A Ascensão — De Startup a Campeã do DAX

A Wirecard foi fundada em 1999 em Munique, na Alemanha, numa altura em que o mundo vivia a febre das dot-com. Começou como um processador de pagamentos online — uma empresa que intermediava transacções electrónicas entre comerciantes e consumidores. Nos primeiros anos, a Wirecard era uma empresa modesta, conhecida sobretudo por processar pagamentos para sites de jogo online e conteúdos para adultos — sectores que os grandes processadores de pagamentos evitavam.

Em 2002, Markus Braun, um austríaco com formação em informática, tornou-se CEO. Braun era discreto, metódico e obcecado com tecnologia. Vestia invariavelmente de preto, usava gola alta no estilo Steve Jobs, e projectava a imagem de um visionário tecnológico europeu. Sob a sua liderança, a Wirecard expandiu-se rapidamente: novos mercados, novos produtos, novos clientes. A empresa adquiriu bancos, obteve licenças de pagamento em múltiplos países, e posicionou-se como uma plataforma tecnológica global de processamento de pagamentos.

O crescimento reportado era impressionante. As receitas subiam consistentemente, trimestre após trimestre. Os lucros superavam sempre as expectativas dos analistas. A Wirecard era a favorita dos investidores institucionais alemães, que viam nela finalmente uma empresa tecnológica europeia capaz de competir com as gigantes americanas. Em Setembro de 2018, a Wirecard atingiu o apogeu: foi incluída no DAX 30, o índice das 30 maiores empresas cotadas na Alemanha, substituindo o Commerzbank — um dos maiores bancos do país. A capitalização bolsista ultrapassou os 24 mil milhões de euros. Braun era celebrado como o maior empreendedor tecnológico da Alemanha.

Dan McCrum e o Financial Times — Os Alertas Ignorados

As primeiras bandeiras vermelhas sobre a Wirecard surgiram muito antes do colapso. Em 2008, já havia relatórios de analistas que questionavam a transparência das contas. Em 2015, Dan McCrum, um jornalista investigativo do Financial Times, publicou uma série de artigos sob o título «House of Wirecard» que apontavam para irregularidades graves na contabilidade da empresa — especificamente nas operações asiáticas, que representavam uma parcela crescente das receitas reportadas.

McCrum e os seus colegas do FT identificaram padrões preocupantes: receitas na Ásia que pareciam inflacionadas, «parceiros de negócio» que eram difíceis de contactar ou verificar, aquisições de empresas cujo valor real era questionável, e transacções circulares — o chamado «round-tripping» — em que dinheiro saía da Wirecard para terceiros e voltava disfarçado de receita. As investigações eram meticulosas, documentadas e publicadas num dos jornais financeiros mais respeitados do mundo.

A resposta da Wirecard às investigações do FT foi, em retrospectiva, um dos maiores sinais de alarme que os investidores deveriam ter notado. Em vez de responder às questões com transparência e dados, a empresa atacou. Contratou advogados agressivos para ameaçar o Financial Times com processos de difamação. Contratou a consultora de inteligência empresarial Kroll para investigar McCrum, a sua vida pessoal, os seus contactos e os seus movimentos. Funcionários da Wirecard pressionaram contactos nos reguladores e na comunicação social para desacreditar os jornalistas.

E o mais extraordinário: funcionou. A BaFin — a Bundesanstalt für Finanzdienstleistungsaufsicht, o regulador financeiro alemão, equivalente à CMVM portuguesa ou à SEC americana — em vez de investigar a Wirecard, investigou quem acusava a Wirecard. Em 2019, a BaFin tomou a medida sem precedentes de proibir a venda a descoberto de acções da Wirecard durante dois meses, citando ameaças à estabilidade do mercado. O regulador que deveria proteger os investidores estava activamente a proteger a empresa que os defraudava.

A Fraude — 1,9 Mil Milhões que Nunca Existiram

O mecanismo central da fraude da Wirecard era simultaneamente audacioso e estúpido na sua simplicidade. A empresa reportava receitas e lucros provenientes de operações de processamento de pagamentos na Ásia — sobretudo nas Filipinas, na Índia e no Sudeste Asiático — que eram largamente fictícias. Os «parceiros de negócio» que supostamente geravam estas receitas eram, em muitos casos, empresas fantasma controladas directa ou indirectamente por insiders da Wirecard.

