Não é necessário ser economista ou ter conhecimentos especiais sobre o mercado de capitais para afirmar que o crescimento da economia de um país provoca o aumento do valor das acções nas respectivas bolsas. O crescimento económico é dado pelo crescimento do PIB, sendo
PIB = Consumo + Investimento + Exportações - Importações.
Estas parcelas podem ser subdivididas, mas esta é uma questão que não nos interessa por agora. O nosso objectivo neste artigo é verificar a existência de ciclos económicos na economia portuguesa e averiguar a forma como esses ciclos influenciam as valorizações ou desvalorizações dos índices bolsistas. O PIB real (a preços constantes) das economias, no longo prazo, pode ser representado por uma quase recta crescente. Quero dizer com isto que a economia cresce sempre no longo prazo, ou alguém duvida que hoje, no mundo e em média, estamos mais ricos do que há 20 ou 30 anos atrás?
Embora a economia tenha uma tendência ascendente, a sua ascensão não é estável, o seu dinamismo impõe movimentos cíclicos de crescimento e recessão (dois trimestres consecutivos de diminuição do PIB real), de aceleração e desaceleração. Neste momento é necessário introduzir duas hipóteses que penso que nenhum investidor refutará:
A) Os mercados movem-se em tendências mais ou menos bem definidas, existindo quatro tipos:
1. Ascendente ou Bull Market
2. Lateral
3. Descendente ou Bear Market
4. Caótico ou "random walk"
B) Os mercados financeiros como a bolsa descontam o futuro, ou seja, se existe expectativa de melhoramento da economia ou de publicação de boas notícias a bolsa sobe com essa expectativa e não com a materialização do evento. Quando as expectativas são negativas a bolsa também reage hoje, mas no sentido da queda, como é evidente. Pode aplicar-se aqui uma regra de intervenção defendida por traders em Wall Street, provavelmente há mais de cem anos: "Buy the rumour, sell the fact".
Devido a esta hipótese B verifica-se que o ciclo bolsístico antecede o ciclo económico, pelo que a bolsa começa a subir enquanto a economia está em recessão (ou perto disso) antecipando-se uma fase de expansão, e começa a cair provavelmente antes do pico da expansão económica, pois os agentes mais ágeis e informados vêem já as nuvens negras no horizonte. Vamos agora averiguar como esta "teoria" se adequa aos dados bolsísticos e economia portuguesa:


Índice Banco Totta & Açores e BVL 30:


No gráfico com a taxa de variação anual do PIB verificamos que existiram recessões na nossa economia nos anos de 1975, 1984 e 1993. Curiosamente, a série do PIB indica-nos um ciclo completo com uma duração de 9 anos, exactamente o espaço temporal defendido por Juglar (economista clássico que estudou os ciclos económicos) para um ciclo de negócios numa economia desenvolvida.
Em 75, a bolsa não subiu pois estava fechada. Desde a revolução de Abril de 1974 até Abril de 1977 a bolsa esteve encerrada, provavelmente devido à orientação política da época, virada para uma economia de tipo socialista não regulada pelo mercado.
Em 84, antes da recuperação da economia a bolsa disparou para um Bull Market de proporções manifestamente exageradas que terminou com o famoso crash de 87, repare-se, em plena expansão económica. No ano de 93, com a economia a entrar em recessão, teve início o Bull Market que disfrutámos até Abril de 98. Agora que a economia, segundo alguns indicadores que noutros artigos caberá explicar, atingiu o pico da expansão económica, estamos a viver novamente um Bear Market. Repare-se que o fundo de 93 é superior ao fundo de 83, e que o pico de 98 é superior ao pico de 87. Assim, demonstra-se empiricamente, pelo menos para o período considerado, que no muito longo prazo as acções sobem sempre. Mas atenção: quem comprou acções em Outubro de 87 e ficou à espera de melhores dias esperou 10 anos para apenas "ficar em casa".
Apesar das acções serem um bom investimento numa óptica de muito longo prazo, se pudermos evitar as quedas intercalares, porque não fazê-lo, comprando e vendendo na altura certa, quando a economia nos dá ordem para avançar e para recuar?
De qualquer forma a História faz-nos prever que o fundo do Bear Market actual será atingido num nível superior ao de 93 (o BVL30 estava em 1.000 pontos nessa altura), e que se a duração do ciclo económico anterior se mantiver, o novo Bull Market terá início em Janeiro de 2002. Verifica-se assim que comprar acções em alturas de recessão económica se pode revelar um bom negócio, pois todas as más notícias já foram previamente descontadas pelo mercado.
NOTA 1: No gráfico das variações do PIB, as barras entre 1960 e 1978 correspondem a variações anuais. As barras correspondentes ao período entre 1979 e o 1º trimestre de 1999 representam variações trimestrais.
NOTA 2: No gráfico da junção entre o Indíce BTA e o BVL 30, devido a dificuldades técnicas, estão omissos os anos de 1985 e 86. Posso no entanto afirmar que nestes anos a bolsa subiu 33,5% e 126,8%, respectivamente.
Bibliografia:
"Ganhar em Bolsa - O mercado de acções" de Fernando Braga de Matos, Editora Elcla;
"A economia portuguesa desde 1960" de José da Silva Lopes, Editora Gradiva;
"O crescimento económico moderno" de Ana Bela Nunes e Nuno Valério, Editora Presença;
"Boletim Mensal de Estatística" do INE.

César Borja