O Contexto: Um Bull Market Maduro

Os anos 80 foram a década de Ronald Reagan, dos yuppies e de Wall Street como símbolo de riqueza e poder. O filme «Wall Street» de Oliver Stone, com o célebre Gordon Gekko a proclamar que «greed is good», captava perfeitamente o espírito da época.

O mercado accionista americano tinha subido consistentemente desde 1982. O Dow Jones saiu dos 776 pontos em Agosto de 1982 e atingiu os 2.722 em Agosto de 1987 — uma valorização de 250% em cinco anos. Os investidores estavam habituados a ganhar dinheiro e a volatilidade parecia uma coisa do passado.

Mas por baixo desta calmaria, acumulavam-se tensões. O défice comercial americano estava a aumentar. O dólar enfraquecia. As taxas de juro subiam. E uma inovação financeira relativamente nova — o «program trading» — estava prestes a transformar uma correcção normal num cataclismo.

O Program Trading e o Portfolio Insurance

Nos anos 80, os computadores chegaram a Wall Street com força. Uma das inovações mais populares era o chamado «portfolio insurance» — um sistema automatizado que vendia futuros do índice quando o mercado caía, para proteger carteiras contra perdas. Em teoria, era brilhante. Na prática, era uma bomba-relógio.

O problema era circular: quando o mercado caía, os programas vendiam automaticamente. Essas vendas faziam o mercado cair mais. O que activava mais vendas automáticas. Que faziam o mercado cair ainda mais. Era como um incêndio em que o sistema de combate ao fogo despejava gasolina em vez de água.

Imagine uma sala de cinema cheia. Alguém grita «fogo!» e toda a gente corre para a saída. Mas neste caso, a corrida para a saída é automática — os programas de computador não precisam de ouvir «fogo», bastava que a temperatura subisse meio grau para dispararem todos ao mesmo tempo.

O Dia do Crash: 19 de Outubro

A semana anterior já tinha sido negativa. Na sexta-feira 16, o Dow caiu 4,6% — uma queda significativa que deixou os nervos à flor da pele. Ao longo do fim-de-semana, a ansiedade acumulou-se. Na Ásia e na Europa, os mercados abriram em forte queda na segunda-feira.

Quando Wall Street abriu, o pânico era imediato. As ordens de venda inundaram o mercado. Os market makers — as firmas que normalmente garantem liquidez comprando quando outros vendem — simplesmente recusaram-se a comprar. Desligaram os telefones. A liquidez evaporou-se.

O Dow Jones perdeu 508 pontos numa única sessão — de 2.247 para 1.739. Em termos percentuais, uma queda de 22,6%. Para contextualizar: na Terça-Feira Negra de 1929, a queda tinha sido de 12%. A Segunda-Feira Negra de 1987 foi quase o dobro.

No fórum do Clubeinvest, o membro Fisher resumiu bem a natureza deste crash: «Foi muito rápido. Começou em Outubro de 87 e acabou em Outubro de 87, três semanas depois, apenas. Foi muito violento.»

Paul Tudor Jones: O Herói Improvável

Enquanto a maioria dos gestores e investidores foi apanhada desprevenida, um jovem gestor de fundos chamado Paul Tudor Jones não só previu o crash como lucrou enormemente com ele. Jones tinha estudado os padrões de mercado que antecederam o crash de 1929 e viu paralelos assustadores com 1987.

Um documentário filmado nas semanas antes do crash — e depois retirado de circulação a pedido do próprio Jones — mostra-o a prever quase exactamente o que iria acontecer. O seu fundo ganhou cerca de 62% em Outubro de 1987, enquanto a maioria perdia fortunas.

O Pedro Miranda comentou no fórum: «Interessantíssimo esse vídeo. Há uma entrevista também muito interessante com ele no livro Market Wizards. Quando li o livro, lembro-me de ter ficado espantado.»

O caso de Jones ilustra um princípio fundamental: a história dos mercados repete-se não nos detalhes, mas nos padrões de comportamento humano. Quem estuda o passado ganha vantagem sobre quem ignora.

