A City Antes do Big Bang

A Bolsa de Londres (London Stock Exchange, LSE) antes de 1986 era uma relíquia. As comissões eram fixas — o cliente pagava o que a bolsa determinava, sem possibilidade de negociação. Os «jobbers» (market makers) e os «brokers» (corretores) eram entidades separadas por lei — um jobber não podia ter contacto directo com o público e um broker não podia negociar por conta própria. E a propriedade das casas de corretagem era exclusivamente britânica — nenhum banco estrangeiro podia comprar uma corretora londrina.

O resultado era um mercado caro, ineficiente e provincial. As comissões eram as mais altas da Europa. O volume de negociação era modesto comparado com Nova Iorque ou Tóquio. As grandes empresas britânicas — BP, Shell, ICI — preferiam listar-se em Nova Iorque, onde a liquidez era superior. A City estava a perder relevância para Wall Street a cada ano que passava.

O Acordo de Parkinson-Goodison

Em 1983, o governo de Thatcher chegou a um acordo com a LSE: em troca de o governo retirar um processo antitrust (que visava as comissões fixas), a bolsa comprometia-se a reformar-se radicalmente. O prazo dado foi de três anos. Cecil Parkinson (secretário do Comércio) e Nicholas Goodison (presidente da LSE) negociaram o acordo que mudaria a City para sempre.

A data de 27 de Outubro de 1986 foi escolhida com precisão militar. Não seria uma reforma gradual — seria uma mudança total, instantânea, irreversível. «Big Bang» — o nome pegou, como referência ao momento em que tudo mudou de uma vez.

O Que Mudou a 27 de Outubro

Comissões fixas abolidas. Pela primeira vez, os corretores podiam competir em preço. O resultado foi previsível: as comissões colapsaram. O que custava 50 libras passou a custar 10, depois 5, depois fracções de libra. Os clientes — institucionais e particulares — beneficiaram imediatamente.

Single capacity abolida. A distinção entre jobbers e brokers desapareceu. Uma única empresa podia agora actuar como corretor (executar ordens de clientes) E como market maker (negociar por conta própria). Surgiram os «dual capacity» firms — gigantes integrados que faziam tudo.

Propriedade estrangeira permitida. Os grandes bancos americanos, europeus e japoneses puderam finalmente comprar corretoras britânicas. Goldman Sachs, Morgan Stanley, Deutsche Bank, Nomura — todos entraram na City. O capital e o talento internacionais inundaram Londres.

Trading electrónico. O pregão físico — onde os jobbers negociavam cara a cara — foi substituído pelo SEAQ (Stock Exchange Automated Quotation), um sistema electrónico de cotações. O pregão tornou-se, de um dia para o outro, um espaço vazio.

A Transformação da City

O Big Bang transformou a City de Londres de forma irreversível. As pequenas firmas familiares britânicas — com nomes como Cazenove, Warburg, Kleinwort — foram compradas por gigantes internacionais. Os «old boys» de escolas públicas que dominavam a City foram substituídos por traders agressivos de origens diversas. A cultura mudou: de «my word is my bond» (a minha palavra é a minha garantia) para «show me the money» (mostra-me o dinheiro).

O número de pessoas empregadas no sector financeiro londrino explodiu. Novos escritórios surgiram em Canary Wharf (os Docklands), onde antes havia armazéns abandonados. Os salários no sector financeiro dispararam — criando uma nova classe de «yuppies» (young urban professionals) que transformaram bairros inteiros de Londres.

A Morte dos «Old Boys»

O impacto cultural do Big Bang é frequentemente subestimado. Antes de 1986, a City funcionava como um clube privado: os parceiros das firmas de corretagem conheciam-se desde a escola, almoçavam juntos, bebiam juntos. Os negócios fechavam-se com um aperto de mão num clube de Mayfair. As mulheres eram praticamente inexistentes. Os não-britânicos eram tolerados mas não acolhidos. A meritocracia era limitada — o que importava eram as ligações familiares e a escola frequentada.

Depois do Big Bang, a City transformou-se numa máquina global e meritocrática — pelo menos em termos de resultados financeiros. Os traders americanos, os quants europeus, os vendedores de obrigações de qualquer origem podiam prosperar se gerassem lucros. O dinheiro substituiu o pedigree como critério de sucesso. Para muitos, isto foi progresso. Para outros, a perda de algo valioso: a confiança pessoal que lubrificava as transacções quando «a minha palavra era a minha garantia».

Londres versus Nova Iorque

O objectivo estratégico do Big Bang era tornar Londres competitiva com Nova Iorque. Nesse sentido, foi um sucesso espectacular. Londres tornou-se o maior centro de comércio cambial do mundo (com mais de 40% do volume global), o maior centro de seguros (Lloyd's), e um dos maiores centros de gestão de activos. O fuso horário — que permite negociar com Tóquio de manhã e Nova Iorque à tarde — deu a Londres uma vantagem natural que a desregulação potenciou ao máximo.

Hoje, Londres e Nova Iorque são os dois centros financeiros dominantes do planeta — embora o Brexit tenha introduzido incertezas sobre o futuro de Londres. Mas sem o Big Bang, Londres teria ficado para trás — possivelmente ultrapassada por Frankfurt ou Zurique. Thatcher não salvou a City por sentimentalismo: salvou-a porque o sector financeiro representava (e representa) uma fatia enorme da economia britânica, dos empregos qualificados e das receitas fiscais.

Os Custos e as Consequências

O Big Bang não teve apenas efeitos positivos. A desregulação criou uma cultura de risco que se foi acumulando durante duas décadas. Os bancos tornaram-se «too big to fail» — demasiado grandes para que o governo os deixasse falir. A alavancagem cresceu sem controlo. Os bónus dos traders incentivavam a tomada de riscos de curto prazo. As consequências ficaram evidentes na crise financeira de 2008: o Royal Bank of Scotland, o HBOS e o Northern Rock colapsaram, e o contribuinte britânico pagou milhares de milhões em resgates.

A linha directa entre o Big Bang de 1986 e a crise de 2008 é clara: a desregulação que tornou a City eficiente e competitiva também a tornou perigosa. A eficiência e a estabilidade são, nos mercados financeiros, frequentemente objectivos contraditórios.

Lições para o Investidor

O Big Bang ensina que a estrutura dos mercados importa tanto como o que se negoceia neles. Comissões mais baixas, mais liquidez, mais acesso — tudo isto beneficia o investidor individual. Mas a desregulação excessiva cria riscos sistémicos que acabam por recair sobre todos — incluindo contribuintes que nunca investiram um cêntimo na bolsa. O investidor prudente aprecia os benefícios da liberalização (custos baixos, mercados líquidos) mas mantém-se consciente dos riscos que essa mesma liberalização cria.