Do Coffee House à Bolsa Formal

Nos séculos XVII e XVIII, os cafés de Londres eram os centros nevrálgicos do comércio e da informação. O Lloyd's Coffee House deu origem ao maior mercado de seguros do mundo. O Jonathan's Coffee House deu origem à bolsa de valores. Os corretores de acções reuniam-se ali para trocar títulos da Companhia das Índias Orientais, da South Sea Company e de outras empresas da época colonial britânica. Em 1801, a bolsa formalizou-se com regulamento e edifício próprio — no mesmo quarteirão onde continuaria durante mais de dois séculos.

A história da LSE está entrelaçada com a história do capitalismo. A bolha da South Sea Company (1720) — uma das primeiras grandes bolhas especulativas da história — aconteceu em Londres. As ferrovias britânicas do século XIX foram financiadas na LSE. A expansão do Império Britânico foi bancada por capitais levantados na City. E quando o centro de gravidade financeiro se deslocou para Nova Iorque no século XX, Londres manteve-se como o segundo maior centro financeiro do mundo — uma posição que ocupa até hoje, apesar de todas as previsões em contrário.

O FTSE 100 e a Estrutura Actual

O índice de referência da LSE é o FTSE 100 (Financial Times Stock Exchange 100), que agrupa as 100 maiores empresas por capitalização. É complementado pelo FTSE 250 (as seguintes 250 empresas, mais representativas da economia doméstica britânica) e pelo FTSE All-Share (todas as empresas cotadas). A LSE é hoje parte do London Stock Exchange Group (LSEG), que inclui também a Borsa Italiana (comprada em 2007), a Refinitiv (dados financeiros, comprada em 2021 por 27 mil milhões de dólares) e o serviço de compensação LCH. É um grupo diversificado que vai muito além da negociação de acções.

A composição do FTSE 100 reflecte a natureza global de Londres como centro financeiro: Shell, HSBC, Unilever, AstraZeneca, BP, Rio Tinto — são empresas com operações mundiais que escolheram Londres como sede por razões históricas, fiscais e de acesso a capital. Cerca de 75% das receitas das empresas do FTSE 100 vêm de fora do Reino Unido, tornando-o mais um índice global cotado em Londres do que um índice britânico propriamente dito.

O AIM — O Mercado dos Sonhadores

Uma das inovações mais bem-sucedidas da LSE é o AIM (Alternative Investment Market), criado em 1995 como mercado para empresas mais pequenas e em crescimento que não cumprem os requisitos de cotação do mercado principal. O AIM tem regras de admissão mais flexíveis: não exige capitalização mínima, não exige historial de lucros e permite que empresas em fases iniciais de desenvolvimento acedam ao mercado de capitais.

O AIM foi simultaneamente um grande sucesso e um grande perigo. Sucesso porque atraiu milhares de empresas (mais de 3.600 desde a sua fundação) e levantou dezenas de milhares de milhões em capital. Perigo porque muitas dessas empresas eram de qualidade duvidosa — mineiras especulativas, empresas de petróleo sem reservas provadas, start-ups com mais ambição do que receita. O AIM ganhou a reputação de «casino» entre investidores mais conservadores, mas também foi o berço de empresas que cresceram e se tornaram constituintes do FTSE 250 ou mesmo do FTSE 100.

Para o investidor português, o AIM é um mercado de alto risco e alto potencial — definitivamente não para principiantes, mas potencialmente atractivo para quem tem experiência e tolerância à volatilidade de pequenas capitalizações.

Big Bang — A Revolução de 1986

O momento mais transformador da história moderna da LSE foi o chamado Big Bang de 27 de Outubro de 1986. Nesse dia, o governo de Margaret Thatcher desregulou radicalmente a bolsa de Londres: eliminou as comissões fixas (permitindo concorrência de preços), aboliu a separação entre corretores (que negociavam em nome de clientes) e dealers (que negociavam por conta própria), e abriu o mercado a empresas estrangeiras. De um dia para o outro, a City de Londres transformou-se de um clube exclusivo de cavalheiros britânicos numa arena global onde bancos americanos, suíços e japoneses competiam ferozmente.

O Big Bang trouxe mais liquidez, mais inovação e mais emprego à City — mas também mais risco, mais complexidade e, eventualmente, mais crises. A cultura de trading agressivo que se instalou após 1986 contribuiu para a criação de instrumentos financeiros cada vez mais complexos que, duas décadas depois, desempenhariam um papel central na crise de 2008. A desregulação criou riqueza enorme mas também risco sistémico que ainda hoje não está completamente controlado.

Pós-Brexit — A City Sobrevive

Quando o Reino Unido votou pela saída da União Europeia em 2016, muitos previram o fim da City de Londres como centro financeiro europeu. Empresas financeiras iriam mudar-se para Frankfurt, Paris ou Dublin. Os bancos iriam transferir milhares de empregos. A London Stock Exchange perderia relevância face à Euronext e à Deutsche Börse.

A realidade, até agora, tem sido mais matizada. Sim, houve transferências de emprego e de certas actividades de trading para a UE. Sim, a negociação de acções europeias em Londres caiu significativamente (parte mudou para Amesterdão e para a Euronext). Mas a City manteve-se como centro global de câmbios (o maior do mundo), de seguros (Lloyd's), de gestão de activos e de private equity. A London Stock Exchange respondeu ao Brexit não com retraimento mas com expansão — a aquisição da Refinitiv por 27 mil milhões de dólares transformou-a numa empresa de dados e tecnologia financeira tanto como numa bolsa de valores.

Para o Investidor Europeu

A LSE permanece uma das bolsas mais importantes para investidores europeus, apesar do Brexit e da consequente separação regulatória. O FTSE 100 oferece exposição a multinacionais globais em sectores (energia, mineração, farmacêutica, tabaco) sub-representados na Euronext. O AIM oferece acesso a small caps que não existem no continente. E a libra esterlina, com a sua tendência a desvalorizar em crises globais e a valorizar em períodos de estabilidade, adiciona uma dimensão cambial interessante à carteira de um investidor da zona euro.

Trezentos anos depois do Jonathan's Coffee House, a bolsa de Londres continua a reinventar-se. Pode já não ser a maior (Nova Iorque ultrapassou-a há muito), pode ter perdido parte do negócio europeu para a Euronext, mas a combinação de historial, sofisticação, profundidade de mercado e resiliência institucional garantem-lhe um lugar central no sistema financeiro global pelas décadas vindouras. É a bolsa que inventou o capitalismo moderno — e que, por enquanto, não parece estar a perder o jeito.