A Recuperação Surpreendente

Ao contrário do crash de 1929 — que inaugurou uma depressão de uma década — a Segunda-Feira Negra de 1987 foi seguida por uma recuperação relativamente rápida. Em dois anos, o mercado tinha recuperado todas as perdas.

Porquê a diferença? Em 1929, a Reserva Federal contraiu a oferta monetária, transformando um crash na bolsa numa depressão económica. Em 1987, o presidente da Fed, Alan Greenspan, fez exactamente o oposto: inundou o sistema de liquidez e garantiu publicamente que o banco central apoiaria os mercados.

Esta lição — de que os bancos centrais podem e devem intervir durante crises financeiras — tornou-se tão central na política económica que ganhou um nome: o «Greenspan Put». A ideia de que a Fed protegia o mercado contra quedas excessivas. Uma ideia que, para alguns, plantou as sementes das bolhas seguintes.

As Reformas Pós-Crash

A Segunda-Feira Negra levou a reformas importantes:

Circuit breakers — foram criados mecanismos automáticos que suspendem a negociação quando o mercado cai mais de uma determinada percentagem. O objectivo é evitar a espiral de pânico, dando tempo aos investidores para reflectir.

Limites ao program trading — as bolsas implementaram restrições à negociação automatizada em períodos de elevada volatilidade.

Coordenação entre reguladores — o crash demonstrou que os mercados globais estavam muito mais interligados do que se pensava. Uma crise num mercado podia contaminar todos os outros em horas.

A Escalada: Os Meses Antes do Crash

O crash de 19 de Outubro de 1987 não caiu do céu. Nos meses anteriores, vários sinais de alerta acumularam-se — ignorados pela maioria num mercado que subia há cinco anos consecutivos:

Valuações extremas — o S&P 500 tinha subido mais de 40% só em 1987 (até Agosto). O PER do mercado era o mais alto em décadas. Era uma bolha de valuação alimentada pelo optimismo pós-recessão de 1982, pela queda de taxas de juro, e pela «Reaganomics» que desregulamentava os mercados.

Défice comercial americano — os EUA tinham um défice comercial crescente e o dólar estava a enfraquecer. O Secretário do Tesouro, James Baker, ameaçou publicamente permitir a desvalorização do dólar se a Alemanha não baixasse as taxas de juro. O comentário assustou os mercados estrangeiros que detinham activos americanos.

Taxas de juro em subida — após anos de descidas, as taxas de juro de longo prazo começaram a subir no Verão de 1987. As obrigações do tesouro a 30 anos passaram de 7% para 10% em poucos meses — sinalizando inflação crescente e condições de crédito mais restritivas.

Program trading e portfolio insurance — o factor mais perigoso e menos compreendido. Milhares de milhões de dólares estavam investidos através de «portfolio insurance» — uma estratégia que usava futuros do S&P 500 para proteger carteiras contra quedas. Em teoria, funcionava: à medida que o mercado caía, o algoritmo vendia futuros automaticamente para hedger a exposição. Na prática, era uma bomba: quando toda a gente usa o mesmo hedge, a execução simultânea cria uma cascata de vendas que amplifica a queda.

O Dia: 19 de Outubro de 1987

Na semana anterior ao crash, o mercado já tinha caído significativamente: -3,8% na quinta-feira e -2,4% na sexta-feira. Os nervos estavam à flor da pele. Na segunda-feira, a abertura foi catastrófica: o Dow abriu com um gap de -200 pontos e continuou a cair sem pausa.

Os sistemas de portfolio insurance activaram-se em massa: centenas de ordens automáticas de venda de futuros do S&P 500 inundaram o mercado simultaneamente. Os market makers, esmagados pelo volume de vendas, alargaram os spreads ou simplesmente retiraram-se do mercado. A liquidez desapareceu. Os preços caíram no vácuo.