O dinheiro que estas operações fictícias supostamente geravam era reportado como existindo em contas fiduciárias (trustee accounts) em dois bancos nas Filipinas: o BDO Unibank e o Bank of the Philippine Islands. A Wirecard reportava regularmente saldos de 1,9 mil milhões de euros nestas contas. Estes saldos apareciam nas demonstrações financeiras auditadas. A EY, auditora da Wirecard desde 2009, confirmava estes saldos — supostamente com base em confirmações bancárias independentes.

O problema? O dinheiro não existia. As confirmações bancárias eram falsificadas. Quando a EY finalmente tentou verificar directamente com os bancos filipinos — algo que deveria ter feito muito antes — os bancos confirmaram que as contas não existiam ou tinham saldos muito inferiores aos reportados. 1,9 mil milhões de euros tinham sido inventados. Não eram dinheiro desviado ou escondido — eram pura ficção contabilística.

A questão óbvia é: como é que a EY, uma das Big Four, auditou a Wirecard durante mais de uma década sem detectar que 1,9 mil milhões simplesmente não existiam? A resposta envolve uma combinação de confiança excessiva nos documentos fornecidos pela empresa, falta de verificação independente directa junto dos bancos (durante anos, a EY aceitou confirmações que passavam pela própria Wirecard em vez de ir directamente aos bancos), e o fenómeno bem documentado de «confirmation bias» — a tendência para ver o que esperamos ver em vez do que realmente existe.

O Colapso — Uma Semana de Junho

O castelo de cartas desmoronou-se com uma velocidade impressionante em Junho de 2020. A 18 de Junho, a EY anunciou que não podia assinar as contas de 2019 porque não conseguia confirmar a existência de 1,9 mil milhões de euros. As acções da Wirecard caíram 62% num único dia, de 104 para 40 euros.

A 19 de Junho, Markus Braun tentou minimizar a situação, sugerindo que a Wirecard poderia ser «vítima de fraude de dimensão considerável». O mercado não acreditou. As acções caíram mais 35%. A 19 de Junho, Braun demitiu-se. No dia seguinte, a Wirecard admitiu publicamente que os 1,9 mil milhões «provavelmente não existem».

A 22 de Junho, Braun foi preso. Pagou uma caução de 5 milhões de euros e foi libertado, mas seria detido novamente semanas depois. A 25 de Junho, a Wirecard declarou insolvência — tornando-se a primeira empresa na história a sair do DAX 30 para a falência. O preço das acções, que tinha atingido 199 euros em 2018, caiu para menos de 2 euros. Os mais de 300.000 accionistas individuais e institucionais que detinham acções da Wirecard perderam praticamente tudo.

Jan Marsalek — O Fantasma

Se Markus Braun era o rosto público da Wirecard, Jan Marsalek era o homem das sombras. O COO austríaco era descrito por colegas como carismático, poliglota, e obcecado com espionagem e geopolítica. Tinha contactos em serviços de inteligência de vários países. Viajava constantemente para destinos exóticos. Era responsável pelas operações internacionais da Wirecard — precisamente a área onde a fraude estava concentrada.

Quando a fraude foi revelada, Marsalek fugiu. Oficialmente, o seu paradeiro é desconhecido. Mas investigações jornalísticas e de agências de inteligência apontam para que tenha fugido primeiro para a Áustria, depois para a Bielorrússia, e finalmente para a Rússia, onde estaria sob protecção dos serviços de inteligência russos. Existe um mandado internacional de captura da Interpol contra Marsalek, mas a probabilidade de extradição da Rússia é, na prática, zero.

A ligação de Marsalek a serviços de inteligência acrescenta uma dimensão geopolítica extraordinária ao caso. Investigações subsequentes revelaram que Marsalek terá fornecido informações sensíveis sobre o sistema financeiro europeu a agentes russos, e que poderá ter facilitado operações de branqueamento de capitais através da Wirecard. O caso deixou de ser apenas sobre fraude empresarial e passou a levantar questões sobre segurança nacional.

O Falhanço Regulatório — A BaFin e a Vergonha Alemã

O aspecto mais perturbante do caso Wirecard não é a fraude em si — fraudes empresariais acontecem em todos os países e em todas as épocas. O que torna o caso excepcional é o falhanço total do sistema regulatório que deveria ter protegido os investidores.

