do que o registado em 1986.




Mas então fica a pergunta: se o crescimento até está dentro dos parâmetros normais, porque razão os preços estão a subir tanto? Pela simples razão de que em valores absolutos, a quantidade de petróleo exigida a nível mundial é actualmente muito mais elevada do que há dez ou vinte anos atrás, como se pode pelo seguinte gráfico, e existe do lado da oferta problemas estruturais na sua distribuição.



Olhando para o mercado energético, com maior incidência no petróleo, encontramos quatro países pilares na concessão do mesmo, os dois maiores consumidores, Estados Unidos e China, e os dois maiores exportadores, Rússia e Arábia Saudita.

Os Estados Unidos são normalmente líderes em tudo e em termos de energia não escapam à regra, conseguindo ser os maiores produtores, os maiores consumidores e ainda os maiores importadores. Em termos de petróleo têm a 11ª maior reserva do mundo.

Com a entrada numa nova fase de crescimento económico e o contínuo crescimento da população, a procura de petróleo atingiu níveis recordes.



Mas nos últimos anos as suas reservas diminuíram, 20% desde 1990, e a produção interna tem decaído substancialmente, 25% nos últimos vinte anos, encontrando-se a níveis recordes de baixa. Esta situação mantém-os cada vez mais dependentes do fornecimento externo.



Os seus principais fornecedores são a Arábia Saudita, o Canadá e a Venezuela.

Em relação à China a matéria torna-se muito interessante, já que estamos a falar de um país com 1,2 mil milhões de pessoas, ou seja, 20% da população mundial e que se encontra numa fase muito forte de crescimento.

A entrada da China na Organização Mundial do Comércio em Novembro de 2001, implicou a liberalização de comércio e investimento, exclusão ou redução de tarifas nas importações de alguns produtos e abertura a competidores externos. As consequências foram um forte incremento do investimento estrangeiro, um elevado crescimento da produção industrial e um crescimento económico de 8% em 2002, 9,1% em 2003 e em 2004 deverá crescer cerca de 8,5%.

A China é o segundo maior consumidor de energia do mundo, mas 65% dos seus gastos energéticos baseiam-se em carvão, que é altamente poluidor (a China tem sete das dez cidades mais poluidoras do mundo) e deverá ser restringindo ao longo dos anos, compensando-se com um aumento do petróleo e do gás natural. O consumo de carvão na China foi 27% do consumo total mundial.

Em termos petrolíferos, é um importador líquido desde 1993, vindo metade das importações da Arábia, e ultrapassou pela primeira vez em 2003 o Japão, como segundo maior consumidor do mundo, com 5,5 milhões de barris por dia. Valores ainda muito abaixo dos registados pelos líderes norte-americanos, 20 milhões.




O forte crescimento da China fez com que tivesse um peso de 40% no crescimento da procura de petróleo mundial nos últimos quatro anos, tendo havido uma preocupação dos chineses na diversificação das suas fontes petrolíferas, nomeadamente com o vizinho Kasaquistão e Rússia com quem existem discussões para um incremento das importações, construindo-se pipelines para o seu transporte.

A procura de petróleo na China estima-se que atinja os 13 milhões de barris por dia em 2025, com as importações a terem um peso de 73%.

Do lado da procura ainda de realçar um aumento do consumo também na Índia, o segundo país mais populoso do mundo, com mil milhões de habitantes, um aumento na Europa devido a uma nova fase de crescimento económico e o incremento no Japão, consequência da saída da crise que há tanto tempo afecta este país. Estes países e região todos muito dependentes do fornecimento externo de petróleo.

Do lado da oferta, encontramos a Rússia, que tem a oitava maior reserva de petróleo do mundo, mas é o segundo exportador, tem a maior reserva de gás natural, sendo também o maior exportador, e a segunda maior reserva de carvão, mas produz pouco. A crescer há cinco anos consecutivos, o país tem beneficiado em muito com as exportações de petróleo, e segundo o Banco Mundial o sector teve um peso de 25% no PIB em 2003, PIB esse que cresceu 7,3%.

Com 60 mil milhões de barris de reserva, a Rússia sofreu durante os anos 90 um periodo muito fraco de produção devido à desagregação da União Soviética (ver gráfico mais abaixo). Posteriormente à crise de 1998, o sector petrolífero sofreu uma reorganização, privatizaram-se empresas, apetrecharam-se com novas tecnologias, e aproveitando um rublo muito desvalorizado, veio-se gradualmente a aumentar os níveis de produção, 40% de crescimento entre 98 e 2003.

Actualmente tem um papel vital a nível mundial, a sua capacidade exportadora está a ser utilizada em toda a força e por exemplo a Europa depende em 30% do petróleo russo.

O presidente Vladimir Putin já afirmou que o petróleo é uma galinha dos ovos de ouro e por isso o Estado tem vindo a aumentar o seu peso no sector. Os pipelines, essenciais na exportação, estão nas mãos do Estado e têm vindo a ser desenvolvidos, a produção está nas mãos dos privados e três empresas dominam 50% da produção, Lukoil, Yukos e Surugutneftgaz, mas a Yukos tem estado sobre investigação das suas contas.




