Para se argumentar a favor ou contra esta recuperação é essencial comparar a evolução desde que se saiu da última recessão com a evolução de periodos anteriores de crescimento económico pós-recessão. Fui assim buscar alguns dados das últimas cinco pós-recessões que tiveram lugar a partir de 1960, 70, 75, 82 e 91, entre eles crescimento económico, emprego, salários e produtividade, e comparei-os com os números actuais. A investigação baseou-se nos dados sobre os 11 trimestres pós último trimestre negativo de crescimento económico. Onze trimestres porque foi o tempo que passou desde a última recessão em 2001 até aos últimos dados actuais disponíveis (Junho de 2004).

O crescimento económico é dado pelo PIB (Produto Interno Bruto) o qual surge da soma do Consumo e investimento privado, Consumo e investimento público e Exportações menos Importações.

O consumo privado tem a maior fatia no crescimento económico, actualmente 70%, e por isso, qualquer indicador que anteveja uma diminuição do consumo privado é muito preocupante. Mas, há que ter em conta que uma diminuição do consumo privado, ou de qualquer outra parcela do crescimento económico, pode sempre ser compensado por um aumento de outro item. Por exemplo, uma diminuição do consumo privado pode ser compensado pelo aumento do consumo público ou pela diminuição das importações e aumento das exportações.

Actualmente, a grande preocupação dos economistas é a falta de capacidade da economia norte-americana em criar emprego, porque se não houver criação de emprego, uma elevada fatia da população tem menos dinheiro no bolso para gastar e pagar as suas dívidas, criando preocupações sobre a sustentabilidade do crescimento económico. Além disso, a não criação de emprego põe maior pressão sobre os dinheiros públicos, já que existe um maior gasto via subsídios de desemprego e uma menor receita via contribuições para a segurança social.

Como se pode ver pela tabela abaixo, o crescimento médio trimestral dos salários, valores desinflacionados, está a ser neste ciclo económico 10 vezes abaixo do registado em periodos anteriores.



Mas já nos anos 90, a criação de emprego pós recessão foi uma preocupação, porque a economia não estava a gerar os empregos que normalmente deveria criar. Na altura chamou-se de “jobless recovery” a esta situação, termo utilizado também actualmente para caracterizar a recuperação actual. Segundo o Relatório de Política Monetária ao Congresso de Julho de 1993, salientava-se que apenas em Maio de 1993, o emprego assalariado tinha voltado aos níveis de pré-recessão, dois anos após o início do ciclo económico, e comparativamente, a perda de empregos normalmente deveria ser revertida no primeiro ano de expansão. As razões descritas apontavam para o aumento dos prémios de seguro de saúde e outros benefícios, e incerteza quanto a políticas governamentais. As firmas estavam a depender cada vez mais de trabalhadores temporários, de modo a terem maior flexibilidade para responder a flutuações na procura dos seus produtos.

Mas como veremos ao longo do artigo, a situação vivida nos anos 90 foi muito menos preocupante do que a que se vive actualmente. Vamos então aos factos...

Todas as primeiras sextas-feiras de cada mês é divulgado nos Estados Unidos um relatório com a taxa de desemprego, os ganhos médios por hora e a criação de postos de trabalho. A criação de postos de trabalho não é mais do que a diferença entre o número de pessoas a receber salário num mês face ao mês anterior. Obviamente, que como a população dos Estados Unidos está sempre em crescimento, o número de empregos tem tendência para aumentar e assim mensalmente, é acrescentado ao número de assalariados já existentes mais um X. Essa tendência acelera em periodos de crescimento e diminui ou inverte-se em periodos de abrandamento económico ou recessão.

Ora, o nosso periodo de análise abrange 11 trimestres de crescimento pós recessão, ou seja expansão, logo é normal que haja mais assalariados no fim desse periodo do que no princípio. E assim foi durante todos os periodos estudados, excepto o actual. Se nós somarmos a criação de postos de trabalho durante os últimos 11 trimestres, a criação de emprego ainda está negativa, o que contrasta com números fortemente positivos nos outros periodos.



São três as explicações normalmente mencionadas para justificar esta evolução “anormal”, mudanças estruturais na economia, ou seja, diminuição ou desaparecimento de algumas indústrias, ganhos de produtividade acima da média e deslocação de mão de obra para o estrangeiro.

