Os Quatro Tipos de Gap

A classificação clássica, popularizada por Edwards e Magee no livro «Technical Analysis of Stock Trends», distingue quatro tipos:

Common Gap (Gap Comum) — o mais frequente e menos significativo. Ocorre em períodos de negociação normal, sem volume excepcional, tipicamente dentro de um range lateral. Common gaps tendem a ser «fechados» rapidamente — o preço regressa para preencher o buraco nos dias seguintes. Não têm grande valor preditivo.

Breakaway Gap (Gap de Ruptura) — o mais importante para o trader. Ocorre quando o preço rompe um nível de suporte e resistência significativo com um salto e volume forte. Marca o início de uma nova tendência. Breakaway gaps frequentemente NÃO são fechados durante meses ou anos — quem espera pelo «fill the gap» pode esperar indefinidamente.

Runaway Gap (Gap de Continuação) — também chamado «measuring gap». Ocorre no meio de uma tendência forte, quando o momentum se intensifica. Confirma a força da tendência existente. Pode servir como referência de objectivo: a distância desde o início do movimento até ao runaway gap é frequentemente replicada na segunda metade do movimento.

Exhaustion Gap (Gap de Exaustão) — ocorre no final de uma tendência, frequentemente com volume climático. Marca o último suspiro de compradores (num topo) ou vendedores (num fundo). É o tipo mais difícil de identificar em tempo real — só se confirma que era de exaustão quando a tendência inverte nos dias seguintes.

A Regra dos Gaps: Fecha ou Não Fecha?

Há uma máxima popular: «todos os gaps são fechados eventualmente.» É verdade na maioria dos casos — estudos mostram que 70-80% dos gaps são preenchidos num prazo de semanas a meses. Mas o diabo está nos 20-30% que não fecham — e esses incluem os breakaway gaps mais importantes, exactamente os que o trader deveria estar a seguir, não a apostar contra.

Regras práticas:

Common gaps — alta probabilidade de fecho (85%+). Estratégia: apostar no fecho.

Breakaway gaps — baixa probabilidade de fecho a curto prazo (30-40%). Estratégia: seguir a direcção do gap.

Runaway gaps — probabilidade média de fecho (50-60%), mas podem demorar muito. Estratégia: seguir a tendência.

Exhaustion gaps — alta probabilidade de fecho rápido (80%+), frequentemente nos primeiros 5 dias. Estratégia: apostar no fecho, mas atenção — identificar é difícil.

Estratégias de Gap Trading

Fade the Gap (apostar no fecho) — a estratégia mais popular. Quando o mercado abre com um gap down (abertura significativamente abaixo do fecho anterior), comprar imediatamente e esperar que o preço suba para fechar o gap durante a sessão. Funciona melhor com common gaps e em mercados sem notícias fundamentais relevantes.

Estatísticas do S&P 500 mostram que gaps de abertura inferiores a 0,5% são fechados no mesmo dia em mais de 70% dos casos. Para gaps maiores (1%+), a taxa de fecho no mesmo dia desce para 40-50%.

Trade the Gap (seguir a direcção) — a estratégia oposta. Quando um gap ocorre com volume forte e rompe um nível significativo (breakaway gap), entrar na direcção do gap. Se a acção abre com gap up acima de uma resistência importante com volume 3x a média, comprar e colocar stop abaixo do gap. Se o gap aguentar, a tendência continua.

Gap and Go — variante popular no day trading. Procurar acções que abrem com gap up de 3-5% (tipicamente por resultados ou notícias). Nos primeiros 15-30 minutos, se o preço se mantiver acima do preço de abertura com volume, comprar. O objectivo é capturar o momentum do primeiro impulso. Stop abaixo do mínimo dos primeiros 5 minutos.

Volume: O Árbitro dos Gaps

O volume é o factor mais importante na análise de gaps. Um gap com volume alto é significativo — há dinheiro real por trás do movimento. Um gap com volume baixo é provavelmente um common gap que será fechado rapidamente.

O volume na primeira hora após um gap é especialmente revelador. Se o volume da primeira hora é 2-3x o normal e o preço mantém-se acima do nível de abertura, o gap tem «follow-through» — é provável que continue na mesma direcção. Se o volume é fraco e o preço começa a recuar, o gap está a ser rejeitado.

Gaps no Mercado Português

No PSI, os gaps são particularmente frequentes por causa do horário de negociação: o mercado fecha às 16h30 e reabre às 8h00 do dia seguinte. Tudo o que acontecer nos mercados americanos entre as 16h30 e o fecho de Wall Street às 21h00, mais os mercados asiáticos durante a noite, pode criar gaps de abertura nas acções portuguesas.

As acções mais líquidas do PSI — EDP, Galp, BCP, Jerónimo Martins — apresentam gaps frequentes, especialmente em dias de resultados trimestrais ou após movimentos fortes nas bolsas americanas. Os resultados da Galp, por exemplo, são publicados antes da abertura e frequentemente provocam gaps de 2-4%.

A baixa liquidez de muitas acções do PSI amplifica os gaps — com poucos compradores e vendedores, o preço pode saltar de 10€ para 10,50€ sem transacções intermédias. Estes gaps de liquidez não têm o mesmo significado técnico que gaps em acções altamente líquidas.

Gestão de Risco nos Gap Trades

Os gaps criam um problema específico de gestão de risco: o stop loss pode ser «saltado». Se tem uma posição longa com stop a 9,50€ e a acção abre a 8,80€ com gap down, o stop é executado a 8,80€ — não a 9,50€. A perda é maior do que a planeada.

Este «gap risk» é inerente a qualquer posição mantida overnight. As formas de o mitigar:

Reduzir posições antes de eventos — resultados trimestrais, dados económicos importantes, decisões de bancos centrais. Se sabe que há um evento que pode causar gap, reduza a exposição.

Position sizing conservador — dimensionar posições assumindo que o gap pode ser 2-3x o stop normal. Se o stop é 2%, dimensionar como se fosse 5%.

Não manter posições overnight em acções ilíquidas — em acções com pouco volume, os gaps podem ser brutais. Melhor fechar ao final do dia e reabrir na manhã seguinte se o setup continuar válido.

Lições do Gap Trading

Os gaps são uma das características mais interessantes dos mercados. Revelam surpresas — informação que chegou quando o mercado estava fechado e que o preço precisa de incorporar instantaneamente. A forma como o mercado reage ao gap nos primeiros minutos e horas é uma janela para o sentimento real dos participantes.

O gap trader bem-sucedido combina dois tipos de conhecimento: saber classificar o tipo de gap (comum, de ruptura, de continuação, de exaustão) e saber ler o volume e a acção do preço na primeira hora para confirmar ou rejeitar a classificação inicial. É mais arte do que ciência — e é por isso que continua a funcionar: não é facilmente automatizável.