A BaFin, o regulador financeiro alemão, tinha sido alertada repetidamente — pelo Financial Times, por short sellers, por analistas independentes — de que algo estava gravemente errado na Wirecard. Em vez de investigar, a BaFin protegeu a empresa. Proibiu short selling. Apresentou queixa criminal contra jornalistas do FT por alegada manipulação de mercado. Classificou a Wirecard como empresa tecnológica e não como empresa financeira, recusando supervisão completa.

As razões para este comportamento foram múltiplas. Havia o orgulho nacional: a Wirecard era a estrela tecnológica alemã, e admitir que era uma fraude seria uma humilhação nacional. Havia a captura regulatória: funcionários da BaFin tinham investimentos pessoais em acções da Wirecard enquanto a regulavam. Havia a incompetência: a BaFin simplesmente não tinha as competências técnicas para auditar uma empresa fintech complexa com operações globais.

Após o colapso, a BaFin foi profundamente reformada. O presidente foi demitido. Novas regras de supervisão foram implementadas. Funcionários foram proibidos de investir em empresas que supervisionavam. Mas o dano à credibilidade regulatória alemã foi profundo e duradouro. Se o regulador da maior economia da Europa não consegue detectar uma fraude de 1,9 mil milhões durante mais de uma década, que garantia tem qualquer investidor de que está protegido?

Para o Investidor — Quando o Sistema Todo Falha

Quando uma empresa responde a acusações com agressão, essa é a resposta. A Wirecard não refutou as investigações do Financial Times com dados e transparência — atacou com advogados, detectives privados e pressão política. Este padrão de comportamento — atacar o mensageiro em vez de responder à mensagem — é um dos sinais de alarme mais fiáveis de que algo está escondido. Uma empresa legítima que é falsamente acusada responde com factos. Uma empresa fraudulenta responde com ameaças.

Os reguladores podem falhar completamente. A BaFin não só não detectou a fraude como protegeu activamente a empresa fraudulenta contra quem a denunciava. Para o investidor, a lição é dolorosa mas essencial: não devemos confiar na supervisão regulatória como substituto da nossa própria diligência. Os reguladores são compostos por pessoas — pessoas que podem ser incompetentes, influenciadas ou simplesmente sobrecarregadas. A protecção final do investidor é a sua própria análise.

Estar num índice prestigiado não é garantia de legitimidade. A Wirecard era membro do DAX 30 — o índice mais importante da Alemanha, equivalente ao CAC 40 francês ou ao FTSE 100 britânico. A sua inclusão no índice obrigou fundos passivos e ETFs a comprar as suas acções, conferindo-lhe uma aura de legitimidade que reforçava a fraude. Milhões de investidores que simplesmente compraram um ETF do DAX ficaram involuntariamente expostos a uma empresa fraudulenta. A indexação passiva tem muitas vantagens, mas a selecção cega não é uma delas.

Auditar os auditores. A EY auditou a Wirecard durante mais de uma década e nunca detectou que 1,9 mil milhões de euros eram fictícios. A confiança na marca de uma Big Four como garantia de veracidade das contas é um erro que os investidores cometem repetidamente — o mesmo erro que foi cometido com a Arthur Andersen na Enron e na WorldCom. Os auditores são essenciais, mas não são infalíveis, e a sua independência nem sempre é tão robusta quanto deveria ser.

A diversificação geográfica protege contra falhas sistémicas nacionais. Os investidores alemães com posições concentradas em acções do DAX sofreram um duplo golpe: perderam dinheiro directamente com a Wirecard e perderam confiança no sistema regulatório do seu próprio país. A diversificação internacional não protege apenas contra riscos económicos — protege contra falhas institucionais que são, por definição, imprevisíveis.

A Wirecard é, para o investidor europeu, o que a Enron foi para o investidor americano: a prova de que fraudes de grande escala podem acontecer nos mercados mais regulados e mais sofisticados do mundo. Que auditores, reguladores, analistas e agências de rating podem todos falhar ao mesmo tempo. E que a única protecção verdadeiramente fiável é a combinação de diversificação, cepticismo saudável, e a disposição para prestar atenção aos sinais de alarme — mesmo quando toda a gente à nossa volta está a ignorá-los. Porque quando os jornalistas investigativos e os short sellers gritam «fogo» e a empresa responde contratando advogados em vez de bombeiros, provavelmente há fogo.