O Milagre Económico — 1950-1989

Quando o Japão se rendeu em Agosto de 1945, Tóquio era um campo de ruínas. Dois terços da cidade tinha sido destruída por bombardeamentos incendiários. A economia estava paralisada. A ocupação americana, liderada pelo General MacArthur, impôs reformas radicais: dissolução dos zaibatsu (conglomerados industriais militaristas), reforma agrária, nova constituição democrática e, crucialmente, abertura ao comércio internacional. A Bolsa de Tóquio reabriu a 16 de Maio de 1949, sob um novo enquadramento regulatório inspirado no modelo americano.

O que se seguiu foi um dos milagres económicos mais extraordinários da história. O PIB japonês cresceu a uma média de 10% ao ano durante as décadas de 1950 e 1960. A Toyota, a Sony, a Honda, a Matsushita (Panasonic), a Mitsubishi e dezenas de outras empresas transformaram-se em gigantes globais. O Japão, que em 1945 fabricava aviões de combate com peças defeituosas, em 1980 fabricava os automóveis, os televisores e os semiconductores mais fiáveis do mundo. A bolsa de Tóquio acompanhou este crescimento: o Nikkei 225, o índice de referência, subiu de cerca de 100 pontos em 1950 para quase 39.000 pontos no final de 1989 — uma multiplicação de quase 400 vezes em quarenta anos.

A Bolha de 1989 — A Maior de Todas

A bolha japonesa do final dos anos 1980 foi, pela maioria das métricas, a maior bolha de activos da história. No pico, em Dezembro de 1989, o mercado de acções japonês valia mais do que o americano. O terreno sob o Palácio Imperial de Tóquio (uma área de 3,4 quilómetros quadrados) era teoricamente mais valioso do que todo o estado da Califórnia. Os price-to-earnings ratios ultrapassaram 60. Os bancos emprestavam com garantia de acções e imobiliário que valiam cada vez mais — até que deixaram de valer.

O Nikkei atingiu 38.957 pontos a 29 de Dezembro de 1989. Em menos de três anos, caiu para 14.000. Em 2003, atingiu um mínimo de 7.603 pontos — uma queda de 80% em relação ao pico. Vinte e quatro anos depois do pico, o Nikkei ainda não tinha recuperado o nível de 1989. Para os investidores que compraram no topo, foi uma vida inteira de perdas. É o cenário que todo o investidor teme — e a razão pela qual a diversificação geográfica é tão importante. Um investidor que tivesse 100% da sua carteira no Japão em 1989 ainda estaria à espera de recuperar em 2013.

As «Décadas Perdidas» — 1990-2012

O período que se seguiu ao crash é conhecido como as «décadas perdidas» do Japão — duas décadas de crescimento económico anémico, deflação persistente, taxas de juro em zero e uma crise bancária silenciosa que consumiu bancos inteiros. Os bancos japoneses, carregados de empréstimos incobráveis sobre imobiliário que valia uma fracção do que tinham emprestado, transformaram-se em «zombies» — vivos mas incapazes de emprestar. O governo tentou estimular a economia com gastos públicos massivos (a dívida pública subiu para 200% do PIB), mas sem sucesso sustentado.

Para os investidores, as décadas perdidas foram um teste de paciência sem precedentes. O Nikkei passou 34 anos abaixo do pico de 1989, finalmente ultrapassando-o em 2024. Mas dentro deste período desolador, houve oportunidades: quem comprou no fundo de 2003 ou de 2009 e manteve as posições obteve retornos excelentes. A lição é que mesmo no pior mercado imaginável, o timing de entrada importa enormemente — comprar barato supera quase sempre as adversidades macroeconómicas.

A Fusão com Osaka — Nasce o JPX

Em 2013, a Bolsa de Tóquio fundiu-se com a Bolsa de Osaka para criar o Japan Exchange Group (JPX) — o terceiro maior operador de bolsas do mundo por capitalização das empresas cotadas. A fusão foi motivada pela necessidade de escala e eficiência num mundo onde as bolsas competem globalmente. A Bolsa de Osaka trouxe a sua especialidade em derivados (futuros e opções sobre o Nikkei negoceiam em Osaka), enquanto a TSE manteve o mercado à vista de acções. O JPX é hoje o centro financeiro dominante da Ásia, juntamente com Hong Kong e Xangai.

O Renascimento — Abenomics e Reforma Corporativa

A partir de 2013, sob o primeiro-ministro Shinzo Abe, o Japão adoptou uma política económica agressiva apelidada de «Abenomics»: estímulo monetário massivo pelo Banco do Japão (que chegou a comprar ETFs de acções japonesas directamente), gastos públicos e reformas estruturais. O resultado foi uma recuperação lenta mas real do mercado de acções. Mais importante, o JPX introduziu reformas de governança corporativa que estão a transformar a cultura empresarial japonesa: pressão para que empresas aumentem o retorno sobre o capital próprio (ROE), reduzam participações cruzadas e devolvam capital aos accionistas através de dividendos e recompras de acções.

Estas reformas são significativas porque atacam o problema estrutural do mercado japonês: empresas com balanços cheios de dinheiro e participações cruzadas que deprimiam os retornos para accionistas. A melhoria gradual da governança corporativa japonesa é, possivelmente, a razão mais importante para estar optimista sobre a bolsa de Tóquio a longo prazo.

Para o Investidor Europeu

Para investidores europeus, o Japão oferece diversificação geográfica genuína — a economia japonesa segue ciclos próprios, com baixa correlação com a Europa e correlação moderada com os EUA. Os ETFs como o iShares Core MSCI Japan UCITS ETF e o Xtrackers Nikkei 225 UCITS ETF são os veículos mais acessíveis. A exposição cambial ao iene é significativa: o iene tende a valorizar em crises globais (refúgio) e a desvalorizar quando o apetite pelo risco aumenta.

A grande lição da Bolsa de Tóquio para qualquer investidor é simultaneamente humilde e vital: mesmo os melhores mercados podem decepcionar durante décadas. O Japão não era uma economia de fronteira ou um caso especial — era a segunda maior economia do mundo, com empresas de classe mundial e uma população educada e trabalhadora. E mesmo assim, a bolha de 1989 precisou de 34 anos para ser recuperada. A diversificação não é uma sugestão — é uma necessidade existencial. Porque se pode acontecer ao Japão, pode acontecer a qualquer mercado. Incluindo o seu.