Se do último ponto existem provas de que isso possa estar a acontecer, porque as empresas norte-americanas têm deslocalizado as suas áreas de produção para países como a China e Índia, relativamente ao primeiro ponto já vi alguns estudos que o desvalorizam por completo, e o segundo ponto, não concordo na sua totalidade com o mesmo, explicando o porquê mais à frente.

Ao longo do estudo que realizei para escrever este artigo surgiram-me ainda duas questões interessantes que tomei a liberdade de incluir para reflexão dos leitores. São dois pontos, o primeiro nunca mencionado e o segundo apenas brevemente, para o facto da economia norte-americana não estar a criar emprego, e que provavelmente farão algum sentido. A elevada percentagem da população empregada face ao número de habitantes e a diminuição do investimento empresarial.

Se compararmos o número de pessoas empregadas face ao total da população norte-americana, apercebemo-nos que desde os anos 60 até aos anos 90 houve um crescimento muito elevado desse rácio, mas que actualmente tem estado mais estável. Assim, se em 1960 o número de pessoas empregadas era 36% da população total, nos anos 90, o valor rondava os 47% e actualmente é cerca de 48%.



Em minha opinião, o elevado crescimento entre os anos 60 e 90 poderá estar, por um lado, associado ao movimento de emancipação das mulheres e a sua entrada no mercado laboral, e por outro, ao aumento da população nas faixas etárias acima dos 16 anos, ou seja, considerada empregável, consequente do elevado crescimento da população no periodo do “baby-boom”. Posteriormente, a estabilidade do rácio poderá estar associada ao envelhecimento da população.



Se da emancipação das mulheres não tenho dados, mas o incluí devido a senso comum, o qual espero que esteja correcto, da evolução etária da população, a seguinte tabela dá-nos os números que procurávamos.



Como podemos observar, entre 1960 e 1980, a faixa etária dos 15 aos 24 anos sofreu um crescimento de 5 pontos percentuais na população total e posteriormente tem vindo a diminuir esse peso. As faixas etárias mais baixas, desde os menos cinco anos até aos 14 anos sofreram reduções significativas, face à população total, enquanto que caminhando para as faixas etárias com mais idade, a evolução se vai invertendo, e assim nos 65 anos e mais, a percentagem em 1960 era mais baixa 3 pontos percentuais do que actualmente.

Se excluirmos os movimentos migratórios, podemos concluir que o aumento da população depende da taxa de natalidade e da esperança média de vida, e como a primeira tem vindo a diminuir e a segunda a aumentar, existe menos gente a entrar no mercado de trabalho e mais gente a sair do mesmo por via da reforma, limitando desta forma o crescimento dos assalariados face à população total.

Voltando agora à questão da produtividade, a minha razão para pôr em dúvida que esta é um factor fulcral na não criação de emprego, deve-se ao facto de nos anos 60 o crescimento da produtividade ter sido mais elevado do que actualmente, como podemos ver pela tabela abaixo, e nesse periodo o crescimento do emprego ter sido de mais de 3 milhões assalariados.



Como repararam, ou talvez não, mais acima quando falei em não acreditar no factor produtividade como explicação, fiz questão de por em itálico o termo “na sua totalidade”, isto porque, temos ainda de inserir na equação, o nível da taxa de desemprego em cada periodo. Como podemos notar pelo quadro abaixo, as taxas de desemprego mais elevadas ocorreram em 1982, atingindo valores acima dos 10%, e em 1975, com cerca de 9%. Ora, o periodo pós recessão de 1982 e 1975 foram também os periodos com o maior crescimento do emprego neste estudo, 8,2 milhões e 7,7 milhões de empregos criados.



Poderíamos deste modo afirmar que quanto maior a taxa de desemprego no periodo de recessão, maior a criação de emprego no ciclo de crescimento que se lhe segue. Como a taxa de desemprego no fim da última recessão era de apenas 5%, estaria explicada a razão no periodo actual a criação de emprego é tão fraca.

Mas, se tivermos em conta que nos anos 60, a taxa de desemprego máxima foi maior do que a actual em apenas 1 ponto percentual, e quisermos tirar essa diferença da nossa análise à criação de emprego actual, adicionaríamos cerca de 1 milhão de empregos, o que ficaria ainda longe dos 3,3 milhões gerados nos anos 60. Assim sendo, a taxa de desemprego não explica totalmente a não criação de emprego e a produtividade também não é totalmente esclarecedora.