O pânico propagou-se do mercado de futuros para as acções, e das acções para as opções. Os telefones tocavam sem parar — investidores em pânico a pedir para vender tudo, a qualquer preço. Muitas ordens simplesmente não foram executadas porque não havia compradores. Houve momentos durante o dia em que o mercado esteve perto de fechar — os reguladores discutiram a suspensão mas decidiram manter a negociação aberta.

Quando o sino tocou às 16h00, o Dow Jones tinha caído 508 pontos — 22,6%. Em termos percentuais, foi quase o dobro do pior dia do Crash de 1929. Cerca de 500 mil milhões de dólares em valor de mercado evaporaram-se num dia — o equivalente ao PIB de muitos países. Em termos percentuais, continua a ser o pior dia da história do Dow Jones.

A Recuperação: Mais Rápida do que Ninguém Esperava

Ao contrário do Crash de 1929 (que foi seguido por anos de queda), a recuperação de 1987 foi surpreendentemente rápida. A Reserva Federal, sob Alan Greenspan (que tinha assumido a presidência apenas dois meses antes), actuou decisivamente: anunciou publicamente que o Fed «estava preparado para servir como fonte de liquidez para suportar o sistema financeiro». Foi a primeira vez que um presidente do Fed usou linguagem tão explícita para tranquilizar os mercados — e funcionou.

O mercado fez mínimo no dia seguinte (20 de Outubro) e começou a recuperar. Em dois anos, o Dow tinha recuperado todos os pontos perdidos. Em retrospectiva, o crash de 1987 foi uma correcção violenta e rápida, não o início de uma depressão. A economia real não foi significativamente afectada — o PIB continuou a crescer em 1988.

As Consequências: Circuit Breakers e o Greenspan Put

O crash levou à implementação de circuit breakers — mecanismos automáticos que pausam a negociação quando o mercado cai mais de determinadas percentagens (hoje: 7%, 13% e 20% no S&P 500). A ideia: dar tempo aos participantes para processar informação e evitar cascatas de venda em pânico.

Mais importante — e mais controverso — o crash criou o precedente do «Greenspan Put»: a expectativa de que a Reserva Federal interviria para suportar os mercados em momentos de stress. Esta expectativa de resgate influenciou o comportamento dos investidores durante décadas — encorajando risco excessivo com a crença de que o Fed protegeria contra o pior cenário. É um debate que continua até hoje: a intervenção do Fed estabiliza ou cria moral hazard?

Paul Tudor Jones: O Herói de 1987

Enquanto a maioria do mercado perdia fortunas, PTJ e o seu analista Peter Borish tinham previsto o crash com base em paralelos gráficos com 1929. O Tudor Fund ganhou aproximadamente 200% em Outubro de 1987 — uma das maiores trades individuais da história dos hedge funds. Jones tornou-se uma lenda do dia para a noite — e a história do seu trade é contada no documentário «Trader» (que Jones tentou retirar de circulação nos anos seguintes).

A Segunda-Feira Negra de 1987 provou que os crashes são tão parte dos mercados como os bull markets — e que quem está preparado (com liquidez, com hedges, ou simplesmente com a disciplina de não entrar em pânico) pode transformar o pior dia de toda a gente no melhor dia da sua carreira de investimento. A preparação não é opcional — é a diferença entre ser vítima e ser beneficiário de um crash.

Lições da Segunda-Feira Negra

A principal lição de 1987 é que os mercados podem sofrer quedas brutais sem uma razão económica fundamental clara. Não houve nenhuma recessão em 1987, nenhuma crise bancária, nenhum evento geopolítico catastrófico. O crash foi essencialmente um fenómeno de mercado — alimentado por posicionamento excessivo, alavancagem implícita nos programas de trading, e pelo pânico colectivo.

Como escreveu um membro do fórum: «Para se conseguir sucesso no longo prazo não é preciso acertar sempre, nem é possível ninguém acertar sempre. O que é preciso é acertar consistentemente e ter boas regras de money management, limitar as perdas e saber deixar correr os ganhos.» A Segunda-Feira Negra foi o teste definitivo a esta filosofia.