Em relação à Arábia Saudita, como se sabe tem a maior reserva mundial de petróleo, cerca de 1/5 mundial. As exportações representam 95% das suas exportações, 75% das receitas do Estado e 40% do PIB. Nas receitas da OPEP a Arábia Saudita tem um peso de 30% e as suas exportações para os Estados Unidos representam 18% das importações norte-americanas.

O país tem visto a sua população crescer fortemente e debate-se com um grave problema de desemprego, que chega a atingir os 20%. As receitas por habitante do petróleo têm vindo a diminuir nos últimos vinte anos, e de 22 mil dólares em 1980 passaram para 3 mil dólares em 2003. (valores ajustados à inflação)

A Arábia Saudita tem também graves problemas nas suas contas públicas e comerciais, mas como é detentora de 100 mil milhões de activos no estrangeiro e o petróleo continua a ser a base da economia mundial, as reformas estruturais no país não são feitas e as companhias petrolíferas continuam na mão do Estado.

O país tem capacidade de produzir 10,5 milhões de barris por dia e provavelmente actualmente está perto de atingir a sua capacidade máxima, há quem diga que tem sido produzido cerca de 9,1 milhões de barris por dia, apesar do acordo da OPEP prever apenas 8,2 milhões. Os governantes da Arábia Saudita notam, no entanto, que o país pode produzir até 15 milhões com algum investimento.

Mais de metade das suas reservas estão concentradas em oito poços, incluindo Ghamar, o maior poço do mundo, e Safanaya, o maior poço offshore. A taxa de esgotamento das suas reservas está em 28% mas no gigante poço de Ghamar já se atingiu os 48%. Existe alguma controvérsia relativamente à sua capacidade de produção e debilitamento das suas reservas e verdadeiras reservas existentes, há analistas que apontam para uma menor existência de petróleo do que os dados fornecidos pelo governo saudita.

Feita a pequena apresentação dos quatro mais importantes países no mercado petrolífero, apercebemo-nos logo que existem dois países com grandes necessidades de petróleo para o seu desenvolvimento que estão em grande parte dependentes de fornecimentos externos, e os dois maiores produtores são países instáveis económica e politicamente.

A acrescentar a isto entramos agora na verdadeira razão do aumento do preço do petróleo, e que se baseia na cada vez maior dependência do Ocidente sobre os países Árabes.

O último estudo da BP indica que o rácio de reservas sobre produção é completamente desequilibrado a nível mundial, e assim, apesar das reservas mundiais servirem para 41 anos de produção, no Médio Oriente as reservas chegam para 88 anos mas na América do Norte esse rácio é apenas de 12,2 anos e na Europa e Eurásia apenas de 17,1 anos.




As zonas mais desenvolvidas do planeta são as que mais necessitam de petróleo mas são as que menos têm em sua posse.

Além disso, há também a considerar que, devido a razões técnicas e geológicas, um poço de petróleo tem a sua capacidade máxima de produção, quando se extrai cerca de metade do petróleo aí existente. Isto quer dizer que apesar de haver petróleo, passado o ponto médio de reservas extraídas, a produção vai diminuindo ao longo dos anos.

Segundo um estudo de 1996, o mundo já entrou há três anos na fase de diminuição da produção. Nesse estudo a data apontada era de 2001 e mesmo que existam algumas discrepâncias devido ao passar dos anos, relativamente às reservas existentes no mundo, o ponto médio não deve variar muito, até porque o ponto alto de exploração e descoberta de novos poços de petróleo foi há trinta anos atrás e desde aí não se tem feito grandes descobertas, explorando-se apenas com maior intensidade e melhor tecnologia o petróleo existente.

Mais uma vez este estudo demonstra a dependência do Ocidente face aos países Árabes. E assim enquanto que na Arábia Saudita, Iraque, Irão e Kuwait o ponto médio de esgotamento varia entre 20013 e 2017, nos Estados Unidos esse ponto alto de produção foi atingindo já em 1973, há mais de trinta anos atrás, e mesmo em países pertencentes da OPEP, como a Venezuela, a Algéria e a Nigéria o pico de produção deverá ter sido atingido no final do século passado.




Concluindo, podemos afirmar que a entrada no século XXI foi também o início de um periodo no qual a gestão da energia vai ter um papel crucial no desenvolvimento e equilíbrio mundial. O Ocidente vai cada vez mais depender da boa vontade de países terceiros, países esses que na sua grande maioria têm estado ao longo da história do lado oposto politicamente.

O aumento do preço do petróleo reflecte assim o receio dos investidores por esta cada vez maior dependência e também a necessidade de se fazer avultados investimentos para se aumentar a capacidade produtora e exportadora desses países de modo a que o petróleo chegue aos locais onde é mais necessário.