O quadro serve também para compararmos a evolução da taxa de desemprego nos vários periodos e notarmos que o ciclo de crescimento actual é sem dúvida diferente dos outros, já que a taxa de desemprego atingiu o seu máximo já 21 meses passado o fim da recessão, enquanto que nos outros periodos o periodo entre o fim da recessão e o pico máximo do desemprego foi sempre menor do que isso.

Entrando agora noutro ponto interessante e que vi apenas ligeiramente mencionado num estudo, observemos a evolução do PIB e suas componentes nos 11 trimestres findo a recessão dos diferentes periodos.

Se observarmos a seguinte tabela com o crescimento económico saltam três pontos à vista. Primeiro, o crescimento nas duas últimas recuperações económicas é muito mais fraco do que nas anteriores, segundo, o consumo privado tem um peso muito mais elevado nas últimas duas recuperações, e terceiro, e muito importante, o investimento está a ter um crescimento muito mais fraco, devido ao muito fraco investimento não residencial.



Enquanto que nos primeiros quatro ciclos de crescimento, a variação do PIB durante os 11 trimestres analisados foi em média, acima ou perto de 5%, nas duas últimas recuperações foi apenas ligeiramente acima de 3%.

Além do mais, o consumo privado assume nos dois últimos ciclos de crescimento um peso muito mais elevado, mais de 70%, do que nos quatro ciclos anteriores, em que teve um peso entre 48% a 65%. Isto quer dizer, que a economia americana está cada vez mais dependente do consumo privado, por vez de outros factores. O mais importante, em minha opinião será o investimento não residencial, ou seja, o investimento das empresas, que no actual ciclo de crescimento apenas cresceu em média trimestral 1,6%, comparativamente a valores acima de 6% e até mesmo de 10% nos periodos anteriores.

Esta diferente forma da economia crescer, não pode ser em minha opinião, desassociada do elevado endividamento existente. A economia dependente do consumo durante os últimos vinte anos, teve como consequência taxas de poupança em mínimo histórico.





E como na economia, o investimento e a poupança andam lado a lado, com os níveis de poupança actuais, é talvez natural que o investimento seja menor, e por isso, a criação de emprego seja também menor.

A situação do endividamento é preocupante e também a dependência da economia face ao consumo privado, mas temos de tentar ser optimistas e procurar saídas de crescimento aceitáveis e sustentáveis.

Provavelmente todos os ciclos económicos de crescimento tiveram as suas preocupações e muitos duvidaram sobre a capacidade da economia não entrar em recessão a meio do ciclo. Por exemplo, na recuperação económica dos anos 80 o elevado défice orçamental, que atingiu um valor ainda recorde de 6%, foi uma preocupação que fez muitos analistas desacreditarem na possibilidade do crescimento económico ser sustentável. Mas a economia sobreviveu e a segunda metade da década de 80 teve taxas de crescimento muito positivas.

Nos anos 90, a forte subida das taxas de juro em 1994, de 3 para 6%, e que teve como consequência a falência de grandes fundos de obrigações, levou novamente muitos investidores a porem em causa a capacidade da economia não entrar em recessão. Mas, apesar de um periodo de abrandamento, o crescimento manteve-se positivo e a segunda metade da década de 90 foi excepcional para os mercados financeiros.

Estou consciente, de que os perigos vividos nessas duas décadas e provavelmente nas anteriores, estão um pouco acumulados actualmente, isto é, vive-se com um défice orçamental elevado e uma população mais envelhecida, poupança privada diminuta e menor criação de emprego, elevada dependência de financiamento exterior e o mundo mais dependente da economia norte-americana, preço do petróleo elevado e política monetária expansionista e adicionado a isto, sobre-capacidade da indústria. (nos anos 70 a economia falhou passado 13 trimestres; ler artigos A Grande Inflacao dos anos 70 ; O elevado preco do petroleo e igual a recessao? ; Dois enormes defices...uma grande questao )

Mas também sei que a economia é um processo constante de aprendizagem, e obriga-nos a estar sempre preparados para sermos surpreendidos, e normalmente pela positiva. Mas será que com as alternativas de crescimento a serem cada vez menores, esta é uma excepção à regra?

Fica aberta a discussão, gostava de ouvir as vossas opiniões no Forum do Clubeinvest.

João Henriques